Eleições EUA 2020

Convenção dominada por Trump evita abordar debate sobre o futuro do partido

Evento republicano que começa nesta segunda formaliza a candidatura à reeleição e revela a profunda marca deixada pelo presidente na agremiação, apesar da mudança radical de roteiro por causa do coronavírus

O presidente Donald Trump diante de um trecho do muro na fronteira com o México, em junho.
O presidente Donald Trump diante de um trecho do muro na fronteira com o México, em junho.Evan Vucci / AP

Se o lema de campanha do democrata Joe Biden é “uma batalha pela alma do país”, a convenção republicana que começa nesta segunda-feira é a batalha pela alma do partido. Um partido que se entregou aos braços de um presidente rebelde e que agora precisa preparar a vida depois dele. Mesmo se vencer em novembro, Donald Trump irá para seu último mandato. E este conclave marca o início da batalha pelo futuro. Mas o rolo compressor de Trump se dispõe a esmagar qualquer aresta no discurso unipessoal dominante. Confirmando, como já sinalizava o ciclo das primárias, que será difícil apagar sua marca na agremiação.

A tradição determina que o candidato só faz alguma aparição incidental nos primeiros dias, antes de seu grande discurso do encerramento da convenção. Mas isso é muito tempo fora dos holofotes para o gosto de Trump, que decidiu que se dirigirá à nação em horário nobre televisivo em cada um dos quatro dias de uma convenção desenhada por alguns dos produtores do reality show que o lançou ao estrelato. O resto do elenco procede do entorno familiar do presidente ou de sua equipe de apoiadores incondicionais. Nem sequer se esperam notas dissonantes entre os escassos oradores alheios a esse círculo que são tidos como potenciais sucessores, como Nikki Haley, ex-embaixadora dos EUA na ONU, e o senador Tom Cotton.

Mais um sinal de que, mesmo se vier a perder em novembro, não será fácil que Trump leve consigo os sinais que gravou em um partido moldado à sua imagem e semelhança. Sua figura, temem os críticos, marcará à formação durante anos. Prova disso foi o ciclo de primárias para outros cargos, na qual se impôs uma regra de ouro: o candidato mais trumpista ganha.

Quase metade dos 241 deputados republicanos que tinham mandado no Capitólio quando Trump chegou à Casa Branca deixaram a Câmara no meio do mandato dele ou a deixarão em 2021. Com eles saem vozes com alguma possibilidade de serem críticas, para serem substituídas por acólitos como Marjorie Taylor Greene, que acaba de assegurar uma vaga no Congresso ao vencer as primárias de um distrito solidamente republicano na Geórgia. Além de sua tendência a comentários racistas, é defensora da teoria conspiratória QAnon, que basicamente sustenta que uma elite progressista participa de uma rede internacional de pedofilia que estaria preparando um golpe de Estado, orquestrado por Barack Obama, Hillary Clinton e George Soros, e que Trump tenta impedir. “Uma futura estrela republicana”, disse o presidente sobre Greene.

Distrito a distrito, está sendo tecido um Partido Republicano muito diferente do que indicou Mitt Romney como candidato em 2012. O nome do senador por Utah, o único que votou pelo impeachment de Trump, se tornou, aliás, uma arma para atacar rivais nas primárias.

Nos últimos meses, o partido comprovou que, mais que a promessa de baixar impostos ou cortar o gasto público, o que faz a diferença entre os eleitores das primárias republicanas é a adesão a Trump. Um tuíte do presidente apoiando um candidato pode fazê-lo subir 15 a 20 pontos nas pesquisas. Entre 600 anúncios televisivos de candidatos neste ciclo de primárias republicanas, 60% continham referências a Trump, segundo uma análise do site Politico.

Isso pode tornar mais difícil a vitória eleitoral em distritos e Estados onde os eleitores moderados inclinam a balança para um ou outro partido. Mas, consolidando o rastro trumpista nos assentos republicanos seguros, garante-se a sobrevivência do estilo e das ideias do líder mesmo depois de encerrada sua própria vida política. Os críticos temem, portanto, que o futuro seja um partido radicalizado no fundo e na forma, mas incapaz de ganhar eleições.

Pior do que o esperado

O desfile de republicanos na Convenção Democrata da semana passada indica que a resistência interna ao presidente mudou, ao menos temporariamente, de lado. Horas antes de Joe Biden aceitar a indicação democrata, na quinta-feira passada, e quatro anos depois de 50 ex-altos funcionários republicanos da Segurança Nacional advertirem que Trump seria “o presidente mais temerário da história norte-americana”, os mesmos 50, mais outros 20, assinaram outra carta dizendo que sua presidência foi ainda pior do que esperavam e pedindo aos eleitores que apoiem o candidato democrata. “Enquanto alguns de nós temos posturas políticas diferentes das de Joe Biden e seu partido”, diz a carta, “agora é imperativo determos o ataque de Trump aos valores e instituições de nossa nação e restabelecermos os alicerces morais da nossa democracia”.

O denominador comum dos que levantaram a voz é serem todos ex, ou seja, não participam da Administração nem ocupam cargos eletivos. Particularmente ensurdecedor foi o silêncio dos senadores, membros de uma Câmara que se vangloria tradicionalmente de seu respeito às instituições acima inclusive da coloração política. “Vejo os que eram meus colegas quando era senadora e não entendo o que aconteceu com eles”, dizia a ex-candidata presidencial democrata Hillary Clinton em uma entrevista à NBC. “Além de Mitt Romney e alguns outros em algumas votações, não houve nenhuma disposição congruente de gente que deveria se levantar em nome dos fatos e contra o caos gerado por Trump, simplesmente não parecem dispostos. Entendo o argumento político, acham que não é possível dentro do atual Partido Republicano, mas essa explicação não está à altura”.

O fechamento de fileiras ficou mais chamativo quando a crise do coronavírus pôs o projeto de pernas para o ar. Até recentemente, o roteiro era o suficientemente atrativo para que pelo menos os fãs do presidente estivessem dispostos a tampar o nariz por mais quatro anos. Em nome de perspectivas como a de manter as indicações de juízes conservadores para consolidar esse viés na magistratura durante pelo menos uma geração ou continuar surfando na onda do crescimento econômico com a garantia de que não haverá mais impostos, valia a pena tolerar os rompantes tuiteiros e o ridículo internacional. Mas o coronavírus introduziu uma reviravolta. A vitória escapa, a economia já não está nada bem, e o país enterrou em meio ano o dobro de mortos que todos os seus caídos em combate da Segunda Guerra Mundial, por culpa de uma crise sanitária que supera a Administração por todos os lados e expõe dramaticamente os limites de uma gestão baseada na egolatria.

Sem apoio de Bush

Tampouco é excessivamente alentador para os republicanos bem-pensantes o fato de que tantos personagens que levaram Trump à Casa Branca tenham se declarado culpados ou sido condenados por diversos delitos nestes quatro anos. A lista inclui seu ex-chefe de campanha Paul Manafort e seu braço-direito, Rick Gates; seu ex-advogado Michael Cohen; seu ex-assessor de Segurança Nacional Michael Flynn; seu ex-assessor pessoal Roger Stone. E, na semana passada, a polícia deteve seu ex-estrategista-chefe e arquiteto da sua campanha, Steve Bannon.

Hillary Clinton, Bill Clinton, Barack Obama e até Jimmy Carter. Todos os ex-presidentes democratas vivos e a última candidata presidencial do partido tiveram seu discurso na respectiva Convenção. Nesta semana, no conclave republicano, não discursará o único ex-presidente republicano vivo, George W. Bush, nem tampouco, obviamente, o candidato anterior a Trump, Romney.

Depois da derrota dele para Obama em 2012, o partido encarregou um estudo interno para determinar por que havia novamente sido derrotado no voto popular, como ocorre em todas as eleições presidenciais desde 1992. As conclusões foram que o partido precisava chegar mais ao eleitorado não branco, aos jovens e às mulheres. “Então surgiu Donald Trump e o partido jogou todas essas conclusões pela janela com um quase audível suspiro de alívio”, escreveu no The New York Times o consultor político Stuart Stevens, que trabalhou para cinco candidatos presidenciais republicanos. “Trump não sequestrou o Partido Republicano. Ele é a conclusão lógica do que o partido se tornou durante os últimos 50 anos, um produto natural das sementes da perseguição racial, do autoengano e da fúria que agora o dominam. Ponha Donald Trump na frente de um espelho, e esse rosto laranja, inchado e com o cenho franzido é o Partido Republicano hoje”, concluía.

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