PREMIOS EMMY

‘Schitt’s Creek’ e ‘Succession’ arrasam a concorrência no Emmy do confinamento, entregue de forma virtual

HBO adota uma cerimônia por teleconferência em que as estrelas convocaram os espectadores a votar, em um momento político complicado nos Estados Unidos

Daniel Levy e Eugene Levy recebem o Emmy por ‘Schitt’s Creek’ em sua festa em Toronto, neste domingo. No vídeo, o melhor da premição.VÍDEO: ATLAS

A cerimônia mais estranha na história do Emmy – e isso não é pouca coisa – aconteceu neste domingo, com um apresentador em Los Angeles e os indicados espalhados por mais de uma centena de lugares diferentes. Os prêmios televisivos conseguiram se parecer com a forma como quase todo o mundo vem trabalhando desde março, com uma transmissão virtual em que os premiados apareceram por teleconferência e receberam as estatuetas em suas casas. Foi “como montar uma videoconferência com sua família e tentar que sua avó olhe para a câmera, mas multiplicado por cem”, brincou Jimmy Kimmel, o apresentador. Assim foi, mas também houve a parte íntima e pessoal. E, mais importante, será lembrada pelos prêmios. Schitt’s Creek, Succession e Watchmen foram as séries do ano, em uma festa que não afastou o momento de máxima tensão devido à situação política que os Estados Unidos atravessam.

Já havia transcorrido uma hora de programa e só uma série era mencionada até então: Schitt’s Creek. A sexta temporada desta produção canadense criada por Daniel Levy e protagonizada por seu pai, Eugene Levy, e por Catherine O’Hara fez história nesta edição do prêmio. Durante toda essa hora de cerimônia, a série levou os sete troféus de comédia (melhor comédia, diretor, roteiro e os quatro atores). Nunca havia acontecido antes.

A série arrasou em desempenho sobre as concorrentes The Marvelous Mrs. Maisel, (que tinha 20 indicações neste ano e já soma 54 Emmys ao todo), Insecure e O Método Kominsky. Schtt’s Creek nunca havia recebido um Emmy nas suas cinco temporadas anteriores. Depois de uma hora recebendo troféus, a situação rendeu uma piada de Kimmel: “Não sei vocês, mas estou me cansando de tanto canadense”.

A televisão norte-americana passou três anos procurando a nova Veep. A série da HBO acabou no ano passado, após dominar a premiação durante uma década. Já naquela cerimônia, encerrou um capítulo com a irrupção de Fleabag, a pequena série britânica que veio, legou quatro prêmios e se despediu para sempre, pois já havia terminado. Deu a impressão de que a televisão norte-americana a tinha descoberto só porque apareceu na Amazon. Algo semelhante acontece neste ano com Schitt’s Creek. Fica nos recordes para sempre seu extraordinário triunfo, mas não é o futuro de nada. A sexta temporada, exibida neste ano, foi a última.

Talvez a vitória desta série esteja de certa forma associada à realidade da televisão na pandemia. Desde que o confinamento começou, os espectadores puderam devorar séries inteiras que tinham deixado passar. É como se os eleitores da Academia, depois de cinco anos, tivessem dito a si mesmos: “Vou dar uma chance a esta série que nunca tive tempo de ver”. Adoraram. O fato de as cinco primeiras temporadas estarem na Netflix certamente não atrapalhou.

Na categoria de minissérie, Watchmen ganhou como melhor produção do ano, como se esperava. O trabalho de David Lindeloff baseado na lendária HQ causou um grande impacto nos Estados Unidos, pela qualidade com que reinventa o gibi e pela presença de Regina King num papel de ação – apesar de ser uma atriz que o público está acostumado a ver em grandes dramas. Watchmen era o programa mais indicado deste ano e foi também o mais premiado, com 11 Emmys.

Após uma década, finalmente Hollywood estava obrigada a escolher uma série dramática que não fosse Game of Thrones. Não para cumprir tabela, mas, na verdade, para sinalizar como deveriam ser os grandes dramas na próxima década. A ganhadora foi Succession, uma intriga de alguns filhos que conspiram para substituir o pai no topo de um império midiático familiar. Succession, produção da HBO, já era para muitos a melhor série do ano passado. Sua segunda temporada foi ainda melhor que a primeira. A série ganhou melhor produção do ano, direção e roteiro (apesar de três capítulos de Ozark e dois de Better Call Saul estarem indicados).

Para os fãs da série, o prêmio mais significativo talvez tenha sido o de Jeremy Strong, um grande coadjuvante norte-americano, indicado desta vez como protagonista e que se impôs como ator principal ao seu colega de elenco Brian Cox. A segunda temporada de Succession transfere a carga dramática do pai ao personagem de Strong, que oferece alguns dos momentos televisivos do ano.

A categoria de drama também rendeu dois momentos que entrarão na história do Emmy. A AppleTV+ ganhou seu primeiro prêmio importante, o de melhor ator coadjuvante em drama, com Billy Crudup, o inquietante executivo de notícias do The Morning Show. Teve gosto de vitória para um serviço de streaming que estreou neste ano com conteúdo original e só pode se orgulhar de uma série que tenha impactado o público – justamente esta. Julia Garner, de Ozark, ganhou como atriz coadjuvante pela segunda vez.

E, sobretudo, Zendaya. A atriz de 24 anos fez história como a mais jovem a receber o prêmio de melhor protagonista por Euphoria, da HBO. O prêmio cimenta a estatura de estrela de Zendaya, no sentido de verdadeiro ídolo que sozinha arrasta legiões de espectadores para o que fizer. O triunfo de Succession e Watchmen colocou de novo o canal pago HBO como rei da ficção televisiva, com um total de 30 Emmys este ano, 11 deles entre os prêmios importantes deste domingo. Atrás vem a Netflix, com 21 prêmios. A plataforma que reinventou a forma de produzir e ver televisão nos últimos cinco anos tinha batido o recorde histórico de indicações, com 160. Mas nunca – e tampouco desta vez – levou um dos três prêmios principais de ficção.

O prêmio final foi dado a Sterling K. Brown com uma camiseta do Black Lives Matter, a organização por trás da verdadeira rebelião antirracista que este país vive de costa a costa nos últimos seis meses. Foi mais uma referência ao momento de tensão política que os Estados Unidos atravessam. Regina King apareceu sentada em uma poltrona com uma camiseta de Breonna Taylor, uma mulher negra de 26 anos que foi morta a tiros pela polícia em Louisville, Kentucky, em março deste ano. Seu nome se somou ao de George Floyd nos protestos contra o racismo que percorreram os Estados Unidos durante meses.

Outros, como Mark Ruffalo (ganhador pela minissérie I Know This Much Is True), pediram à audiência pra que se cadastre para votar e se planeje para comparecer às urnas em 3 de novembro, num país onde pode ser realmente difícil exercer esse direito. Até Daniel Levy, verdadeiro vencedor da noite do Canadá, lançou uma mensagem inequívoca ao receber o último prêmio por Schitt’s Creek: “Nossa série fala do poder transformador do amor. Quem não tiver se registrado para votar, registre-se, porque é a única forma de recuperar um pouco de amor”.

Ao final, a vida abriu espaço nos Emmys confinados, como em todas as partes. Sim, houve festa, flores, smoking, vestidos, gritos e abraços. Sobretudo graças à equipe de Schitt’s Creek, que viu a cerimônia reunida em uma sala e em mesas como se fosse um casamento. Quanto aos demais, foi curioso vê-los em seus sofás ou poltronas, com suas famílias. O espetáculo esteve cheio de detalhes com os quais o público confinado pôde se identificar. Como Uzo Aduba, melhor atriz secundária em minissérie por Mrs. America, gritando fora da câmera: “Mamãe! ganhei!”.

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