Dez jeitos de amar Federico García Lorca

O fuzilamento do gênio espanhol completa 80 anos. Especialistas em sua obra retratam este escritor universal

Uma oliveira próxima do túmulo de Federico García Lorca em Fuente Grande
Uma oliveira próxima do túmulo de Federico García Lorca em Fuente Grande

Mito

Por Agustín Sánchez Vidal (escritor e editor de Luis Buñuel)

Federico García Lorca foi uma lenda em vida. Sua obra é apenas um pálido reflexo da aura que o personagem irradiava. Ele mesmo tinha um forte sentido do mito, um instinto certo para evidenciá-lo. E são essas as raízes originais que o tornam tão universal. Buñuel e Dalí, que reprovavam seu “costumbrismo” não avaliaram corretamente essa trama subjacente ao brilho das metáforas, nem a passagem para a modernidade inaugurada pelo ciclo nova-iorquino.

O assassinato cerrou fileiras em torno de sua memória por parte de sêniores como Antonio Machado, seus colegas da geração de 1927 e sucessores como Miguel Hernández, que tinha um exemplar do Romanceiro Gitano na cela onde morreu.

O mito não parou de crescer. Quando o presidente Eisenhower visitou a Espanha em dezembro de 1959, em sua conversa com Franco colocou o nome de Lorca sobre a mesa. Informou Franco sobre o manifesto lançado por intelectuais norte-americanos acusando-o de estender a mão aos assassinos do poeta. O Caudilho atribuiu sua morte a descontrolados, e o presidente dos Estados Unidos o deixou numa situação ridícula ao mencionar detalhes muito precisos, fornecidos pelos seus serviços secretos. Duas décadas depois de seu fuzilamento, já era uma questão de Estado.

Popular

Por Mario Hernández (jornalista)

Toda a obra de Federico García Lorca, do Romanceiro Gitano a Bodas de Sangue, Dona Rosita, a Solteira, Pranto por Ignacio Sánchez Mejías, Seis Poemas Galegos ou O Divã do Tamarit, é atravessada por um profundo senso do popular espanhol, que corresponde tanto a saberes, crenças e sentimentos quanto ao modo de celebração da vida (e da morte) nas manifestações folclóricas de toda a Península. Seu professor predileto, Manuel de Falla, elogiou publicamente sua condição de folclorista e musicólogo, e essa vertente o coloca na esteira de poetas como Juan del Encina, Lope de Vega e Luis de Góngora, incluindo sua rica variedade de registros. Lorca é, por sua vez, como os três, um poeta capaz de se expressar em formas líricas ou dramáticas, dentro de uma tradição literária que, sem perder a conexão com a cultura europeia, tenta dar voz a aspirações coletivas. Essa raiz popular aparece nele muito apurada, transgredida, refinadamente transfigurada. A Casada Infiel, por exemplo, não é uma celebração machista de um Don Juan cigano, mas a versão lírica e primorosamente irônica da história original. Lorca é, em última análise, um poeta sempre consciente e culto, capaz de renovar uma voz anônima de séculos.

Moderno

Por Luis García Montero (poeta e crítico literário)

García Lorca foi um moderno. No início do século XX, ele participou em Granada da rebelião das províncias para regenerar a Espanha com professores como Fernando de los Ríos e Manuel de Falla. Foi também um moderno quando chegou à Residencia de Estudiantes em 1919 e procurou Juan Ramón Jiménez. Logo abandonou a eloquência sentimental para ensaiar a síntese das canções e o poder conceitual dos versos. Foi moderno ao compreender o valor das metáforas ultraístas e ao acompanhar Salvador Dalí em sua passagem do cubismo ao surrealismo, uma viagem que Lorca caracterizou com as fases da imaginação, da inspiração e da evasão. Como se não bastasse, viajou em 1929 para Nova York, leu Whitman e Eliot e sentiu de maneira muito pessoal o desvio para o vazio da civilização contemporânea. Talvez por isso tenha colocado Garcilaso e san Juan de la Cruz em terra devastada, porque duvidava do caminho linear chamado progresso e queria habitar um presente perpétuo ou um eterno retorno no qual atualizar o passado. Não é incomum buscar em seu último livro, O Divã do Tamarit, um abraço entre os ares clássicos e a expressão radicalizada.

Flamenco

Por Pedro G. Romero (escritor e crítico literário)

Sua mitologia do canto estava cheia de erros e mistificações, mas a poiesis, o modo de fazer, eram jondos, puro flamenco. Lorca merece estar em qualquer antologia de flamenco ao lado de La Niña de los Peines, sua contemporânea. Por exemplo, o concurso de Granada de 1922 foi um fiasco artístico e um sucesso de publicidade. De Falla abandonou o gênero em favor dos clássicos castelhanos, mas os flamencos se lançaram como loucos na propaganda intelectual. Lorca inventou um público e uma forma de entender o flamenco a partir da cultura europeia, o “puro” devia mais ao purismo de Le Corbusier do que à impostura primitivista do canto. É verdade que muitas vezes o que consideramos lorquismo é alheio a Lorca. Pensemos, por exemplo, em como ignorou Carmen Amaya, que cairia no lugar-comum, e elogiou La Argentinita. Lorca é um efeito, uma maneira de enfocar. Por exemplo, para o situacionista Debord, o Romanceiro Gitano era digno de Villon, o poeta delinquente. Sua homossexualidade e seu assassinato fecham sua topologia flamenca. Lorca é alheio a qualquer binarismo –homem /mulher, cigano/não-cigano, humano/animal– e se poderia dizer que é flamenco como agora se diz queer, veado, um qualificativo pejorativo tomado como bandeira. Assim, ouvimos Shostakovich com textos de Lorca e nos parecem flamencos. Meu Deus!, como Lorca entendia bem o canto, o falar de Enrique Morente.

Dramático

Por Lluís Pasqual (diretor teatral)

Para Federico García Lorca o teatro foi sempre “a máscara” –o eu que adotamos para interagir com os outros– transformado em arte. Que deveria ser dominada e contra a qual se deveria lutar. Ele intuiu isso ainda menino, quando oficiava cerimônias teatrais em forma de missa para as mulheres da casa. Depois vieram os bonecos e mais tarde as pequenas funções na entrada da Huerta de San Vicente. Mais tarde ele se apropriou da forma do teatro (como de tantas outras formas de sair de si mesmo) com a abordagem dos tímidos, procurando o antídoto para a angústia da solidão. O teatro é um espaço para compartilhar sempre com “outro”. Com o público por sua própria natureza e também com os companheiros de aventura nos ensaios que preparavam esse encontro, seja em Granada, no Teatro Español, ou em qualquer cidadezinha da Espanha em turnê com La Barraca. O homem de teatro, e Federico o foi, sempre precisa dos outros. Todos os personagens de Lorca estão sozinhos, de Yerma até o diretor de El Público. E aliviam sua solidão compartilhando-a conosco enquanto, num jogo de espelhos, nós atenuamos a nossa. A solidão de Federico e a nossa aliviando-se numa carícia mútua estão na raiz do seu teatro.

Ilustrador

Por Juan Manuel Bonet (poeta, marchand, especialista em arte contemporâneo, diretor do Instituto Cervantes em Paris)

Federico García Lorca tocou em tudo e fez isso com encanto: alhambrismo, Góngora, Galícia essencial, teatro próprio e alheio, canto flamenco, piano, Nova York e Walt Whitman, quase cinema (com Emilio Amero), Cuba, Buenos Aires... Mas agora é o momento de lembrar sua vontade plástica. Com Apollinaire poderia ter dito aquilo de “E eu também sou pintor”. Essa vocação nasce com seus deliciosos cenários para os seus teatrinhos ainda numa Granada impregnada por Manuel de Falla, onde compartilha aspirações com Manuel Ángeles Ortiz, Ismael González de la Serna e Hermenegildo Lanz. Ele se afirma em Madri com Barradas, Maroto, Moreno Villa e Alberti –estes dois sempre militantes duplos–, e, naturalmente, Dalí. Um farol: o álbum Dessins de Cocteau (1923). Uma pena que não tenha saído o que ele planejou com os seus desenhos. Na Barcelona de 1927 mostrou alguns a Josep Dalmau, incomparável caça-talentos. Do ano seguinte é a conferência –com projeções– Sketch de la Pintura Moderna. Em 1929 participa, sempre lá, de uma exposição coletiva na Casa de los Tiros. Seus desenhos estavam cheios de encanto e de espanto, entre o infantil, o popular e o surreal. Desenhos –magníficos os que fez para plaquettes do argentino Molinari e do mexicano Novo– que são outra peça do mosaico ímpar chamado FGL.

Cinéfilo

Por Román Gubern (historiador de mídia)

Federico García Lorca em Nova York.
Federico García Lorca em Nova York.

A geração de 27, contemporânea do cinema, viveu um idílio com seu dinamismo e poética visual. García Lorca manifestou sua atração com sua peça O Passeio de Buster Keaton, escrita em julho 1925, mas publicada em abril de 1928, que, por meio de seu tímido protagonista, contém muitas alusões cifradas à sua homossexualidade. E em setembro de 1928, escreveu A Morte da Mãe de Charlot (que havia acontecido pouco tempo antes na Califórnia), na qual feminizou o comediante, chamando-o de “coração de senhorita (...) e do rubor de namorada. Afetado. Belo. Feminino. Astronômico”, embora o texto tenha permanecido inédito. E no intervalo da quinta sessão do Cineclube Espanhol fundado por Buñuel, em abril de 1929, recitou sua Ode a Salvador Dalí, quando seu amado pintor tinha desprezado seu afeto em favor do cineasta aragonês. Ele se sentiu aludido pejorativamente por Um Cão Andaluz e ao chegar a Nova York em 1929 escreveu como provável resposta o roteiro de Viagem à Lua –encontrado em 1989– rico em imagens cifradas, violentas e eróticas, provavelmente para emular e polemizar com seus amigos da Residência de Estudantes. O roteiro foi levado às telas pelo pintor Frederic Amat em 1998, com elegantes efeitos cromáticos e digitais.

Americano

Por Reina Roffé (escritora argentina)

Uma das passagens mais brilhantes da vida de Lorca foi sua travessia cultural pela América. Cada lugar (Estados Unidos, Cuba, Argentina, Uruguai) lhe trouxe algum tipo de satisfação profissional e uma ideia mais universal da arte, permitindo que não acreditasse nas fronteiras políticas e se sentisse “homem do mundo e irmão de todos”. Mas foi em sua viagem ao Rio da Prata que experimentou tudo aquilo com que sonha um escritor: o reconhecimento de seus pares, a admiração popular e a independência financeira.

Entre Buenos Aires e o poeta se estendeu uma via de dois sentidos por onde discorreu o olhar apaixonado de Lorca pela cidade portenha e a apropriação amorosa do granadino por parte da Argentina, que, de 80 anos para cá, não deixa de lhe prestar homenagens e de representar suas obras.

O sucesso obtido com Bodas de Sangue e as duas edições que Victoria Ocampo fez do Romanceiro Gitano lhe pareceram acontecimentos significativos e se juntaram à publicação de seus versos proibidos, a Ode a Walt Whitman, que o escritor e embaixador mexicano Alfonso Reyes entregou-lhe durante sua escala no Brasil. Lorca sentiu que lá, no Rio da Prata, tinha um público devotado, mas principalmente aberto, que se interessava pelas propostas mais ousadas. A América o fez tomar consciência direta da relevância de uma língua com tantos falantes e da existência de um continente de acolhida num mundo que já antecipava a brutalidade das armas.

Universal

Por Laura García Lorca (sobrinha do poeta)

Na minha experiência, é na concretude das respostas individuais, onde reside a tradução da ideia confusa de “universalidade”. Não deixa de me surpreender a gratidão e a alegria das respostas, sempre, ao chamado de Lorca. Seu compromisso de levar o conhecimento e a arte a todos os lugares, como escreveu em sua muito citada Alocução ao Povo da Aldeia de Fuentevaqueros sobre a importância dos livros, e também na prática real de levar o teatro a lugares onde nunca tinha chegado, aconteceu com sua própria obra. Ela chegou a todos os lugares.

O fato de Poeta em Nova York ter sido publicado nessa cidade pela primeira vez em 1940 acabou tendo uma influência real sobre autores de língua inglesa tão diferentes como Jack Spicer, Philip Levine, Allen Ginsberg, Derek Walcott, Patti Smith, Jim Harrison, John Giorno, Nicole Krauss, James Salter, Hanif Kureishi e Leonard Cohen, para citar apenas alguns que se reconheceram na obra de García Lorca.

O poeta chinês Bei Dao conta a importância que teve o fato de ter caído nas mãos de um grupo de jovens dissidentes da ditadura de Mao uma antologia de Lorca feita no fim dos anos vinte por um poeta chinês que passou por Madri a caminho de conhecer os surrealistas em Paris. Talvez tenha sido a primeira tradução da obra de García Lorca. O livro foi proibido e ganhou importância especial nesse grupo de intelectuais e artistas, tornando a palavra “verde” do Romance Sonâmbulo um símbolo de liberdade.

Recentemente, fizeram parte de um projeto –interrompido pouco depois de ter sido iniciado– Umberto Pasti (italiano radicado no Marrocos), o brasileiro Bernardo Carvalho, Romesh Gunesekera (Sri Lanka), Fleur Jaeggy (Suíça), Adam Zagajewski (Polônia), Ida Vitale (Uruguai) e Anne Carson (EUA). Essa lista pode ser muito longa e não se limita a escritores, mas se abre a artistas visuais, músicos, estudiosos e assim por diante.

“Porque eu não sou um homem, nem um poeta, nem uma folha, mas um pulso ferido que sonda as coisas do outro lado”.

Morto

Por Ian Gibson (historiador) 

“Foi visto caminhando...”. Antonio Machado tinha acompanhado com espanto e regozijo a brilhante carreira de Federico García Lorca desde o primeiro encontro dos dois em Baeza, em 1916. Dezessete anos depois, saiu comovido de Bodas de Sangue e felicitou-o numa breve nota. Sabia –diz isso em sua famosa elegia– que a morte era o gelo à inspiração do granadino. Portanto, faz com que o acompanhe em sua caminhada final e que ouça, com atenção, seu elogio.

O túmulo a García Lorca na Alhambra que Machado pediu não foi feito. Tampouco existe abaixo, na cidade, rua principal ou praça com seu nome, o que é quase uma exceção nacional. A prefeitura, nas mãos do Partido Popular, só removeu o monumento a José Antonio Primo de Rivera no último momento, conforme exigido por lei. E, no entanto, 80 anos depois do crime, não sabemos onde estão os restos do desaparecido mais famoso e mais chorado do mundo, símbolo máximo do horror da repressão fascista e das mais de 100.000 vítimas que, para vergonha da Espanha, ainda jazem em valas e fossas comuns.

Foram transferidos poucos dias depois pelos rebeldes –conscientes do magno “erro” cometido– a um paradeiro secreto? Poderia ser verdade, conforme os rumores que correm frequentemente em Granada, que o regime de Franco os tivesse exumado numa data posterior? Será que apareceram em 1986, quando a Assembleia regional colocou barreiras em torno do parque de Alfacar que tem o nome do poeta, e os escondeu ilegalmente em outro lugar? Parece-me que não é bom para ninguém que persistam tantas perguntas, tanta incerteza. Muitas pessoas que, como eu, estão em dívida para com García Lorca, o homem e sua obra, querem saber de uma vez por todas onde, exatamente, descansam seus restos mortais. Tomara tenhamos novidades em breve.