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“Escapar da anorexia foi mais difícil do que largar as drogas”: a beleza interrompida de Carré Otis

Modelo estava destinada a ser uma das grandes 'tops' dos anos 90, mas Mickey Rourke e outros predadores sexuais cruzaram seu caminho. Agora, como instrutora de ioga, vive feliz com sua família em uma fazenda na Califórnia

A modelo Carré Otis.
A modelo Carré Otis.GETTY

Carré Otis, ano 2020. Com cabelos grisalhos longos e lisos, expressão serena e a beleza intacta, é assim que a ex-modelo aparece no Instagram, aos 51 anos. Como as páginas das demais top models dos anos 90, a dela é uma antologia de capas, campanhas e as apoteóticas festas da época. No entanto, ao contrário das colegas, em seu perfil Otis intercala posts de sua bucólica vida atual numa fazenda da Califórnia onde se estabeleceu há oito anos com sua família: Otis abraçando as filhas, Otis colhendo legumes em sua horta, Otis embalando um filhote de cervo e até mesmo Otis realizando um ritual xamânico no solstício de verão.

Carré Otis, ano 2000. Após uma convulsão, a modelo é submetida a uma cirurgia cardíaca, para a qual deve responder a um questionário médico. A confissão é uma verdadeira epifania: “Tive que me sentar e me dar conta de que minha dieta (que consistia em passar fome, já que não sou magra por natureza) não era normal, e não tinha sido nos últimos 20 anos”, explicou em uma entrevista. Media 1,78 metro de altura e pesava menos de 45 quilos. Os vômitos frequentes, jejuns e laxantes (e outras substâncias) resultaram na falta de nutrientes essenciais, como as proteínas. E essas deficiências estavam mais relacionadas a seus problemas cardíacos do que ao uso de drogas. “Meu médico me fez ver que todos aqueles anos de desnutrição tinham sido o principal gatilho, sobretudo na minha adolescência, quando ainda estava em formação, antes mesmo de começar a trabalhar como modelo.” Tinha 30 anos e sua relação com a comida não era a única que iria ser reexaminada.

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I see nothing to fear in inner space. ⠀ ⠀ Yeshe Tsogyal ⠀ ⠀ Yeshe Tsogyal (757–817), was the consort of the great Indian tantric teacher Padmasambhava, the founder-figure of the Nyingma tradition of Tibetan Buddhism. Nyingma tradition considers her equal in realization to Padmasambhava himself. The meditational practices related to her, stress her enlightened aspect, and are similar in form to tantric deity practices in general. She is variously equated with Vajravarahi, Tārā or Sarasvatī.Both the Nyingma and Karma Kagyu schools of Tibetan Buddhism recognize Yeshe Tsogyal as a female Buddha. The translators of Lady of the Lotus-Born, the namthar or spiritual biography that Yeshe Tsogyal left as a terma observe:As Dodrup Tenpai Nyima makes clear, beings able to reveal Termas must have at least the realization of the Perfection Stage practices. On the other hand, the one who originates the Treasures must have the supreme attainment of Buddhahood. Lady of the Lotus-Born is thus a testimony of Yeshe Tsogyal’s enlightenment. @huehausproductions @veee_lark @lama_tsultrim_allione @tara_mandala @pieteroos @ravenmarie111 @psychedelicjourneys @theadeptist @samanthabeech_ @karisullivanfitness @megandakoda12 #newearthproject #yeshetsogyal #sacredfeminine #dakini #khandro #rangbab #dzogchen #padmasambhava #practice #buddha #enlightenment #4thoughtsthatturnthemind #nyingma #womenpractitioners #cheifarvollookinghorse

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Sua autobiografia, Beauty, disrupted: A memoir, publicada em 2011, é o ponto culminante desse processo de questionamento, da infância em um lar disfuncional (marcado pelo alcoolismo do pai) até o casamento de seis anos com Mickey Rourke (um relacionamento turbulento, segundo a imprensa da época, repleto de abusos, como reconhece a modelo hoje). Adotou sua atitude rebelde depois do atraso escolar que sofreu no colégio por causa da dislexia: “Sabia que era diferente das outras crianças e, já que iam me rotular, decidi que eu escolheria o rótulo: iriam me conhecer como a rebelde ou a problemática, mas nunca como a boba”, lembra, em suas memórias. Já na infância começou a flertar com o álcool e as drogas, por isso seus pais a mudaram de escola e a matricularam em uma de linha alternativa, onde as aulas eram ministradas ao ar livre, um ambiente hippie e ambientalista onde se sentiu temporariamente calma. Aos 14 começou a trabalhar como modelo, aos 15 se instalou em Nova York, aos 18 se mudou para Paris e aos 23 estrelou uma mítica campanha para a Calvin Klein, fotografada por Bruce Weber.

Àquela altura, já estava completamente viciada em cocaína (de acordo com sua autobiografia, o meio em que trabalhava presumia que esse era “o segredo do peso das modelos”). Um de seus primeiros fornecedores foi Gérald Marie, o então todo-poderoso diretor da agência de modelos Elite na Europa, desmascarado como um predador sexual por um documentário da BBC com câmera oculta, em 1999. O então noivo de Linda Evangelista deixou Carré se instalar no quarto de sua filha, em seu enorme apartamento em Paris (a modelo teve que pagar o aluguel com os brincos), e à noite se encontravam no banheiro para cheirar. Em várias dessas ocasiões, segundo conta em suas memórias, o empresário a estuprou. Tinha 17 anos e ele era 25 anos mais velho. Otis não é a única que denunciou os abusos de Marie: Karen Mulder teve que receber tratamento psiquiátrico por esse motivo.

Otis se depararia mais tarde com outros predadores quando estreou no cinema em 1989, com Orquídea selvagem: “Fui assediada, abusada e explorada sexualmente pelo diretor e pelos produtores. Foi muito difícil. E não tinha ninguém a quem telefonar ou denunciar o abuso. Estava realmente sozinha em uma terra estrangeira (o filme foi gravado no Brasil). Não sabia como os filmes funcionavam. Fui muito ingênua”, disse, em uma entrevista. O filme foi um escândalo pelos rumores de que não havia nada simulado em suas tórridas cenas de sexo com Mickey Rourke.

Assim começou um romance entre o ator e a modelo, que parecia ter terminado em 1991, por causa de um acidente bastante revelador: em um encontro em um restaurante no Novo México, Carré Otis descobriu que Rourke carregava uma arma e, assustada, lhe pediu que a tirasse de lá. Ele, sem avisá-la, escondeu a pistola na bolsa da namorada e, ao chegar em casa, a Magnum 357 disparou acidentalmente quando ela colocou a bolsa sobre a mesa, causando uma lesão no ombro de Otis (a menos de cinco centímetros do coração). A reação de Rourke? Gritar, fora de si, e exigir que ela limpasse todo aquele sangue. “Entrei em pânico, me perguntando o que era mais importante, minha vida ou o fato de ter sido ferida pela arma de Mickey Rourke”, lembra a modelo.

Depois de meses sem se verem, em 1992 o ator a surpreende com um pedido de casamento que, de novo, dava muitas pistas sobre o caráter dele: Rourke lhe mostrou ao mesmo tempo o anel e a espada japonesa com a qual jurava se suicidar se ela o rejeitasse. Otis aceitou e o casamento durou seis anos, durante os quais começou a consumir heroína. “Pelos padrões de todos, tinha tudo o que poderia desejar: uma casa grande e bonita e um relacionamento com um ator famoso. Mas podia parar de contar aí: isso era tudo o que havia”, recorda-se. Mas havia muito mais: o ator, ciumento, a obrigou a rejeitar uma campanha de um milhão de dólares para a Helena Rubenstein e, quando a Vanity Fair publicou fotos sugestivas de Otis assinadas pelo fotógrafo (assumidamente gay) Steven Meisel, Rourke ficou furioso: “O mundo inteiro pode ver a sua bunda… Essa bunda é minha, de ninguém mais”, gritou, segundo recorda a modelo em suas memórias, e ele contratou uns capangas que intimidaram e ameaçaram Meisel em um elevador. Em 1994, Otis denunciaria que o marido a havia esbofeteado, jogado no chão e espancado. E embora a polícia formalizasse a acusação, ela decidiu não depor no julgamento.

“Foi muito difícil sair daquele casamento. Mas eu tinha a certeza de que precisava fazer isso, se quisesse sobreviver, crescer e prosperar. O primeiro passo foi perceber que precisava de apoio. Não poderia fazer isso sozinha”, explicou em uma entrevista recente. “Eu tinha um verdadeiro transtorno de estresse pós-traumático e precisava enfrentar meus medos e encontrar forças. E por meio de terapia e amizades fui capaz de fazer isso. A partir de então, fui dando passinhos de bebê e me ocupando da logística e do plano de fuga. Tinha que ser muito cuidadosa e estratégica. Trabalhei duro na terapia para poder seguir em frente e crescer. É imperativo que as mulheres obtenham apoio. Estender a mão pode ser difícil, mas não fazê-lo é muito pior e mais perigoso.” O casal finalmente se divorciou em 1998.

O caminho da recuperação

Nos anos marcados pelo atendimento psicológico, os centros de reabilitação (apesar de tudo, Otis admite que foi Rourke, preocupado com seu vício em heroína, que a convenceu a pedir ajuda) e pela cirurgia cardíaca, a californiana muda radicalmente a alimentação e se força a fazer três refeições por dia (“recuperar-me da anorexia foi mais difícil do que largar as drogas”, diz).

Seus agentes comunicaram a todos os seus clientes que o tamanho de Otis era então número 44 anos e que ela não pretendia emagrecer para nenhum trabalho, em nenhuma hipótese. Eles se surpreenderam ao ver que as ofertas aumentaram consideravelmente (apareceu até nas capas do especial de banho da Sports Illustrated e da Playboy). Otis então começa seu trabalho como ativista na Model Alliance (uma fundação dedicada à luta pelos direitos das modelos) e se torna uma embaixadora do Conselho Nacional de Distúrbios Alimentares dos Estados Unidos. Regressa à Califórnia e se reconecta com o estilo de vida da escola hippie da adolescência. Em um supermercado de comida orgânica, conhece o pesquisador de meio ambiental Matthew Sutton (um executivo da AECOM Technology), com quem se casaria em 2005 e com quem viveria em um retiro budista no Colorado durante quatro anos. Faz quase uma década que se instalaram em uma fazenda na Califórnia, onde moram com as filhas, Kaya e Jade (12 e 13 anos), e onde Otis dá aulas de ioga. Há pouco tempo, lhe perguntaram se algo de seu passado a atormenta. “O dano que posso ter causado a algumas pessoas por causa de minha ignorância e egoísmo. Esse é meu único arrependimento.”

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