Futebol

Em busca da sobrevivência, o futebol põe sua alma em jogo

Preocupados em manter os 90 minutos atrativos, donos do jogo consideram reformas que passam por torneios diferentes, novos modelos de distribuição de conteúdo e até mudanças na forma de jogar

Leonardo Pomar tem 19 anos e torce pelo Juventus, mas admite falta de interesse da sua geração.
Leonardo Pomar tem 19 anos e torce pelo Juventus, mas admite falta de interesse da sua geração.Renato Pizzutto

Mais informações

Em abril, fracassou a tentativa dos maiores clubes do mundo de reformar o futebol europeu. A ideia de trocar a Champions League por uma Superliga, um torneio de ricos com vaga cativa para os 12 fundadores, foi suspensa 48 horas após seu anúncio devido a enorme resistência de torcedores, jogadores, treinadores e outros nomes famosos do futebol. O que fica do projeto, por enquanto posto de lado, é uma série de reflexões. Florentino Pérez, presidente do Real Madrid e da Superliga, deixou claro que as razões por trás da criação eram econômicas. Mas por que os clubes mais poderosos do mundo, com receitas na casa dos bilhões, estariam preocupados com propostas para tornar seu negócio ainda mais lucrativo? A busca por lucro é apenas parte da resposta. É uma mudança global na estrutura de distribuição de conteúdo, principalmente entre as gerações mais jovens, o que realmente preocupa os donos do jogo. E que pode acarretar nas maiores mudanças em um século de futebol.

O futebol segue uma lógica que perdura há décadas, na qual a principal fonte de receita de seus clubes está nos direitos de transmissão pagos por grandes veículos de comunicação. “Isso começou quando os jogos passaram a ser transmitidos pela televisão, na década de setenta, e teve seu auge a partir da década de 90″, detalha Mariana Vantine, pesquisadora de políticas econômicas no futebol na Universidade de Milão, na Itália. Mas, recentemente, o consumo em massa popularizado pelas TVs tem migrado para o individual e customizado, simbolizado por serviços de streaming e outros canais digitais. “É uma digitalização que acontece há 20 anos e não foi acompanhada pelo futebol”, acrescenta Bruno Maia, ex-vice-presidente de Marketing do Vasco e fundador da agência de conteúdo 14. “E o esporte firmou contratos com a premissa de um crescimento contínuo que já não iria acontecer, mas mingou de vez com a pandemia”, completa.

“Isso significa que o futebol não terá, a curto prazo, o mesmo dinheiro para dar conta dos custos que ele gera hoje. Esse é o problema que os clubes tentam solucionar”, explica Maia. “As televisões não conseguem mais sustentar os valores. E os novos players, que serão o caminho daqui a 10 anos, ainda não são fortes o suficiente. Cria-se um limbo econômico no modelo de distribuição, de onde sai o dinheiro que baseia as receitas do esporte”, analisa. Num exemplo mais próximo da realidade brasileira, a Conmebol, entidade sul-americana que organiza a Libertadores e a Copa Sul-Americana, divulgou que deixou de receber mais de 230 milhões de reais em 2020 com as rescisões unilaterais de contratos das emissoras que transmitiam suas competições, Rede Globo e Dazn. Desde a rescisão, a entidade fechou um acordo menos lucrativo com o SBT e apostou na Conmebol TV, um serviço pay-per-view ligado à TV por assinatura que não é tão vantajoso financeiramente quanto os contratos anteriores com as televisões, como evidencia os 230 milhões a menos divulgados pela própria instituição.

Bruno Maia afirma que, nos dias de hoje, o sucesso do entretenimento passa pela possibilidade de o consumidor poder escolher o que deseja assistir, um modelo já incorporado pelas novas gerações e diferente do responsável por popularizar o futebol. “É evidente a dissolvição do interesse dos mais novos. O tempo está passando e as gerações mais jovens não estão esperando o futebol resolver esse problema”, diz Maia, corroborando com um argumento apresentado por Florentino Pérez ao defender a Superliga: “Os jovens de 16 a 24 anos não têm mais interesse pelo futebol”.

Leonardo Pomar, de 19 anos, é morador da Zona Leste de São Paulo e torcedor do Juventus da Mooca. Parte de uma faixa etária que nasceu no mundo digital, ele compra produtos oficiais do seu clube, assinava o programa de sócio-torcedor no período pré-coronavírus, frequenta semanalmente o estádio —ou frequentava, quando a pandemia permitia— e justifica a torcida com uma identificação que tem pelo time do bairro que, mesmo na sombra dos maiores clubes da capital, ainda atrai simpatizantes pela sua tradição. Ele próprio se confessa uma exceção. “Meus amigos gostam mais de NFL [liga de futebol americano]. Mesmo eu divido a atenção com outros esportes”, conta. “Assisto a Fórmula 1 porque tem uma série na Netflix [Drive to Survive, de 2019], jogo videogames e fantasy games da NBA... A NFL eu comecei a ver por causa do show do intervalo no Super Bowl. São esportes que te dão um espetáculo, não só 90 minutos de jogo.”

Para assistir a um jogo do Juventus na Rua Javari, o estádio do time, Pomar desembolsava 10 reais pela meia-entrada. O valor é distante da maioria dos ingressos nas grandes arenas de São Paulo, o que, segundo ele, também deixa o futebol longe da nova geração. “Alguns amigos meus foram pela primeira vez ao estádio comigo, porque não tinham condições de verem seus times, e só então passaram a falar mais de futebol. A elitização também faz com que as pessoas tenham menos chance de vivenciar o esporte”, opina. Da mesma forma, preocupa-o ver movimentos de mudança puxados pelos clubes mais poderosos do mundo, como a Superliga, uma vez que eles “vão na direção oposta da história democrática do futebol” e, segundo Pomar, favorecem ainda mais a elitização do esporte.

A linha de raciocínio do torcedor é seguida pela pesquisadora Mariana Vantine. “O modelo atual do futebol está em crise, mas eu não sei se a digitalização é do interesse dos bilionários que são donos dos maiores clubes. Eles querem alavancar os negócios, e isso não necessariamente quer dizer desenvolver o esporte ou torná-lo mais acessível”, pontua. Por isso, na opinião de Vantine, a melhor solução seria trocar os donos bilionários de clubes ricos por um modelo de gestão comandado pelos torcedores. “Assim você entende mais as necessidades de seus torcedores e resgata um caráter passional e identitário que também pode te ajudar a expandir sua marca”, justifica. Dos 12 fundadores da Superliga, apenas Real Madrid e Barcelona são clubes associativos, ou seja, não têm proprietários. “Infelizmente, a tendência é de seguir esses monopólios, favorecendo mudanças que descaracterizam o futebol”, conclui.

Apoie a produção de notícias como esta. Assine o EL PAÍS por 30 dias por 1 US$

Clique aqui

As mudanças, da regra do impedimento ao jogo no TikTok

Com o objetivo de reconquistar os consumidores mais jovens, Leonardo Pomar enumera uma série de sugestões que, em sua opinião, tornariam o esporte mais dinâmico e mais atrativo para pessoas da sua idade ou mais novos. Paralisar o cronômetro quando a bola sai de campo, para evitar perda de tempo; aumentar o número de substituições —”Lebron James não fica em quadra o tempo inteiro, mas, quando está, ele joga na intensidade máxima”—; e criar uma regra para que o time precise passar mais tempo na metade ofensiva de seu campo são exemplos dados pelo torcedor que lhe fariam consumir mais o futebol. “É bem possível que essas mudanças cheguem mesmo no regulamento”, confirma Bruno Maia, “com mudanças na regra do impedimento, jogos com menos de 90 minutos, laterais cobrados com o pé e não com a mão. Tudo que deixe o futebol mais legal e dinâmico precisará ser feito, ainda que desagrade torcedores tradicionais como eu”, diz o especialista de 39 anos.

As alterações devem ir não só no sentido de reformar o jogo, como também a estrutura. Maia defende o reforço de regras que impeçam os clubes de continuarem a fazer contratos financeiramente insustentáveis, como o fair play financeiro, e a distribuição mais justa dos recursos entre clubes no mesmo campeonato, para aumentar o equilíbrio esportivo. “O time grande tem que entender que perder para o pequeno é sinal de competitividade, de equilíbrio, o que deixa a liga mais forte. Se o produto como um todo está mais forte, isso também é bom para o time grande”, justifica ele. “A solução é justamente o contrário do que a Superliga propõe”.

“É subjetivo dizer que mudanças nas regras vão tornar o jogo mais atrativo, apesar da tendência ser adequar ao espectador”, contesta Vantine, “mas uma liga competitiva com certeza traz mais envolvimento”. E, na opinião dos pesquisadores, seria necessário não só ajustar o equilíbrio esportivo, como também democratizar o acesso aos jogos de futebol. Maia exemplifica com a necessidade de programas de sócio-torcedores que contemplem classes mais baixas, além de mobilizar uma área mais popular na arquibancada, contrariando o movimento atual que predomina nas modernas arenas brasileiras e encarece os ingressos. “Se você faz um programa de sócio mensal cobrando cinco reais e consegue seis torcedores, você já banca um ingresso de 30 reais. Então pode sortear um ingresso gratuito por mês entre esses seis”, exemplifica o ex-vice-presidente de marketing do Vasco.

Isso acarreta também no acesso não presencial, ou seja, na distribuição do conteúdo. Bruno Maia cita o exemplo da Copa do Nordeste, uma competição que nasceu em seu novo formato já no mundo digital, como a primeira a fazer a transmissão de uma partida no TikTok, aplicativo de vídeo que virou febre mundial. “Foi gratuitamente, mas ela chegou nesse mercado antes de todo mundo. Isso pode ter um impacto enorme”, explica. Maia ainda cita a produção audiovisual e a necessidade de aproximar o torcedor do ambiente interno do clube como medidas necessárias para reconquistar uma geração. “Não é uma série com os bastidores dos jogadores que vai salvar o futebol, mas isso já é consequência de uma mudança de visão. O segredo está em achar boas histórias que não dependam só do campeão para valorizar o produto como um todo.”

Futuro de longo prazo, principalmente no Brasil

Rafael Alberico é publicitário e pesquisa o comportamento do torcedor brasileiro através da influência exercida pelas áreas de marketing dos clubes de futebol. Ele também classifica o futebol como “um produto envelhecido”, mas chama a atenção para que a realidade brasileira não seja vista com os “óculos europeus”. “Os clubes da Europa estão muito à frente dos brasileiros nas ações de comunicação, marketing e envolvimento com seus torcedores”, garante. “Além disso, a grande massa consumidora de futebol no Brasil ainda pertence às classes menos abastadas. Isso quer dizer que uma coisa é reformar a maneira como distribuímos conteúdo na Europa e outra coisa é pensar nisso, a curto prazo, no Brasil.”

Por isso, Alberico prevê que, apesar do envelhecimento do esporte, seu patamar hegemônico não sofrerá alterações em breve, especialmente dentro do contexto brasileiro. Mariana Vantine acha que o mesmo será válido para todo o mundo. “Em Manchester, na Inglaterra, os torcedores descontentes com a gestão de empresários no Manchester United criaram outro clube para eles [United of Manchester, fundado em 2005 e integrante da 7ª divisão inglesa]. Não foram para outros esportes. O futebol é um fenômeno complexo, consolidado, instrumento de Estado. Não vai deixar de ser hegemônico”, opina. Bruno Maia discorda: “Eu já acho que o futebol vai achar o lugar dele em outra prateleira, importante mas competindo de forma mais próxima com basquete, UFC, futebol americano, e-sports. Enquanto achar que será sempre o esporte mais popular, ele não vai conseguir se comunicar com o mundo atual”.

Inscreva-se aqui para receber a newsletter diária do EL PAÍS Brasil: reportagens, análises, entrevistas exclusivas e as principais informações do dia no seu e-mail, de segunda a sexta. Inscreva-se também para receber nossa newsletter semanal aos sábados, com os destaques da cobertura na semana.

Arquivado Em:

Mais informações

Pode te interessar

O mais visto em ...

Top 50