Cinema

Chuck Norris, o herói que derrotou tudo enfrenta sua última batalha por amor

Ídolo de várias gerações e resgatado com ironia pela geração do milênio, o mítico ator de ação e ativista conservador reaparece para encarar, desta vez, um inimigo muito mais duro

Chuck Norris fotografado em 1985 com uma camiseta de um de seus filmes mais populares, ‘Invasão U.S.A.’
Chuck Norris fotografado em 1985 com uma camiseta de um de seus filmes mais populares, ‘Invasão U.S.A.’

Ao longo de sua carreira, Chuck Norris enfrentou os soviéticos, os vietcongues, a máfia, os nazistas, a corrupção policial, assassinos em série, mercenários, terroristas de diferentes nacionalidades e todos os criminosos que se atreveram a pisar no Texas. Mas desde 2013 tem apenas um inimigo: o gadolínio.

Esse elemento químico, comum nos materiais de contraste usados nas ressonâncias magnéticas, é, segundo Norris, o responsável pela doença de sua mulher, a atriz e modelo Gena O’Kelley (Califórnia, 1963), com quem tem dois filhos − o ator tem outros três de seu primeiro casamento, com Dianne Holecheck (Califórnia, 1941). Para cuidar dela e combater os responsáveis pelo que ele considera uma negligência médica, anunciou há dois anos o fim de uma carreira cinematográfica que começou há mais de quatro décadas. “Abandonei minha carreira cinematográfica para dedicar minha vida inteira a manter Gena viva. Isso é o mais importante, que ela continue conosco e que aquilo que aconteceu com ela não seja sofrido por mais ninguém”, disse o ator, que se aproxima dos 80 anos (nasceu em março de 1940 em Oklahoma) e é um elemento imprescindível da cultura pop das últimas décadas.

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O astro de Hollywood Steve McQueen teve duas grandes ideias em sua vida. A primeira, cancelar de última hora seu jantar na casa de Sharon Tate em 9 de agosto de 1969. Isso o livrou da morte na mão dos fanáticos que seguiam Charles Manson. A segunda, recomendar ao seu professor de artes marciais um tal de Chuck Norris, que se dedicasse à interpretação.

Porque aquele ruivo carrancudo que ensinava os rudimentos do taekwondo a estrelas de Hollywood como McQueen, Michael Landon e Priscilla Presley não estava destinado a ver seu nome nas páginas douradas da Academia das Artes e Ciências de Hollywood, mas sim a conquistar o coração dos fãs do cinema de ação. Graças a um punhado de personagens memoráveis − J.J. McQuade (do filme McQuade, o Lobo Solitário, 1983), coronel James Braddock (de Braddock: O Super Comando, 1984), Matt Hunter (de Invasão U.S.A., 1985) e, principalmente, o imbatível ranger texano Cordell Walker (da série Chuck Norris: O Homem da Lei, 1993-2001) −, seu nome ficou gravado a fogo nos cabeçotes de milhares de fitas VHS.

Perto de completar oito décadas, Chuck teve muitas vidas. Na primeira, recebeu o nome de Carlos Ray Norris e foi um chefe de família dedicado que cuidou de sua mãe e de seus irmãos até se alistar na Força Aérea. Porque Norris não é um patriota apenas no Instagram, ele sabe o que é defender seu país como policial militar na Coreia, o lugar onde descobriu a arte que mudaria sua vida, o tangsudo, uma versão coreana do taekwondo. Voltou de lá com o apelido de Chuck e um futuro como instrutor de artes marciais.

Mas como Chuck não é um daqueles que se limitam a seguir um caminho, e sim dos que constroem uma nova estrada, uniu seus conhecimentos de taekwondo, jiu-jitsu brasileiro, luta livre, muay tai e shotokan, e o resultado foi uma mistura mais letal que o chá Long Island: o chun kuk do, uma arte marcial made in Norris que não foi sua única invenção. Cansado das costuras que se rasgavam no primeiro chute voador − quem nunca teve esse problema? −, criou umas calças, as Chuck Norris Action Pants, que, vistas hoje, parecem um simples jeans elástico sem muito estilo, mas quem se atreveria a discutir moda com o homem que ensinou a Pai Mei os cinco pontos de pressão para fazer um coração explodir.

Um de seus papéis mais celebrados, em ‘McQuade, o Lobo Solitário’ (1983).
Um de seus papéis mais celebrados, em ‘McQuade, o Lobo Solitário’ (1983).

Chuck tinha corpo para a arte (marcial), mas não cabeça para os negócios: a rede de academias que ele havia fundado em Los Angeles estava à beira da falência quando um de seus alunos, Steve McQueen, o homem mais cool da Hollywood dos anos 1970, disse-lhe a frase que mudaria seu destino: “Se você não puder fazer mais nada na vida, sempre resta a atuação”. Teria sido um bom lema para o Instituto de Cinema e Teatro Lee Strasberg.

Quem lhe deu o segundo empurrão foi outro luminar da época. Em 1972, o mítico Bruce Lee lhe ofereceu o papel de antagonista em O Voo do Dragão. Ambos se enfrentariam em uma luta de mais de dez minutos no Coliseu de Roma. “E quem vai ganhar?”, perguntou Chuck, embora soubesse perfeitamente qual era a resposta. Bruce Lee era diretor, roteirista, protagonista e o grande astro do cinema de artes marciais. A luta ainda está no altar dos fãs do gênero. Pela primeira e última vez, Chuck seria o vilão, e pela primeira e última vez, comeria poeira. Ele não se importou com isso, estava ciente da aura daquele rival que também era um de seus melhores amigos. Poucos meses depois, ele e Steve McQueen seriam os encarregados de carregar o caixão de Bruce Lee em uma igreja de Seattle.

Em 2017, quando voltava para casa depois de um evento de artes marciais, o coração do ator parou duas vezes. Alguém escreveu no Twitter: “Dois infartos morrem ao tentar atacar Chuck Norris”

A ascensão de Norris foi favorecida pela onda de patriotismo exacerbado que Ronald Reagan impulsionou nos anos 1980. Depois dos hippies e da liderança pacifista de Jimmy Carter na década de 1970, os medos dos anos 1950 ressurgiram em milhões de lares americanos que começavam a considerar possível uma invasão soviética através do Estreito de Bering. Era o momento dos heróis que dão um passo à frente e Chuck, capaz de enfrentar de peito (peludo) aberto um exército de comunistas, iria dar esse passo.

Além de Reagan, outros capitalistas orgulhosos ajudaram a abrir caminho para o sucesso de Norris: Menahem Golan e Yoram Globus, os dois primos de origem israelense por trás da Cannon, a icônica produtora que encheu as prateleiras das videolocadoras de bairro com subprodutos construídos sobre uma máxima: “Se você faz filmes americanos com começo, meio e fim e um orçamento de menos de 5 milhões de dólares (20,4 milhões de reais), tem de ser um idiota para perder dinheiro”. E eles não eram idiotas.

Em seu primeiro trabalho para a Cannon, Norris pôde comprovar o desprezo monumental que os primos sentiam por suas produções. O filme que foi lançado como Braddock: O Super Comando (1984) era, na verdade, a segunda parte de uma trilogia, mas para reduzir os custos os filmes foram rodados ao mesmo tempo. E, como os produtores acharam esse longa mais interessante, decidiram estreá-lo primeiro. E a coerência narrativa? Quem se importa com isso, se Chuck acabava com um rato a dentadas?

Aqueles filmes de orçamento tão limitado quanto seus roteiros ajudaram a criar uma mística em torno de um Norris que representava perfeitamente o justiceiro solitário, tão lacônico quanto eficiente, um arquétipo que seu grande herói, John Wayne, tinha representado como ninguém.

A ascensão de Norris foi favorecida pela onda de patriotismo exacerbado de Reagan. Era o momento dos heróis que dão um passo à frente e Chuck, capaz de enfrentar de peito aberto um exército de comunistas, iria dar esse passo

Mas as intenções patrióticas de Norris não seduziam igualmente a crítica e o público. Em 2011, ele foi nomeado pelo influente site Rotten Tomatoes como “o pior ator dos últimos 25 anos”, mais pela ínfima qualidade de seus filmes do que por ser um canastrão.

Mas o que importa o que a crítica diz se você é um expoente da luta contra o comunismo dentro e fora das telas? A transcendência de Chuck ultrapassou as salas de cinema, como uma geração de romenos pode atestar. No documentário da Ilinca Calugareanu Chuck Norris vs. Communism (“Chuck Norris contra o comunismo”), descobrimos uma dessas histórias reais que superam o mais complicado dos roteiros. Nos anos 1980, na Romênia dos Ceausescu, havia apenas um canal, que só transmitia programas e filmes após aprovação ou cortes do Governo, o que gerou um mercado paralelo de vídeo por onde circulavam as aventuras de Norris, Stallone e Van Damme. Aqueles heróis que combatiam a ideologia que oprimia os romenos também lhes abriram os olhos para um mundo onde não existiam cartões de racionamento, e sim Fords Mustang, cerveja Coors e férias em Venice Beach.

Na verdade, Norris não se limita a combater apenas o comunismo: de sua posição política, próxima à direita mais extrema do Governo dos EUA, também se opõe frontalmente a qualquer indício de progressismo. Embora seu chun kuk do seja baseado em um decálogo recheado de bons propósitos (“se eu não tiver nada bom para dizer sobre uma pessoa, não direi nada”, “dedicarei tanto tempo para melhorar a mim mesmo, que não terei tempo para criticar os outros”, “terei respeito pelas autoridades e demonstrarei isso o tempo todo"), na prática o hexacampeão do mundo de caratê não hesita em lançar críticas ferozes contra as autoridades.

Chuck Norris trabalhando como ‘personal trainer’ do então presidente dos Estados Unidos George W. Bush em 1990.
Chuck Norris trabalhando como ‘personal trainer’ do então presidente dos Estados Unidos George W. Bush em 1990.

“O que teria acontecido se a Virgem Maria tivesse dependido da cobertura de saúde de Obama?”, perguntou Norris durante a campanha para a reeleição do então presidente Barack Obama em sua coluna semanal no site WorldNetDaily. “Será que os cuidados de Obama se transformarão nos cuidados de Herodes em relação aos recém-nascidos?”, gritou ele em seu palanque digital, no qual também suspirou pela obrigatoriedade da oração nas escolas. Até um herói de guerra republicano como o então senador John McCain teve de aguentar seu desprezo por apoiar o casamento igualitário. Chuck, claro, era contra.

Naturalmente, Hillary Clinton tampouco contou com sua aprovação. Assim como outros dissidentes de uma Hollywood cada vez mais alinhada com os democratas, Norris, da mesma forma que Jon Voight e Charlie Sheen, preferiu fazer campanha por Donald Trump. Afinal, poucos americanos podem estar tão obcecados com o muro prometido pelo presidente na fronteira com o México como aquele que patrulhou o Texas durante nove temporadas na série Chuck Norris; O Homem da Lei.

Esse papel de ranger texano consolidou sua popularidade nos anos 1990 e 2000, até que um fenômeno moderno, o dos memes, também o transformou em um astro para os millennials.

Em meados dos anos 2000, um site começou a coletar centenas de hipérboles sobre sua rudeza, sua força e sua virilidade. O mundo prendeu a respiração, temendo a reação do herói. Mas Chuck lhe deu sua bênção. E não só isso, publicou seu próprio livro de dados básicos, The Official Chuck Norris Fact Book, e até os incorporou a seus personagens.

Chuck Norris com sua mulher, a modelo Gena O’Kelley. Esta foto foi tirada em 2009 na Califórnia. Em 2013, O’Kelley foi acometida pela doença. O casal tem dois filhos gêmeos de 18 anos.
Chuck Norris com sua mulher, a modelo Gena O’Kelley. Esta foto foi tirada em 2009 na Califórnia. Em 2013, O’Kelley foi acometida pela doença. O casal tem dois filhos gêmeos de 18 anos.

Em Os Mercenários 2 (2012), a homenagem de Sylvester Stallone a seus companheiros de batalha, e a última aparição de Norris nos cinemas, Sly recebe Chuck assim:

− Ouvi dizer que você foi mordido por uma cobra de verdade.

− É verdade, mas depois de cinco dias de uma dor insuportável, a cobra morreu − respondeu Norris, concluindo o diálogo com algo quase parecido com um sorriso.

Sua lista de dados poderia incluir outro: Chuck Norris sofreu dois infartos em menos de uma hora e sobreviveu. Ou, como definiu um usuário do Twitter: “Dois infartos morrem ao tentar atacar Chuck Norris”. Mas, neste caso, foi verdade. Em 2017, quando voltava para casa depois de um evento de artes marciais em Las Vegas, o coração do ator parou duas vezes.

Pouco depois, Norris anunciou sua aposentadoria do cinema para cuidar de Gena, com quem se casou em 1998. O amor é capaz de tudo, até de apaziguar o homem que derrubou um avião alemão ao apontá-lo com seu dedo e dizer: “Bang”.