Brasileirão estreia com regra que pretende coibir ‘massacre’ de treinadores

Regulamento que limita a uma troca de técnico por clube durante o campeonato tem brechas

Jair Ventura foi demitido do Sport em abril, 35 dias após renovar o contrato.
Jair Ventura foi demitido do Sport em abril, 35 dias após renovar o contrato.Anderson Stevens (Sport Recife)
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Por sugestão da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) e aprovação da maioria dos clubes envolvidos, a primeira, segunda e terceira divisões do Campeonato Brasileiro terão, pela primeira vez, uma regra que limita a frenética troca de treinadores. Na elite do futebol nacional, que estreia sua temporada 2021 neste sábado (29), as diretorias poderão trocar o técnico de seu time apenas uma vez durante o torneio, limitando-se a no máximo dois comandantes diferentes até o fim da competição. Nas palavras do presidente da CBF, Rogério Caboclo, a medida visa “implicar em uma relação mais madura e profissional e permitir trabalhos mais longos e consistentes”, que irão colaborar para o desenvolvimento do esporte praticado por aqui.

A base da regra é essa: todos os times iniciam o Brasileirão 2021 com um treinador a frente de suas equipes (a exceção da Chapecoense que, até o momento, não tem um técnico). Se, ao longo das rodadas, a diretoria considerar o trabalho do profissional insatisfatório, pode demiti-lo e contratar outro técnico para o seu lugar. É a única troca permitida. Se o segundo treinador também não agradar, o clube também pode demiti-lo, mas está impossibilitado de inscrever um terceiro profissional para o comando. Após duas demissões, o time só poderá ser treinado por um profissional que esteja há pelo menos seis meses empregado pelo clube —um auxiliar que seja parte do que os dirigentes chamam de comissão técnica permanente, que não perde seu emprego a cada demissão de treinador, ou um profissional das categorias de base.

Da mesma forma, os treinadores também só estão autorizados a pedir demissão uma vez durante o torneio. Eles podem, por exemplo, trocar de clube por uma proposta financeira melhor durante o campeonato mas, se optarem por outro pedido de demissão em seu segundo time, não poderão ser inscritos por um terceiro. Caso o pedido de demissão venha por parte do treinador, o clube não sofrerá limitação para inscrever um novo técnico —o mesmo acontece com o treinador, caso o pedido de demissão venha por parte do clube.

O Flamengo, campeão brasileiro em 2020, resume a proposta. O clube começou o Brasileirão com o espanhol Domènec Torrent, o qual foi demitido na 20ª rodada. Então, o rubro-negro optou pela contratação de Rogério Ceni —que, por sua vez, pediu demissão do Fortaleza para assumir os cariocas. O casamento deu certo para Flamengo e Ceni, que acabaram campeões no fim, mas teria simbolizado o limite para os dois envolvidos dentro da nova regulamentação. Se ela fosse válida, tanto Ceni não poderia assumir outro time caso pedisse demissão quanto o Fla não poderia trazer um terceiro treinador caso demitisse Ceni. No Brasileirão de 2020, foram 28 demissões em 17 times da série A —apenas Grêmio, Atlético-MG e Ceará começaram e terminaram o campeonato com os mesmos profissionais.

Os quatro últimos rebaixados extrapolaram o novo limite. O Botafogo trocou quatro vezes de treinador, Coritiba e Goiás trocaram três e o Vasco fez duas trocas. Nenhum time com mais de uma troca terminou entre os oito primeiros do torneio. “Isso, para mim, prova que as várias demissões não permitem que os jogadores tenham tempo de assimilar a ideia do treinador. Clubes mais impacientes têm menos chance de sucesso”, opina o treinador Jair Ventura, de 42 anos. “Por isso, acredito que a regra vai fazer os diretores pensarem mais antes de contratar o treinador, vai qualificar o mercado e, no futuro, acarretar num nível de futebol mais bem jogado por aqui”, completa o técnico que, no momento, está sem emprego.

Ventura começou a carreira como auxiliar efetivado pelo Botafogo em 2016, clube pelo qual chegou à Libertadores no ano seguinte. Depois, teve períodos curtos no Santos e no Corinthians em 2018, tirou um ano sabático em 2019 e assumiu o Sport na sexta rodada do torneio de 2020, após a demissão de Daniel Paulista. O treinador, que é filho do campeão mundial Jairzinho, teve sucesso ao salvar os pernambucanos do rebaixamento no Brasileirão. Comemorou, renovou o contrato no dia 1 de março e foi demitido em 6 de abril após eliminações na Copa do Nordeste e na Copa do Brasil. Ventura sofreu uma das consequências que muitos apontam com a nova regra: para não “gastar” uma troca de treinadores durante o Campeonato Brasileiro, clubes podem preferir demitir os profissionais antes de começar o torneio, nos meses iniciais de temporada, caso não tenham uma confiança plena no profissional, ainda que o tempo de avaliação seja curto. Nos três meses entre o início da temporada e o começo do Brasileirão de 2021, aconteceram oito trocas de treinadores entre os times da elite nacional. “O treinador que se acha vítima tem que procurar outra profissão”, defende Jair. “Eu sou super a favor da regra, só vejo benefícios para clube e técnico”, afirma.

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“A minha esperança é que isso tenha sido pensado para proteger mais o técnico brasileiro, para que ele não se sinta ameaçado depois de duas derrotas”, corrobora Marcelo Oliveira, 66 anos e treinador desempregado. Oliveira, que fez sucesso jogando pelo Atlético-MG e pela seleção brasileira na década de 70, engrenou uma sequência de títulos como técnico por Coritiba (2011 e 2012), Cruzeiro (2013 e 2014) e Palmeiras (2015). Mas, depois do último, não conseguiu completar um ano nos trabalhos que fez em Atlético-MG, Coritiba, Fluminense e Ponte Preta, de onde foi demitido em dezembro de 2020. “Eu ainda desconfio que a regra possa criar situações novas [como as demissões antecipadas ao pré-Brasileirão] que continuem prejudicando os técnicos. Não gosto quando essa imposição vem da CBF, uma instituição com alguns presidentes desmoralizados”, opina, “então acho que a verdadeira mudança seria a conscientização por parte de quem contrata e demite, além de uma união entre treinadores”.

Essa foi a terceira vez que a CBF sugeriu a regra do limite de trocas para os clubes do Brasileirão, que foi aprovada de forma apertada: 11 votos favoráveis contra nove contrários. Guilherme Bellintani, presidente do Bahia, trocou duas vezes de treinador na edição de 2020 e votou contra o novo limite. Ele afirma que a regra “tenta dar um ar de modernidade” e é “aparentemente bonitinha, mas pouco transformadora”, ao contrário do fair play financeiro que, para ele, seria uma “real transformação”. “Se não haverá punição aos clubes que gastam mais do que arrecadam, se todo mundo pode continuar dando calote, não venham controlar quantos treinadores eu devo ou não devo contratar em um campeonato”, reclama. O Grêmio é outro que votou contra a medida e, ao contrário do Bahia, não demitiu seu treinador durante a temporada de 2020. “Interfere na autodeterminação e gestão do clube. Não é regulatória, mas sim intervencionista e corporativa. Esta foi nossa posição, embora não seja a política que praticamos”, afirmou o presidente gremista, Romildo Bolzan Jr. Na segunda divisão, a nova regra venceu a votação por 18 a dois, enquanto na terceira a novidade foi aclamada de forma unânime.

Outra ponta solta da regra diz respeito ao acordo mútuo de rescisão contratual. Segundo especificado no documento da CBF, a demissão não conta para a regra restritiva se for por justa causa ou consensual, ou seja, acordada entre clube e treinador. Na prática, as duas partes podem simular uma ruptura em consenso sem que a troca seja computada dentro do novo limite. “Sem dúvidas esse acordo mútuo vai ser muito usado. Já vemos um debate cheio de mentiras na CPI da Pandemia, onde a saúde da população está em jogo, imagina no futebol”, prevê Oliveira. “Eu acho que esse é o grande problema da nova regra. Espero que possa ser adaptado com o tempo”, concorda Ventura.

A nova regra da CBF passa a valer a partir deste sábado (29), quando Cuiabá x Juventude abrem, às 19h (horário de Brasília), o Brasileirão 2021. No mesmo sábado, ainda jogam Bahia x Santos (20h) e São Paulo x Fluminense (21h). No domingo, completam a primeira rodada Atlético-MG x Fortaleza (11h), Flamengo x Palmeiras, Ceará x Grêmio (16h), Corinthians x Atlético-GO, Chapecoense x Red Bull Bragantino, Athletico-PR x América-MG (18h15) e Internacional x Sport (20h30).

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