Abraham B. Yehoshua: “O esquecimento liberta os judeus da tirania da memória”

Em ‘O túnel’, o escritor israelense passeia pela realidade cotidiana do Alzheimer, transformada em alegoria dos conflitos de Israel

Abraham B. Yehoshua em uma imagem de 2019.
Abraham B. Yehoshua em uma imagem de 2019.Leonardo Cendamo (Getty Images)

Abraham Bulli (apelido familiar) Yehoshua, o romancista menos conhecido, e talvez o mais lúcido, de um excepcional trio de narradores israelenses de projeção internacional, junto com Amos Oz e David Grossman, mergulha na escuridão do Alzheimer em O túnel, sua última obra traduzida ao espanhol. A meio caminho entre o realismo e o simbolismo, descreve um cotidiano semeado de alegorias, que tenta lançar luz, em meio à confusão da doença, sobre a identidade do Estado judaico. E também sobre a sua própria identidade, para tratar de se redimir da desolação pela morte de sua esposa, Rivka, com quem conviveu por 56 anos e que faleceu justamente enquanto ele escrevia este livro, editado agora na Espanha pela Duomo e traduzido do hebraico por Raquel García Lozano.

Yehoshua conta ao telefone que está doente. Adia a entrevista ao EL PAÍS por causa de uma consulta hospitalar e prefere manter a conversa à distância para mergulhar nas chaves que O túnel contém a respeito da sua visão sobre Israel. Não quer mais receber visitas em sua casa, perto de Tel Aviv, onde mora sozinho. Quando se lhe deseja uma rápida recuperação, responde com hesitação: “Não sei. Desde que minha mulher morreu, nada mais é como antes”.

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“Fui um escritor que abordou todas as crises e conflitos na família, mas acredito firmemente no casamento”, reconhece. Esse é um dos eixos centrais de sua obra, com pontos culminantes como Divórcio tardio. “A perda de Rivka foi um grande desastre para mim. A doença a levou em apenas dois meses. Depois da sua morte, demorei a me recuperar e acabar o livro”, relata. “Segui o fio da história de onde o tinha deixado, e no fundo ela me ajudou a acabá-lo”, acrescenta. Em O túnel, Dina, a esposa do protagonista, o setuagenário Zvi Luria, o empurra a continuar trabalhando de forma altruísta na sua profissão de engenheiro viário, apesar de estar aposentado, como forma de frear o avanço da demência senil.

Nascido em Jerusalém há 84 anos, A. B. Yehoshua, que costuma assinar suas obras com essas duas iniciais, no passado compartilhou com Oz (morto em 2018) e Grossman uma visão favorável à paz com os palestinos, com dois Estados separados coexistindo entre o rio Jordão e o Mediterrâneo. Hoje, porém, só considera viável que exista um Estado.

“Em hebraico há dois termos para descrever a demência senil. Um se refere a algo escuro, e outro faz alusão à confusão. Esta última acepção foi a que usei: algo confuso”, detalha o autor de A noiva libertada. “A memória é um assunto central na identidade judaica, que não se baseia em acontecimentos históricos, e sim numa mitologia, como a destruição do templo [de Jerusalém, no ano 70 da era cristã]”.

Argumenta que a identidade se baseia na fé. Também alerta que, nos últimos anos, quando a sociedade judaica começou a se fragmentar entre laicos e religiosos, nacionalistas e partidários da paz, ashkenazitas e sefarditas, “a memória coletiva, em lugar de iluminá-la, se transformou em divisora. Por isso concedi a Zvi Luria o privilégio de esquecer a realidade que nos circunda”, esclarece.

– Por isso lhe pôs uma tatuagem no braço, como nos judeus em Auschwitz?

– Na verdade, é só um recurso técnico para poder navegar por sua vida. Ele sempre esquece o código do alarme para poder ligar o carro. Se dependesse de um pedaço de papel no bolso, a doença o levaria a perdê-lo. Faz sentido gravá-lo em seu próprio corpo. É algo prático. De todo modo, ao conseguir ligar seu carro, Zvi vence o esquecimento e escapa do seu Holocausto pessoal.

“O esquecimento libera os judeus da tirania da memória. Acho que devemos nos livrar do desastre de que tenham matado mais de seis milhões de judeus. Um terço do nosso povo morreu à toa. Não por território, nem por religião, nem por ideologia, nem por dinheiro ou algo material”, diz ele, condensando o peso da lembrança do extermínio para a vida do seu povo.

Filho da diáspora sefardita, os ancestrais de Yehoshua chegaram a Jerusalém vindos do Mediterrâneo oriental em meados do século XIX, quando havia pouquíssimos judeus na Terra Santa. “Meu pai falava ladino com sua família, mas com a minha mãe, originária de Marrocos, falava francês, então não aprendi o idioma judaico-espanhol”, diz ele, justificando a ausência desse legado cultural paterno, enquanto sua voz às vezes some do outro lado da linha, e de vez em quando volta a se avivar.

Considera que O túnel é uma resposta à divisão da sociedade israelense: “Devemos criar comunicações entre os diferentes setores. É muito importante para um país tão pequeno abrir vias subterrâneas de comunicação. Esse é o significado do túnel que se escava no romance para salvar uma família palestina”.

“Apesar de todos os esforços que alguns de nós fizemos no passado em favor da solução com dois Estados, considero que ela não funciona mais”, argumenta, a respeito de seu afastamento da tese preponderante na esquerda israelense e na comunidade internacional. “Uma das razões é o colonialismo dos assentamentos na Cisjordânia. Esse foi o grande erro de Israel, que nos incapacita agora para aplicar a solução dos dois Estados.”

– E a de um só Estado?

– Não sei. Talvez um modelo federal, como a Bélgica. Ou confederativo, como a Suíça. Temos que encontrar uma saída. Hoje há quase dois milhões de palestinos vivendo como israelenses, com plena nacionalidade [apesar da recente onda de violência entre grupos religiosos]. Convivem conosco nos hospitais, também nas universidades, nas fábricas. O fato de um partido político árabe participar da atual coalizão governamental é muito positivo.

Em seu périplo interno pelo esquecimento e a desmemória, O túnel viaja até a cratera de Ramon, nas profundezas do Neguev, e evoca o pai da nação e primeiro chefe de Governo, David Ben Gurion. O deserto costuma estar muito presente na obra de Yehoshua. “Ben Gurion pediu aos israelenses que habitássemos o sul, quase a metade do nosso território. Ele pregou com o exemplo e se instalou em um kibutz [fazenda cooperativa israelense] no deserto. Mas os outros não o seguiram. Em lugar de se assentar na Cisjordânia, protegidos pelo Exército, e de perturbar a vida dos palestinos, os colonos poderiam ter ido para o Neguev e transformá-lo em um pomar”, afirma ele, concluindo a aula de anatomia sobre seu livro, entroncado com a utopia institucional do Estado judaico.

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