Durante pandemia, pesquisa telefônica é mais adequada

Instituto Datafolha defende a metodologia de suas pesquisas, que têm sido feitas de forma diferente durante a crise do coronavírus

Movimento no Viaduto do Chá, em São PAulo, durante a quarentena, em 26 de março.
Movimento no Viaduto do Chá, em São PAulo, durante a quarentena, em 26 de março.Rovena Rosa/Agência Brasil

Durante a pandemia de coronavírus em que o isolamento social de parte da população inviabiliza a realização de pesquisas presenciais, a abordagem telefônica em pesquisas de opinião pública impõe-se como solução mais adequada, segundo avaliação do corpo técnico do Datafolha. Nesse sentido, são válidas também experiências com outros métodos de abordagem para enriquecer o debate, tão presente nas discussões metodológicas mais recentes.

Em relação ao artigo elaborado pela consultoria Atlas publicado pelo EL PAÍS, o autor supervaloriza a variável voto declarado como indício de viés da amostra em pesquisa Datafolha. A pergunta sobre o voto na eleição de 2018 não deve ser utilizado como variável de controle ou ponderação. Além de elevada taxa de entrevistados que se recusam a revelar em quem votaram (8% somando-se os que não lembram), a variável por si carrega potencial de viés por contemplar eleitores que hoje têm 16 ou 17 anos e que na época não podiam votar.

O autor calcula votos válidos sem a base completa da variável na amostra. Desconsidera a taxa de não resposta, repercentualizando-a de maneira proporcional pelos candidatos. Parte do pressuposto de que quem não podia votar na ocasião, os que se abstiveram ou os que se recusam a revelar o voto, teriam o mesmo comportamento que o restante do eleitorado. E o contingente de entrevistados que se enquadram nessa situação é elevado ―26% do total da amostra (6% de recusas + 2% dos que não lembram + 18% que declaram não ter votado na última eleição). É por isso que o Datafolha só calcula votos válidos às vésperas da eleição, quando o percentual de indecisos diminui.

O voto declarado é uma variável tão subjetiva que historicamente muda de acordo com a percepção do eleitorado sobre expectativas e satisfação com a gestão do candidato vitorioso. Não é a falta de eleitores de determinado candidato na amostra que determina uma melhor ou pior avaliação do mandatário, mas sim o contrário ―quando um governante apresenta bom desempenho, a probabilidade da população dizer que votou nele é maior.

Para garantir a representatividade de suas pesquisas, inclusive nas telefônicas, o Datafolha controla variáveis objetivas justamente para minimizar a influência de erros não amostrais. Por isso, a distribuição da amostra é feita com base em cotas de sexo e idade, segundo as proporções reais em cada região do país. No caso da abordagem telefônica, como sempre, de maneira transparente, o Datafolha alerta para possíveis desvios de natureza socioeconômica, calibrados e ponderados objetivamente por escolaridade (categoria com taxa de resposta que alcança a totalidade dos entrevistados).

O Datafolha sempre disponibiliza os resultados completos das pesquisas publicadas e não encontrou acesso a dados detalhados da metodologia e dos resultados internos das pesquisas feitas pela Atlas Consultoria. Pelo relatório, sabe-se apenas que são entrevistas “online”.

De qualquer forma, se a empresa tornar públicas suas bases e variáveis de controle e ponderação, a exemplo do Datafolha, o instituto se coloca à disposição para prosseguir com o debate técnico no intuito de fortalecer a transparência necessária para apurações tão importantes que contam a história, do ponto de vista dos cidadãos, desse período tão relevante.

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