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A volta de Alicia Silverstone, a primeira vítima da internet

Entre 1993 e 1996, ela se tornou a namoradinha da América. Depois, sua carreira se desvaneceu sob a sombra de um insulto que uma recém-inaugurada internet só dedicava às mulheres: gorda. “Uma lição precoce sobre a crueldade de Hollywood”.

Alicia Silverstone em ‘Asa Patricinhas de Beverly Hills’. Seu grande momento de esplendor.
Alicia Silverstone em ‘Asa Patricinhas de Beverly Hills’. Seu grande momento de esplendor.Photo:MPTV.net / Cordon Press

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Na semana passada, Alicia Silverstone foi notícia por dois motivos: por compartilhar em suas redes sociais fotos inéditas da filmagem de As Patricinhas de Beverly Hills, o clássico adolescente que a fez famosa em 1995, e por felicitar Harry Styles quando o cantor subiu para receber seu Grammy com uma camiseta cuja estampa homenageava o mais emblemático dos 64 looks que Silverstone exibia naquele filme (sim, igualou o recorde de Liz Taylor em Cleópatra).

Agora a atriz estrela Sister of the Groom, que foi lançado em dezembro nos EUA e chega neste fim de semana à Espanha (não há data prevista para o Brasil), que também se encaixa no padrão profissional das ex-namoradinhas da América (Kate Hudson, Katherine Heigl, Hillary Duff): uma comédia romântica sobre uma garota travessa que entra em crise quando faz 40 anos e se dá conta de que não pode continuar se comportando como uma garota travessa. Quase todos os filmes desse subgênero estreiam diretamente em formato doméstico, e quase todos são oferecidos primeiro a Jennifer Aniston. Mas houve um tempo, não muito distante, em que Alicia Silverstone era a atriz número um em Hollywood.

Alicia Silverstone sonhava alto com ‘As Patricinhas de Beverly Hills’ (1995), onde interpretava uma estudante chique e ingênua. GETTY IMAGES
Alicia Silverstone sonhava alto com ‘As Patricinhas de Beverly Hills’ (1995), onde interpretava uma estudante chique e ingênua. GETTY IMAGES Getty Images

Quando tinha oito anos, seu pai a fotografou de biquíni em um tapete de pele de ovelha. “Muito sensual para uma menina pequena, com sua linda boca aberta”, gabou-se o pai. A menina odiava trabalhar como modelo, mas com seu salário pagou aulas de atuação que lhe renderam o sexythriller Paixão sem Limite. Para poder trabalhar durante as longas horas de filmagem e interpretar aquela femme fatale psicótica de 14 anos, teve de se emancipar de seus pais.

Os três videoclipes de Silverstone com o Aerosmith fizeram o grupo voltar a ser popular entre os jovens e transformaram a atriz na garota dos sonhos da Geração X. Assim, quando As Patricinhas de Beverly Hills arrasou, a imprensa ficou obcecada com a história da “primeira estrela de cinema surgida da MTV”. “Poucas vezes uma carreira decolou tão rápido e de forma tão inexplicável”, analisou Bruce Britt no San Francisco Gate.

O vídeo de ‘Crazy’, que transformou Silverstone em um mito erótico. Sua colega, a então desconhecida Liv Tyler, é filha do vocalista do Aerosmith, Steven Tyler.

A Sony lhe deu 10 milhões de dólares (57,5 milhões de reais) para estrelar e produzir dois filmes. Com 18 anos, ela se tornou a produtora mais jovem da história de Hollywood. Segundo aquele contrato, a atriz tinha poder para escolher o elenco, modificar o roteiro e, em caso de conflito com o diretor (que ela escolheria), prevaleceria seu critério.

Amy Heckerling, diretora de As Patricinhas de Beverly Hills, explicou que decidiu contratar Alicia quando a viu tomando milk-shake de canudinho: “Projeta uma enorme sexualidade, mas não tem consciência disso. Por isso, não é ameaçadora. Os garotos gostam, e as garotas também”.

Embora a Sony tenha esclarecido que “alguém da equipe de Silverstone” vazou o contrato para a imprensa e inflou o valor, vários executivos condenaram esse acordo porque demonstrava que a indústria estava fora de controle: Silverstone não havia conseguido mais do que um filme de sucesso e seu maior impacto era aparecer na capa de todas as revistas, da Rolling Stone à Entertainment Weekly (manchete: “Fabricada uma estrela”).

“Alicia Silverstone é uma gatinha de 18 anos com quem muitos homens querem se deitar”, começava Rich Cohen na reportagem de capa da Rolling Stone. “Seus lábios brilham como dois gomos de tangerina. Lembra a líder de torcida de sua escola, aquela com quem você nunca se atreveu a falar”, descrevia Jeff Gordinier na Entertainment Weekly.

Em março de 1996, Silverstone foi ao Oscar para entregar um prêmio na qualidade de “jovem promissora” oficial de Hollywood. Muitos espectadores não sabiam nem quem era, e muitos outros comemoraram a ansiada modernização do Oscar. Assim que ela apareceu, tropeçou. Em seguida, leu seu roteiro com a boca tensa. No dia seguinte, o New York Daily News comentou: “Pode parecer injusto submeter uma jovem a tal escrutínio físico, mas quando [Mark] Canton [presidente da Sony] montou uma produtora para Alicia, a First Kiss, estava apostando em sua habilidade de manter os adolescentes babando. Ela claramente engordou 12 quilos. Foi uma tortura ver uma adolescente nervosa envolvida em metros de tecido que ela claramente estava usando para dissimular sua ampla figura. Dizem que o diretor de Batman & Robin lhe pediu que baixasse de 59 para 47 quilos para entrar no traje de Batgirl. Silverstone está recebendo uma lição precoce sobre a crueldade de Hollywood”.

Naquele mesmo ano, a atriz iniciou a filmagem de Batman & Robin e os fóruns de fãs de quadrinhos começaram a se referir a ela como Fatgirl (garota gorda). Correram rumores de que os figurinistas tiveram de fazer um traje novo, de que o estúdio eliminaria várias de suas cenas e de que o cronograma das filmagens foi adiado para que ela tivesse tempo de perder 10 quilos. Tanto seu agente como o diretor, Joel Schumacher, declararam à imprensa que Alicia estava fazendo o que podia para voltar à forma. “Ela já perdeu cinco quilos e está a caminho de perder outros cinco”, disse uma fonte anônima da produção.

Os tabloides especularam que a atriz tinha caído em uma espiral na qual só se alimentava de M&Ms e Nutella. (Ela mesma confessaria anos depois que eram entrecots, donuts e, se tivesse uma úlcera, iogurte gelado.) “Alicia, de qualquer forma, está muito magra. Joel Schumacher também pediu que George Clooney se livrasse da gordura abdominal, mas só falam de Alicia”, protestou seu pai, Monty Silverstone, na Vanity Fair.

Até um veículo formal de Hollywood como a Entertainment Weekly publicou que “mais que uma baby, parecia Babe, o Porquinho Atrapalhado”. Em um aeroporto, vários paparazzi perseguiram a atriz, então com 19 anos, tirando fotos enquanto cantavam a música de Batman, a série dos anos 60, mas com “Fatgirl”. Há dois anos, Silverstone contou que acabou escondida em um banheiro enquanto os fotógrafos lhe gritavam “puta” do outro lado da porta.

Nas primeiras exibições de Batman & Robin, alguns espectadores exclamavam “gorda” e “tem bigode” quando a atriz aparecia. Os fãs online ignoraram Alicia Silverstone, e o resto do público também. Excesso de Bagagem, seu primeiro projeto como produtora, foi ignorado pelas bilheterias e pela imprensa, exceto por algumas piadas a respeito de sobrepeso à custa do título. A Sony rescindiu o contrato e o segundo projeto acertado nunca foi realizado. O jornalista Josep Parera se mudou para Los Angeles naquele 1997 para trabalhar como correspondente da revista espanhola de cinema Imágenes e lembra aqueles anos como os últimos respiros de um sistema de fabricação de estrelas no qual os estúdios, os publicitários e os veículos de comunicação tradicionais tinham poder absoluto. “As revistas de cinema tinham tiragens de centenas de milhares de exemplares. O que fizeram com ela foi horrível. Seria de esperar que algum veículo a defendesse, que algum colega de elenco dissesse algo. Mas isso não ocorreu. Limitaram-se a ecoar os insultos. Um jornalista chegou a lhe perguntar o tamanho de seu sutiã durante uma entrevista”, recorda. Parera acredita que Silverstone não tinha pessoas ao seu redor que cuidassem dela. E esse sistema acabou destruindo sua confiança em si mesma até levá-la a abandonar parcialmente a profissão.

Alicia Silverstone em uma campanha da PETA em 2016.
Alicia Silverstone em uma campanha da PETA em 2016.

Além de ser a primeira grande vítima da misoginia na internet antes que alguém entendesse o perigo da internet, Silverstone foi alvo da obsessão da mídia com o peso das celebridades no final dos anos noventa. De forma psicótica, uma mesma revista ridicularizava as curvas de Kate Winslet em uma página e desaprovava a magreza de Calista Flockhart na seguinte. E essa psicose midiática concluía que as estrelas de cinema deveriam parecer garotas normais, mas não ser normais, de jeito nenhum.

Naquele momento, as modelos de medidas grandes desfilavam com o mesmo número de Marilyn Monroe (44) e a atriz Teri Hatcher se gabava de que ainda cabia em sua calça jeans da escola tamanho 34. Em 1996, estipulava-se que 80% das mulheres de 18 anos não gostavam de seu corpo e, desde 1970, os casos de transtornos alimentares duplicaram.

Na Espanha, esse escrutínio dos corpos femininos foi importado por revistas como In Touch e Cuore. A atual diretora desta última, Araceli Ocaña, admite que até poucos anos atrás nem os redatores nem os leitores consideravam errado rir dos defeitos físicos das celebridades porque, afinal, isso estaria incluído no pacote da fama. “Blogs como o Perez Hilton e revistas como a Cuore partiam da base de que estávamos sendo enganados, de que nos mostravam imagens perfeitas às quais deveríamos aspirar. E esse tipo de mídia mostrava o que ninguém tinha mostrado até então, contava as coisas sem eufemismos, exibia a parte da fama que não se via: que as famosas têm celulite, que se equivocam. Mas depois se chegou ao extremo”, lamenta Ocaña.

Há um ano, a Cuore se distanciou de sua linha editorial (os emblemáticos “aargs” e “ups”) para apostar na positividade. Ocaña esclarece que desde 2016 o site já evitava ridicularizar o físico das famosas. “Fomos percebendo que você não pode levantar o ânimo das pessoas afundando outras pessoas. Tudo mudou com o Instagram. As celebridades mostraram as imagens de seu dia a dia e, pouco a pouco, pararam de ser consideradas mulheres inalcançáveis e passaram a ser vistas como pessoas normais. Sua imagem se humanizou. E aí o público foi entendendo que quando uma revista se mete com elas, está se metendo com um ser humano. De repente, você sentiu que rir de Jennifer Lopez por ter celulite ou por usar um vestido feio pode fazer com que ela se sinta mal. As celebridades abriram as portas de sua casa e pudemos ver como as coisas as afetavam”, assinala.

“Aquelas piadas me machucavam, mas ao mesmo tempo eu sabia que elas eram erradas. Eu não estava confusa”, lembrou Silverstone no ano passado no The Guardian. “Eu sabia que não era correto rir do corpo das pessoas, mas não respondi como uma guerreira dizendo ‘foda-se’, simplesmente me afastei. Parei de amar a atuação durante muito tempo, até que meu novo agente me deixou claro que eu não precisava fazer nada que não quisesse.”

No ano 2000, Silverstone reapareceu na capa da FHM para promover uma adaptação de Shakespeare (Amores Perdidos). O jornalista descreveu sua aparência como “esbelta e sem gordura”, graças aos serviços de uma nutricionista das estrelas que também tinha entre seus clientes Salma Hayek, Matt Damon e Neve Campbell. Em seguida, perguntou se algum de seus namorados a havia convidado a se vestir como estudante para satisfazer uma fantasia erótica. (A resposta foi “não, nenhum”.) Em 2001, Reese Witherspoon ascendeu ao Olimpo de Hollywood com Legalmente Loira, uma espécie de sequência espiritual de As Patricinhas de Beverly Hills, e Alicia Silverstone, aos olhos do público, ficou irremediavelmente relegada à categoria de velha glória. Tinha 24 anos.

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