Partido de Evo Morales aceita adiamento das eleições enquanto os protestos continuam na Bolívia

O MAS concorda que o pleito presidencial seja em 18 de outubro, com a condição de que não haja mais mudanças de data

Protestos contra o adiamento das eleições na Bolívia.
Protestos contra o adiamento das eleições na Bolívia.Jorge Ábrego / EFE

O Movimento ao Socialismo (MAS), partido do ex-presidente boliviano Evo Morales, aceitou o adiamento das eleições de 6 de setembro para 18 de outubro decretado pelo Tribunal Eleitoral, mas com a condição de que não sejam postergadas novamente por nenhum motivo. A Assembleia Legislativa, controlada por esse partido opositor, aprovou uma lei que ratifica a data, que havia sido inicialmente modificada pelo Tribunal Eleitoral causando um grande conflito social. A adesão do MAS à nova data foi considerada uma “traição” pelos dirigentes dos sindicatos de operários e camponeses, que há uma semana bloqueiam o trânsito em protesto contra o adiamento das eleições presidenciais, entre outras reivindicações. No entanto, pouco depois esses sindicatos ordenaram a suspensão das barricadas nas estradas. Os dirigentes da zona aimará do país (situada na região de La Paz, no oeste) disseram que continuarão sua luta até conseguir a renúncia da chefa do Governo interino, Jeanine Áñez, mas é improvável que possam manter suas ações por muitos dias.

Áñez apresentou a nova lei como uma conquista de seu Gabinete, que resistiu à pressão da elite de Santa Cruz, das associações empresariais e de vários meios de comunicação para que reprimisse os protestos e liberasse as ruas à força. Em vez disso, a presidenta preferiu promover o desprestígio dos bloqueios, que prejudicaram o abastecimento de oxigênio medicinal para hospitais sobrecarregados pela pandemia de coronavírus, além de encarecer fortemente alguns alimentos. Nas últimas horas, foi difundido um vídeo em que um homem agonizante, que morreu pouco depois, critica os manifestantes pela falta de oxigênio para enfrentar as complicações da covid-19. Segundo o Governo, cerca de 40 pessoas morreram por culpa dos bloqueios de estradas.

Os dirigentes sindicais se defenderam afirmando que a falta de oxigênio é anterior aos protestos e se deve à ineficiência governamental, já que as autoridades não aumentaram a oferta da substância nem usaram aviões para transportá-la de Santa Cruz —principal centro de produção— ao restante do país.

A impopularidade dos protestos iniciados pelo MAS levou o partido a mudar de opinião e aceitar a nova data (em vez de continuar brigando pelo 6 de setembro) temendo perder mais apoio nas cidades, onde já tem problemas devido à radical oposição que enfrenta por parte das classes médias e mais abastadas. Várias vezes Evo Morales pediu, da Argentina, que o 18 de outubro fosse aceito. Ainda assim, o MAS introduziu na lei uma cláusula que considera crime tentar mudar outra vez o dia das eleições.

Paralelamente, o Comitê Cívico Pró-Santa Cruz, uma das instituições que lideraram os protestos prévios à derrubada de Evo Morales, em novembro passado, exige que as eleições sejam adiadas e que o MAS seja proibido de participar. O presidente do Comitê, Rómulo Calvo, escandalizou parte do país ao qualificar os manifestantes que bloqueiam as estradas de “bestas humanas” sem racionalidade. Outra parte da população, contudo, apoiou sua declaração.

O candidato do MAS, Luis Arce, lidera todas as pesquisas. Mas não se sabe se o apoio que tem será suficiente para ganhar as eleições de dois turnos. Os sindicatos envolvidos no bloqueio fazem parte do MAS ou colaboraram estreitamente com seu Governo durante 14 anos. A guinada do partido deixou-os numa situação delicada, já que se retiram da mobilização com as mãos vazias. A líder das mulheres camponesas, Segundina Flores, denunciou que elas foram abandonadas pelas pessoas da “classe média” que hoje controlam o MAS e que no passado conduziram tão mal o partido que provocaram a queda de Evo Morales.

Na zona aimará de La Paz, o conflito mostrou o ressurgimento de grupos radicais que se apresentam como “autoconvocados” para se diferenciar do MAS e de seus sindicatos. Insistem em manter isolada a capital administrativa do resto do país. Exigem a renúncia de Áñez, considerando que seu Governo é “racista”. Atacam os três ministros que têm origem croata, em particular Branko Marincovic, um inimigo do Governo de Morales que, segundo este, tentou derrubá-lo em 2008 e tornar o Departamento de Santa Cruz independente do resto da Bolívia. Marincovic, que acaba de entrar no Gabinete, é um dos principais empresários da agroindústria nacional e nega esta última acusação.

O mais conhecido dos dirigentes aimarás mobilizados é Felipe Quispe, que numa recente entrevista à imprensa local disse que todos os Governos, desde a fundação do país, “são estrangeiros, são coloniais que vieram da Europa, da Croácia, de outros lugares”. “Eles nos governam e nós continuamos embaixo. Inclusive nos viram como bestas humanas. Nos viram como selvagens.” Quispe acredita que os brancos devem ir “à sua mãe-pátria”. “Então nós vamos nos autogovernar. Aí teremos um Governo dos Mamani, dos Condori, dos Quispe”, afirmou.



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