Estante EL PAÍS: novas obras de Itamar Vieira Junior e Laurentino Gomes, romances e ciência psicodélica

No mês do orgulho LGBT, as indicações literárias incluem uma história infanto-juvenil sobre um príncipe trans e quilombola, além da estreia no Brasil da escritora e artista Renne Gladman

Ilustração do romance 'Doramar ou a Odisseia', de Itamar Vieira Junior.
Ilustração do romance 'Doramar ou a Odisseia', de Itamar Vieira Junior.

Em junho, mês em que se celebra o orgulho LGBTQI+, o jornalista e escritor Jared Amarante traz a aventura infanto-juvenil Ariel - a travessia de um príncipe trans e quilombola (Giostri) sobre um garoto em descoberta da própria ancestralidade e identidade. Por meio d’A Bolha Editora, a celebrada escritora estadunidense Renee Gladman chega ao Brasil com Calamidades, uma série de ensaios sobre corpo e gênero. Há ainda os aguardados lançamentos de Doramar ou a Odisseia (Todavia), de Itamar Vieira Junior, e o segundo volume da trilogia Escravidão, de Laurentino Gomes, entre outras leituras.

Doramar ou a Odisseia

Itamar Vieira Junior

Todavia

Uma história que o escritor Itamar Vieira Junior escutou certa vez em Tijuaçu, no interior da Bahia, foi a inspiração para o conto Alma, que narra o trajeto de uma mulher escravizada que foge de seu cativeiro e empreende uma jornada de caminhada pelo sertão até fincar raízes em uma nova comunidade. Esse é um dos relatos que constroem Doramar ou a Odisseia, coletânea de sete contos já editados e outros inéditos do autor de Torto arado —romance que o consagrou como um dos autores essenciais da literatura nacional contemporânea—, trazendo, mais uma vez, a força de personagens femininas protagonistas, os conflitos fundiários que ferem o chão do Brasil e outras questões sociais. Nas histórias curtas de ficção, Vieira Junior se debruça sobre a cultura afro-brasileira, a ancestralidade indígena, a marginalidade e a loucura. Um prato cheio para quem é apaixonado pela tradição literária do país.

Escravidão – da corrida do Ouro em Minas Gerais até a chegada da corte de Dom João ao Brasil

Laurentino Gomes

Globo Livros

No segundo volume da trilogia Escravidão, o jornalista Laurentino Gomes se debruça sobre o auge do tráfico negreiro, no século XVIII, marcado pela corrida do ouro e do diamante no país. “Entre 1.700 e 1.800, cerca de dois milhões de homens e mulheres foram arrancados de suas raízes africanas, embarcados à força nos porões dos navios negreiros e transportados para o Brasil. Muitos seriam vendidos em leilões públicos antes de seguir para as senzalas onde, sob a ameaça do chicote, trabalhariam pelo resto de suas vidas”, escreve o autor na apresentação da obra. Durante esse período, o Brasil tornou-se o principal país escravagista do mundo, e é por isso que Gomes deixa a geografia africana —na qual estava centrado o primeiro volume— e passa a limpo a escravidão em território nacional, propondo-se a descrever e explicar a construção da “grande, bela e sofrida África brasileira”.

Ariel - a travessia de um príncipe trans e quilombola

Jared Amarante

Giostri

Um pente garfo dado por Deus coroa o menino Ariel como príncipe. Mas existe príncipe que nasceu menina, que é gordo, que é preto? Na obra infanto-juvenil Ariel - a travessia de um príncipe trans e quilombola, o jornalista Jared Amarante mostra que tal existência não apenas é possível como deve ser celebrada —bem como dita o mês do orgulho LGBTQIA+. No livro, após sofrer racismo pelo próprio pai, o menino Ariel mergulha em sua ancestralidade, para entender melhor sua história e identidade, e acaba enfrentando todos os seus medos angústias e ansiedades, sentimentos que ele expressa em seus desenhos, até chegar no Quilombocéu, um espaço de segurança e igualdade. A obra, escrita após quatro anos de pesquisas e entrevistas com pessoas transgênero, é um presente antirracista —e anti toda forma de ódio— para mães, pais e filhos.

Calamidades

Renee Gladman

A Bolha Editora

Até agora inédita no Brasil, a escritora e artista estadunidense Renee Gladman é celebrada em seu país como uma arquiteta da prosa e uma das vozes mais originais da literatura contemporânea. Agora, A Bolha Editora publica em português Calamidades, com tradução de Tatiana Nascimento, uma coletânea de ensaios nos quais ela “destroça o gênero” ao questionar e observar o corpo e a forma como ele transita e se relaciona com o tempo, a arquitetura e o espaço. Com sutileza, Calamidades exige, tanto de quem narra quanto de quem lê, uma nova lógica e um novo nível de consciência de mundo.

O homem que escutava as abelhas

Christy Lefteri

Vestígio

O romance de Christy Lefteri (com tradução de Elisa Nazarian) acompanha o casal sírio Nuri, criador de abelhas, e Afa, uma artista visual que fica cega durante a guerra em sua fuga de Alepo, rumo a um futuro incerto no Reino Unido, passando pela Turquia e pela Grécia. No caminho, repleto de provações, eles se amparam na promessa de que o primo os espera em Yorkshire, onde fundou um apiário e ensina outros refugiados a criar abelhas. Mergulhando nas próprias lembranças e heranças como filha de refugiados, a autora escreve com maestria uma história comovente e poderosa sobre o triunfo do espírito humano.

Psiconautas: viagens com a ciência psicodélica brasileira

Marcelo Leite

Fósforo

Por décadas, drogas como o LSD e a psilocibina de cogumelos, que hoje mostram eficácia em estudos sobre depressão, foram estigmatizadas. O mesmo acontece com o MDMA, usado para tratamento de estresse pós-traumático em testes experimentais. No Brasil, pacientes deprimidos tiveram bons resultados em ensaios com ayahuasca, e os dependentes de crack têm motivos para otimismo graças à ibogaína, droga sintetizada a partir de uma planta do Gabão. Não à toa, o renascimento psicodélico é celebrado por cientistas e entusiastas dessa área de pesquisa em saúde mental. Nesse livro, ao mesclar relatos da própria experiência com essas substâncias ao perfil dos principais pesquisadores da área (estrangeiros e brasileiros) entrevistados diretamente por ele, Marcelo Leite oferece um panorama completo desse campo de estudo no qual ciência e humanismo caminham juntos.











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