Pandemia de coronavírus

Cuba e Estados Unidos voltam aos piores tempos da Guerra Fria

Colaboração médica cubana e um ataque a tiros contra sua Embaixada em Washington fazem disparar a tensão entre ambos os países

Agentes de polícia, na Embaixada de Cuba em Washington, em 30 de abril. Em vídeo, a escalada de tensão entre os dois países.
Agentes de polícia, na Embaixada de Cuba em Washington, em 30 de abril. Em vídeo, a escalada de tensão entre os dois países.Sarah Silbiger / AFP

Como nos piores tempos da Guerra Fria, as tensões entre Washington e Havana dispararam perigosamente nos últimos dias em meio à pandemia do coronavírus. Primeiro foi o chefe da diplomacia norte-americana, Mike Pompeo, quem arremeteu com dureza contra a colaboração cubana em diversos países, acusando a ilha de “se aproveitar” da epidemia “para continuar sua exploração dos trabalhadores médicos cubanos”. Até aí, nada de novo – exceto que, em seu ataque, na quarta-feira, Pompeo criticou dois países amigos, Qatar e África do Sul, por contratar quase 450 profissionais da saúde da ilha a fim de enfrentar a covid-19 em seus territórios. O presidente cubano, Miguel Díaz-Canel, respondeu imediatamente afirmando que “os EUA enganam deliberadamente quando atacam a cooperação de Cuba com mentiras e calúnias”.

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Um dia depois desse bate-boca, um cidadão cubano-americano fez disparos de arma de fogo contra a Embaixada de Cuba em Washington, num incidente que elevou ainda mais a temperatura entre ambos os Governos. O chanceler cubano, Bruno Rodríguez, convocou na quinta-feira a encarregada de negócios dos EUA em Havana, Mara Tekach, para fazer um “enérgico protesto” pelo que considerou uma “agressão terrorista”. Rodríguez disse que é impossível “dissociar um fato como este do recrudescimento da política de agressão e hostilidade aplicada pelo Governo dos EUA contra Cuba, nem do endurecimento do bloqueio” e “dos ataques contra a colaboração médica cubana”.

Os disparos foram feitos na quinta-feira, quando havia cerca de 10 funcionários diplomáticos dentro do edifício, o que os colocou “em grave perigo”, segundo o Governo cubano. O atirador, identificado pela polícia como Alexander Alazo, um homem de 42 anos residente no Texas, foi acusado de tentativa de homicídio. “Esta agressão foi estimulada pela crescente retórica hostil contra nosso país, em que estão envolvidos de forma pública e sistemática tanto o secretário de Estado como altos funcionários desse departamento”, disse Bruno Rodríguez.

Além dos tiros, o novo episódio de enfrentamento político entre os dois países se centra, desde o início da crise sanitária do coronavírus, na chamada diplomacia das batas brancas, através da qual Havana já enviou 22 brigadas sanitárias, com quase 1.500 médicos, enfermeiros e técnicos, a 21 países, a maioria do Caribe, América Latina e África, mas também a Itália, Andorra e, com autorização de Paris, Martinica, Guadalupe e Guiana Francesa, territórios franceses de ultramar.

Desde que o primeiro avião com pessoal médico cubano partiu de Havana, os EUA iniciaram uma campanha de descrédito dessa cooperação, que para Washington é “interessada” e “de propaganda”, enquanto que para a ilha é simplesmente “humanitária e solidária”. Nas últimas semanas, funcionários norte-americanos criticaram em várias ocasiões essa colaboração, mas nunca com a virulência dos últimos dias. Na quarta-feira, mesmo dia em que Mike Pompeo pediu que sua Embaixada na Venezuela fique preparada para quando Maduro deixar o poder, o secretário de Estado se lançou em cheio contra Cuba por causa dos profissionais médicos enviados à África do Sul (217) e Qatar (229), dois países amigos de Washington. Pompeo acusou Cuba de lucrar à custa do seu pessoal e pediu aos demais governos que não ajudem Havana neste propósito. “Notamos como o regime em Havana se aproveitou da pandemia da Covid-19 para continuar explorando os trabalhadores médicos cubanos”, disse. E acrescentou: “Os Governos que aceitam médicos cubanos precisam pagá-los diretamente. Do contrário, quando pagam ao regime, estão ajudando o Governo cubano a obter lucros com o tráfico de pessoas”.

Pompeo foi além e felicitou “os líderes do Brasil, Equador e Bolívia”, onde chegaram a trabalhar 10.000 profissionais cubanos quando seus Governos eram aliados de Havana, por “terem se negado a fazer vista grossa a estes abusos por parte do regime cubano”. “Pedimos a todos os países que façam o mesmo, incluídos África do Sul e Qatar.”

Suspender o embargo

Washington acusa o Executivo cubano de explorar seus profissionais e reter 75% do salário dos médicos nessas missões, enquanto Havana argumenta que a colaboração não é cobrada dos países pobres, e que os recursos obtidos são empregados para financiar seu sistema de saúde gratuito, que conta com mais de 95.000 médicos (9 para cada 100 habitantes) e 85.000 enfermeiros. “Que direito tem o secretário de Estado dos EUA de pressionar Governos soberanos para que privem seus cidadãos de assistência médica?”, perguntou-se o chanceler cubano. “É tempo de solidariedade, não de mesquinharia”, acrescentou Rodríguez, opinando que, apesar dos esforços de Washington por desacreditá-lo, o trabalho dos médicos cubanos “é solicitado e reconhecido internacionalmente”. O retorno à dialética e as tensões da Guerra Fria ocorre em meio a uma severa crise econômica em Cuba, agravada pela pandemia. Nem sequer em meio a esta complexa situação há trégua. Cuba, onde foram registrados 1.649 casos confirmados do vírus e 67 mortos, pediu a suspensão das sanções norte-americanas, que neste ano completam seis décadas. A resposta da Administração Trump, que recrudesceu o embargo desde que se instalou na Casa Branca, implementando os artigos mais polêmicos da lei Helms-Burton e asfixiando o setor turístico cubano com diversas medidas, parece clara: quanto pior em Cuba, melhor. Como se fosse agora ou nunca.

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