Opinião
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Aldir Blanc e a representação do brasileirismo mais carioca do mundo

Em seus versos havia um maná espiritual declarado, uma cosmovisão sensível: um sentimento vitalista de malícia, ironia, crítica social e de imagens brilhantes

Aldir Blanc (à dir.) morreu por coronavírus, aos 73 anos.
Aldir Blanc (à dir.) morreu por coronavírus, aos 73 anos.Agência Estado
Adolfo Montejo Navas

Quando eu ainda não vivia no Brasil, o relâmpago sincopado e lírico que representou o conhecimento da dupla João Bosco & Aldir Blanc constituiu, por volta do início dos anos 80, uma verdadeira sacudida musical e um mergulho no que seria o brasileirismo mais carioca do mundo. Um pouco mais tarde, algo como três décadas, Dorival Caymmi seria bem enfático: “Todo mundo é carioca, mas Aldir Blanc é carioca mesmo”. Essa filiação sonora foi, no meu caso, iniciada com Bandalhismo, um LP com uma capa tridimensional de Elifas Andreato. Seus efeitos foram longe. De tal maneira que, até hoje, se um extraterrestre consultasse o que é a música popular brasileira, eu indicaria, sem dúvida alguma, qualquer obra desta parceria, já constituída em uma marca, um selo do tipo Lennon & McCartney.

Ali estaria então um maná espiritual declarado, certo húmus cultural que articula as raízes da memória com o horizonte do presente, como acontece com Hermeto Pascoal (a outra fonte sonora para ser levada a uma ilha de confinamento, por também ter tudo e algo mais, como dizem alguns anúncios de publicidade). Mas entranhado no maná musical sempre esteve o poético, porque nos versos de Aldir Blanc (nascido em 2 de setembro de 1946 no bairro central do Estácio, um berço do samba), havia uma poética sui generis, uma cosmovisão sensível: um sentimento vitalista de malícia, ironia, crítica social e de imagens brilhantes, uma leitura do real sem limites, um olhar libertário para a vida e seu cotidiano, chocando-se tantas vezes com a história. E onde cabia uma variedade de cultismos, estrangeirismo, neologismos, junto a palavrões, palavras do jeito que são pronunciadas, tudo em uma ars combinatória muitas vezes paradoxal, contraditória. E onde, como Sérgio Alcides já apontou, estava a ousadia da poesia moderna: Oswald, Drummond e Bandeira com Maiakovski, Erzra Pound e, por sua vez, o recado do samba: Donga, Noel Rosa, Geraldo Pereira, Wilson Batista…

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Já na minha condição de estrangeiro abrasileirado e, sobretudo, carioca adotivo, Aldir Blanc foi um divisor de águas porque, se existe um antes e um depois, um limite é aquele que se estabelece pelo entendimento completo de suas letras, cheias de vaivéns, gírias do Rio, culturalismos de Pindorama, referências implícitas e explícitas de todo o tipo. De fato, ao encantamento de esmero verbal, da maior altura lírica, capaz de casar coisas da cultura popular e um fluxo variado de informações, mitos ou lendas (como intertextualidade cruzada e à prova de qualquer reducionismo), se unia um lado cronista microdetalhista, quase sinestésico, no qual os diversos sentidos colaboravam no contar de cada canção como histórias e narrações sensoriais, com seus clímax correspondentes. (Também não se pode esquecer que existe uma obra de escritor cronista reconhecido, com onze livros publicados, desde Rua dos Artistas e Arredores, de 1978, até Cantigas do Vô Bidu, 2010).

Se “O Bêbado e a Equilibrista” é um exemplo paradigmático, é porque é uma música hino representativa do lugar que a música ocupa no imaginário nacional da época (como acontece com “Mestre-sala dos Mares” e outras), como quando era tocada nos alto-falantes do aeroporto do Galeão no retorno dos exilados, ou Elis Regina colocava em sua voz ímpar o pathos e a emoção de algo eterno, por ser tão exultante quanto dramático (outra simbiose marca da casa). No entanto, nada pode eclipsar o inventário de músicas feitas pelo duo para ela (mais de 20 clássicos). Um repertório excelso, cheio de sutilezas e intensidades sonoras, rítmicas (sejam sambas, boleros, tangos), como uma interpretação do Brasil psicografado em seu plano mais popular, e leia-se desmistificador, no nível do chão (“Tá lá o corpo estendido no chão / em vez de rosto uma foto de um gol / em vez de reza uma praga de alguém / e um silêncio servindo de amém”).

De fato, os poemas cantados de Aldir Blanc sempre tiveram arrebatamentos imagéticos, visuais delirantes em uma única linha e, ao mesmo tempo, uma narração marcada, costurada aos fatos, cujo realismo comum sublimava às alturas seu anseio de pureza, tão profana quanto sagrada. A lista com João Bosco implica recitar uma série de álbuns principais: Galos de Briga, Tiro de Misericórdia, Linha de Passe, Essa é a sua Vida, o citado Bandalhismo e Comissão de Frente.

Para além dos balanços de vida de 50 Anos e Vida Noturna, CDs emblemáticos, próprios para uma produção de quase 500 letras, e com outras parcerias musicais pontuais de Aldir (Maurício Tapajos, Cristovão Bastos ou Carlos Lyra), em seguida se sobressaem duas, especialmente: a de Moacyr Luz e a de Guinga, com mais de cem canções com cada um. Se a primeira se voltou mais para o território do samba e da cultura negra e urbana, a segunda ganhou importância capital pelo que significou de diferencial: uma estilização de versos ainda mais culturalista, um imaginário mais hermético e subjetivo, em sintonia com a inusitada alquimia erudito-popular do músico e violonista do bairro da Penha (subúrbio do Rio).

De novo, o ímã é o Rio de Janeiro, mas, mais do que pela beleza padronizada de sua Zona Sul (imortalizada pela bossa nova), pelo seu eclético centro histórico, assim como por sua Zona Norte e uma periferia que aparece com suas simbologias de vida, ambientes e protagonistas como um clima retratado. Com Guinga ele se acopla a uma musicalidade mais barroca e ensimesmada, cheia de insinuações melódicas e riquezas harmônicas, como parte de um padrão do subúrbio e ao mesmo tempo do Tin Pan Alley norte-americano.

Assim, enquanto discos como Simples e Absurdo, Delírio Carioca, Suíte Leopoldina e Cine Baronesa oferecem esse novo universo cruzado de nobre linhagem musical e estirpe popular (com direito a valsas, modinhas, choros, cocos, frevos), Catavento e Girassol se torna o primeiro álbum monográfico dedicado a essa dupla por Leila Pinheiro, e Maria João, mais recentemente, faz o mesmo com o letrista em A Poesia, de Aldir Blanc. “O olho claro no cabelo cor da noite /

Riso branco feito açoite no olhar de paranoia / Aqui é cúmplice o que é simples e absurdo: / esmeralda no veludo, onça negra com jiboia”.

Se a incorporação de notícias de rua, dos jornais, do mundo se completa com um monte de vozes e referências nominais de todo o tipo, convertendo Aldir em um “ourives do palavreado” (D. Caymmi), em parte isso se deve a esse ouvido proverbial para a oralidade sonora, os coloquialismos, no que se revela uma afinidade eletiva com João Guimarães Rosa: além da citada liga oral-erudita, há a plasticidade da língua, sua maleabilidade condimentada.

Nesse sentido, seu legado de letras como fábulas com rimas impossíveis –não só do ponto de vista sonoro como do conceitual, imaginário– é uma combinação de mundos em antítese, e parte de uma filosofia que desmente a facilidade e a transparência semânticas. A tal ponto que parte de sua contemporaneidade e sedução pode derivar dessa mistura heterodoxa, de uma poesia em estado de paradoxo, como a presença do próprio sem sentido, do absurdo que se avizinha com o pungente ou o impudico (algo da estirpe de Augusto dos Anjos), quando não o pornográfico. Ou o canto constante de eros (“pescando o sal da pele / com o anzol da língua”), das relações sentimentais homem-mulher, o milagre do futebol, a comida, tudo como se fossem especiarias incorporadas à canção.

Só vi Aldir Blanc uma vez –na casa do amigo artista Mello Menezes, em Santa Tereza, artista que ilustrou algumas capas– e na época me pediu que comprasse um romance de Luis Goytisolo, que nunca imaginei que conhecesse. A biblioteca e o interesse pelos mais variados assuntos, respiráveis ​​em suas letras, às vezes enciclopédicas e internacionalistas, sempre tiveram tanto peso como sua anterior vida boêmia, a rua, as rodas de samba de bar, tão da Zona Norte carioca, de Vila Isabel ou da Tijuca, habitats de sua biografia. De fato, pode-se fazer um guia turístico do Rio, sem restrições de classe, e incluindo a chamada Baixada Fluminense, com os numerosos sotaques geográficos de suas letras (“Saudades da Guanabara” um bom prólogo).

A verdade é que depois do acidente de carro sofrido em outubro de 1991, não só sua perna esquerda nunca mais foi a mesma, como também certa melancolia pessimista do mundo se apoderou do letrista. A subsequente diabetes aumentou ainda mais sua reclusão em casa, quase uma fobia ao lado de fora de sua biblioteca ou da vida familiar (pai e avô sempre orgulhoso), o que não o impediu de se comprometer com algumas causas (o caso do jornalista assassinado Vladimir Herzog, examinado pela Corte Interamericana de Direitos Humanos da OEA em 2017). Em um quase anacoreta como Aldir pertence às ironias do destino não só sair de casa para não voltar, como morrer no hospital universitário Pedro Ernesto, no mesmo bairro da infância, Vila Isabel. E deixar o Brasil em pleno caos brasil (a propósito, título de música de Guinga com letras dele e de Paulo Emilio).

Que Aldir Blanc tenha morrido aos 73 anos (na madrugada de segunda-feira, dia 4) por causa do coronavírus, complicando seu quadro de infecção urinária e pneumonia, depois de um périplo hospitalar para ter direito à UTI, obtido graças à crownfounding público, acrescenta mais um drama histórico. Acima de tudo por ter sido um defensor militante da classe artística, que desde a chegada da Internet viu diminuírem os dividendos dos direitos autorais. Mais uma simbologia das perversas circunstâncias. Ainda mais quando sua obra sempre foi significativa como uma trilha sonora de sua época, incluindo os piores anos da ditadura com a qual alguns desmiolados gostam de sonhar do pior modo, tanaticamente.

Talvez o revival político governamental à força deste período atual explique em parte que a Secretaria da Cultura, personificada por uma atriz histórica da TV Globo, não tenha noticiado nem citado oficialmente esta perda cultural irreparável do melhor Brasil. (Uma falta de honra que, certamente, vindo de onde vem, e entre parênteses, Aldir Blanc deve agradecer a este “o Brazil não merece o Brasil / o Brazil tá matando o Brasil”, segundo seus versos). Poucos letristas escanearam tão profundamente a alma de seu país e do Rio como um símbolo transversal no tempo. Seu legado monumental de 600 letras, tão sarcástico como sublime, sempre foi uma alegoria nacional, um emocionado manifesto lírico coletivo. A saudade pública que deixa é continental, não para de nascer.

Adolfo Montejo Navas é poeta e artista plástico espanhol.

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