O dia em que Dalí se vestiu de almirante para receber Franco

Diários inéditos do colecionador Reynolds Morse revelam os canos que o ditador deu no artista, que se prestou a apoiar a imagem pretensamente modernizadora da ditadura

Carmen Polo, Franco e Dalí no castelo de Peralada em 1970.
Carmen Polo, Franco e Dalí no castelo de Peralada em 1970.
Palma de Mallorca (Espanha) - 27 jun 2020 - 23:35 UTC

Os diários do colecionador Reynolds Morse, inéditos até para os biógrafos de Salvador Dalí, jogam nova luz sobre as relações pessoais entre o pintor catalão e Francisco Franco. Nos anos sessenta, Morse, que costumava anotar suas conversas com o artista, perguntou-lhe se temia ser fuzilado caso triunfasse uma revolução na Espanha e Franco morresse. “Sim, assim como os camponeses ignorantes mataram Lorca (...). Sua morte foi uma tragédia. Teve um caso com um menino em um povoado, as pessoas ficaram furiosas e o fuzilaram”, respondeu. “Tenho certeza absoluta de que, se eu não tivesse saído da Espanha antes da guerra, agora estaria morto”, confessou outro dia a Morse um comprador dedicado da obra do pintor, cuja coleção está no Salvador Dalí Museum em St. Petersburg, Flórida (EUA).

O franquismo recompensou com honras, louvores e exposições a colaboração ativa do artista, que voltou dos EUA para a Espanha em 1948. Mas faltava a Dalí o reconhecimento pessoal de Franco, que deu o cano no pintor em duas ocasiões e o fez esperar oito anos, até 1956, como demonstram os diários de Morse, conservados nos Arquive of American Art do Smithsonian. “Sou o símbolo que mostra a tolerância de Franco”, disse Dalí a Morse.

A escolha de sua pintura clássica A Cesta de Pão como imagem para o Plano Marshall, graças à capa de fevereiro de 1948 da The Week Magazine, revista com tiragem de 15 milhões de exemplares, mostrou Dalí como um pintor virtuoso que, amparado no clichê que associa genialidade com loucura, podia compensar sua vida escandalosa em um momento em que o Governo Truman via franco como uma barreira para o comunismo. Isso ajudou a preparar seu retorno à Espanha.

Como relatou a Morse, em 1955, com o iate Azor do ditador ancorado na baía de Cadaqués, na Catalunha, Dalí recebeu um emissário que lhe anunciou a iminente visita de Franco. Policiais foram vistos nas colinas. O pintor fez a barba e, entusiasmado, preparou-se com seu melhor traje: um vistoso uniforme branco de almirante.

Dalí esperou em vão pela comitiva o dia inteiro. No dia seguinte, o mesmo emissário chegou com o mesmo anúncio. O artista repetiu o ritual, aguardando com sua pomposa vestimenta a chegada de Franco, que nunca veio. No terceiro dia, novo aviso com a mesma mensagem. Desta vez, Dalí já não fez nenhum preparativo nem se enfeitou e, efetivamente, o ditador não apareceu. Franco costumava visitar a área para se encontrar com o influente empresário falangista Miguel Mateu, um de seus assessores mais próximos, dono do castelo de Peralada e de uma casa na vizinha Garbet.

Em 1956, o segundo cano. “Dalí”, sempre segundo o relato de Morse, “fez uma longa viagem a Madri para ver Franco, esperando ansiosamente, dia após dia, a confirmação de uma audiência que não chegava. Dalí [acompanhado por Gala] estava ansioso para voltar a Port Lligat e continuar pintando, e assim, depois de três dias, eles retornaram a Port Lligat. Assim que chegaram, mal tinham se instalado quando chegou um telegrama notificando que Franco os receberia. Viajaram rapidamente até Barcelona para pegar o trem, pois Dalí não gostava de voar”. A reunião ocorreu no palácio de El Pardo em 6 de junho. Foi o primeiro de seus cinco encontros.

Dalí contou a Morse que achou Franco “muito inteligente e interessado na arte” e elogiou o ditador por ter criado “uma monarquia com a mesma genialidade com que Velázquez criou As Meninas”. “Franco riu um pouco, rejeitando modestamente o gênio que Dalí lhe atribuía, mas o importante é que a ideia da monarquia ficou plantada na mente de Franco, pois a Espanha teria de restaurar a monarquia, com Franco como chefe dos exércitos”, escreveu Morse.

Morse lembraria por toda sua vida a manhã de março de 1958 em que tocou o telefone de sua casa em Denver, Colorado, e ouviu a voz furiosa de Dalí do outro lado da linha. O colecionador tinha escrito um artigo sobre Dalí na revista Art in America no qual dizia que sua pintura religiosa era uma tentativa de ter boas relações com Franco. “Nunca pintei para agradar ninguém, só a mim mesmo. É um zé-ninguém! Um mequetrefe!”, vociferava o artista. “O curso dos acontecimentos me levou do anarquismo ao conservadorismo, do ateísmo sacrílego ao maior mundo místico. Sou o mesmo de quando era jovem, o que mudou foi o mundo: a Guerra Civil e a bomba atômica.”

Fúria monumental

A fúria monumental do pintor não ocorreu somente porque Morse questionou sua falta de inspiração ou de autonomia artística, mas também porque dinamitou seu pacto tácito com Franco. Dalí e sua pintura histórica e religiosa eram o exemplo que o regime expunha no exterior para se contrapor a Picasso, exilado em Paris, e a Miró, que, instalado em Mallorca, calava sem ocultar seu antifranquismo.

Franco se encontrou com Dalí pelo menos outras quatro vezes. O pintor contou a Morse detalhes do encontro mantido no castelo de Peralada em 1970. “Primeiro chegou um helicóptero, depois soldados com fuzis, em seguida duas limusines. De uma delas saiu cambaleante um pequeno ancião que tinha todo mundo sob seu controle”, e ainda assim, escreve Morse, “negou-se a fazer a sesta quando todos estavam exaustos”. Dalí ficou maravilhado com a energia exibida por uma figura tão frágil. “Tem de ser um místico”, disse.

Ali mesmo, o pintor fez um rápido retrato da esposa de Franco, Carmen Polo, e aceitou pintar outro de sua neta. Dalí buscaria a intervenção do ditador para obter apoio inclusive financeiro para suas telas de exaltação mística e patriótica e para a construção do Teatro Museu de Figueres, que vendeu como contraponto à abertura do Museu Picasso de Barcelona e como foco de atração turística.

Dalí, que se achava muito superior a Picasso e Miró, entregou-se com entusiasmo a tirar proveito de sua colaboração com uma ditadura que precisava usar a cultura como campanha de limpeza de imagem diante das democracias ocidentais. Na inauguração da Primeira Bienal de Arte Hispano-Americana, em 1951, há uma foto em que se vê Franco, de uniforme militar, rindo. O pintor catalão Antoni Tàpies contava que a imagem capta o momento em que o ditador recebeu a informação de que estava na sala dos artistas revolucionários”, ao que ele respondeu: “Ah, tudo bem, enquanto fizerem a revolução assim...”.

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