Pandemia de coronavírus

Renda na América Latina pode sofrer perda acumulada de até 22% por causa da pandemia

No cenário mais benigno, a crise sanitária provocará um retrocesso de 6,6% no PIB deste ano, enquanto no mais adverso o cataclismo beiraria os 12%. Queda será superior à média mundial, segundo o Banco da Espanha

Trabalhador limpa rua vazia na Cidade do México.
Trabalhador limpa rua vazia na Cidade do México.Jorge Núñez / EFE

Ser um dos continentes relativamente menos afetados pelo coronavírus não significa que o impacto econômico da pandemia não será graúdo – mais inclusive do que se previa até agora. A América Latina, de Tijuana a Ushuaia, pode sofrer uma contração da renda entre 11% (num cenário “demarcado”, com confinamentos de oito semanas e recuperação mais ou menos rápida da demanda interna) e 22% (sob “confinamento prolongado”, em torno de 12 semanas, e maior tensão das condições financeiras) no acumulado de 2020 e 2021, segundo uma simulação do Banco da Espanha a partir de dados próprios, do FMI, da Consensus Forecasts e da Thomson Reuters. As cifras, porém, estão notavelmente acima do projetado até agora por organismos como o próprio Fundo Monetário e o Banco Mundial e têm como ponto de partida o crescimento do PIB previsto para a região antes que a pandemia redefinisse o conceito de “normalidade”, tanto no aspecto humano quanto no econômico.

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O subcontinente fechará 2020, que está a caminho de ser o pior ano para a economia mundial em quase um século, com um retrocesso de 6,5% a 11,5% no PIB regional, o maior desde o início dos registros, e que faz empalidecer o 5,2% que o FMI projetava há apenas duas semanas e o 4,6% do Banco Mundial. Esses números já são papel molhado, com um retrocesso maior que o esperado para a economia mundial, “em parte porque a projeção de crescimento antes da pandemia era inferior nas economias latino-americanas e, em parte, porque o canal da contração da demanda interna – o mais significativo – é mais pronunciado nestas economias, por estarem mais fechadas aos intercâmbios de bens e serviços que a média mundial”. O que não muda é a data orientativa em que se começará a ver a luz no final de um túnel que não estava em nenhum mapa: na “ausência de novos surtos da epidemia mais adiante", a economia global (e, com ela, a latino-americana) começará a se recuperar no segundo semestre deste ano.

Ainda em fase de contenção sanitária, com confinamentos mais ou menos rigorosos, mas ativos em praticamente todos os países da região, “o alcance da perturbação ainda é muito incerto”, observam os técnicos do Banco da Espanha. Mas já começam a se vislumbrar alguns traços que acompanharão a América Latina (e o mundo) nos próximos meses: menor comércio internacional, com as matérias-primas, das quais tanto depende a América do Sul, no olho do furacão; fluxos turísticos claramente em baixa; tensões em mercados financeiros submetidos a uma pressão inédita desde a Grande Recessão de uma década atrás; contração abrupta da demanda interna, “que está se refletindo em um menor consumo dos lares e em um retrocesso do investimento empresarial”; e efeitos negativos sobre a oferta pela interrupção forçada da produção em vários setores. “Além disso, a incerteza sobre as perspectivas pode reduzir o consumo e o investimento além do horizonte mais imediato, levando à destruição de empresas e postos de trabalho, a um aumento das dívidas e ao endurecimento das condições de financiamento de alguns agentes, o que pode retroalimentar um círculo vicioso e elevar a persistência da crise”.

O coronavírus representa um choque múltiplo para a região: todos os setores se veem afetados, em maior ou menor medida. Com um grau de abertura econômica (exportações) menor que outras regiões, os países latino-americanos estão, em geral, menos expostos às vicissitudes do exterior. Entretanto, o grau de vinculação das economias que são muito dependentes de outros países (o México em relação aos Estados Unidos; Chile, Peru e Brasil em relação à China) é enorme, com encadeamentos produtivos que se complicam em tempos como estes, nos quais muitas cadeias de valor saltaram pelos ares. A isso será preciso somar a evolução negativa das matérias-primas – entre elas o petróleo, sim, mas não só –, das quais a América Latina exporta mais do que importa, e cujo preço tem caído drasticamente desde a irrupção da pandemia, partindo de níveis já inferiores à média histórica, segundo os dados reunidos pelo Banco da Espanha. E do turismo, uma atividade que foi atingida abaixo da sua linha de flutuação pela crise do coronavírus, e que tem uma importância relativa sobre o PIB latino-americano notavelmente superior ao que ocorre no resto de emergentes.

O ponto de partida também pesa. “A América Latina sai de uma situação mais delicada que o resto das economias emergentes e avançadas para enfrentar a pandemia”, salientam os técnicos do Banco da Espanha, que recordam que já na segunda metade de 2019 duas das três grandes potências da área (México e Argentina) tinham entrado em números vermelhos, e que “o crescimento da região continuou sendo muito fraco como consequência do baixo dinamismo da demanda interna”. A América Latina já era, desde muito antes da crise sanitária, uma ilha de baixo crescimento num mar emergente que também começava a dar sinais de esgotamento.

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