Pandemia de coronavírus

Argentina ultrapassa 10.000 casos diários de coronavírus enquanto cresce a tensão política

Governo de Alberto Fernández, que decretou quarentena em 20 de março, diz que encontros clandestinos são a principal fonte de contágio

Protesto contra a reforma judicial realizado quinta-feira em frente ao Congresso argentino.
Protesto contra a reforma judicial realizado quinta-feira em frente ao Congresso argentino.RONALDO SCHEMIDT / AFP

A curva de contágios do novo coronavírus na Argentina é cada vez mais acentuada. Cinco meses depois de declarar a quarentena obrigatória, ainda em vigor, o Governo de Alberto Fernández anunciou nesta quinta-feira que foram registrados mais de 10.100 casos de covid-19 em 24 horas, um número recorde, elevando o total para mais de 380.000. As mortes passam de 8.000. A pandemia não só está se acelerando, como também se espalhando por todo o país, além de Buenos Aires e sua área metropolitana, que até julho concentravam quase 90% das infecções. Mas o Governo tem cada vez menos margem de manobra para frear a propagação do coronavírus, devido à crescente rejeição em relação às medidas de confinamento e à crescente tensão política.

O prefeito da capital, o macrista Horacio Rodríguez Larreta, e o governador da província de Buenos Aires, o peronista Axel Kicillof, mantêm reuniões periódicas com o presidente para decidir as condições de cada prorrogação quinzenal da quarentena, que está em vigor desde 20 de março. Os três aparecem juntos diante das câmeras, mas com o passar dos meses suas divergências aumentaram. A mais recente é quanto à reabertura das escolas. Rodríguez Larreta apresentou esta semana um protocolo para permitir que voltassem às aulas os alunos que perderam todo o contato com a escola desde a suspensão do ensino presencial. Se a proposta fosse aceita, seriam convocados depois os estudantes do último ano do ensino fundamental e médio. Mas os alunos portenhos terão de esperar: o Governo rejeitou o protocolo.

Fernández já reiterou várias vezes que o confinamento decretado quando a Argentina tinha poucos de casos permitiu ao país ganhar tempo para reforçar o sistema de saúde e, com isso, evitar o colapso hospitalar que ocorreu em países europeus como Espanha e Itália. No entanto, mesmo com o aumento significativo de leitos de terapia intensiva, sua ocupação cresce aos poucos e já chega a 66,7% em Buenos Aires e sua área metropolitana.

Depois do fechamento total de março e abril, o Governo começou a autorizar a retomada de atividades com rigorosas medidas de prevenção, como o uso obrigatório de máscara, a limitação do número de pessoas que podem entrar em um estabelecimento comercial ou compartilhar um espaço de trabalho, e a restrição do serviço de transporte público apenas para trabalhadores essenciais. Mas as infecções continuam em alta e o cansaço da população está aumentando, por isso cada vez menos pessoas respeitam proibições como a de se reunir com parentes ou amigos.

Os encontros clandestinos se tornaram a principal fonte de contágio, segundo o Governo. “Precisamos classificar as atividades de maior risco, as atividades em lugares fechados, por tempo prolongado, com pessoas próximas, sem máscara, realizando ações intensas como falar alto, gritar, cantar, rir, assim como falar, tossir ou espirrar sem cobrir a boca com a parte interna do cotovelo. São atividades em que a pessoa que estiver conosco, mesmo que não tenha sintomas, pode estar incubando o vírus, e podemos fazer parte da cadeia de transmissão”, disse quinta-feira a secretária argentina de Acesso à Saúde, Carla Vizzotti, no relatório matinal sobre a evolução da covid-19 no país.

Suas palavras foram criticadas por opositores do Governo, que convocaram um novo protesto em frente ao Congresso, depois da grande manifestação de 17 de agosto. Dezenas de pessoas exibiram uma enorme bandeira argentina em um abraço simbólico ao edifício legislativo, enquanto outras centenas gritavam slogans contra o Executivo peronista e a vice-presidenta Cristina Fernández de Kirchner. O protesto coincidiu com o início da sessão em que o Senado aprovou um polêmico projeto de reforma judicial, que seguirá agora para a Câmara. A oposição afirma que a iniciativa é uma manobra para garantir a impunidade de Cristina Kirchner em seus processos por corrupção.

A reforma judicial acabou reabrindo a divisão entre peronistas e antiperonistas, que tinha diminuído no início da quarentena, quando a gestão de Alberto Fernández contra a pandemia contava com a aprovação de quase 90% dos argentinos. Agora, segundo a última pesquisa da consultoria Management & Fit, a imagem positiva do presidente caiu para menos de 50%, enquanto a negativa subiu para 26,4%. O prefeito portenho supera o presidente em popularidade por dois pontos —49,7% a 47,8%—, o que ajuda a situá-lo como o principal líder da oposição.

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