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COLUNA

O país de Miró da Muribec

Voltar ao Recife em uma viagem poética, mas sem perder de vista a realidade do preço do botijão de gás

Vista do Recife.
Vista do Recife.

Voltar ao Recife é sempre um belo baque, uma febre do rato, uma comoção dos seiscentos diabos, a velha fita VHS rebobinando a ferrugem do tempo no juízo, milhares de polaroides por segundo. Voltar ao Recife com Irene, dez meses de vida, minha filha com Larissa, só multiplica essa doideira, como se eu tentasse narrar para a pequena o tempo que vivi na cidade, a cidade hoje, o Recife e os Hellcifes possíveis, tudo isso ajudado pelo proustianíssimo cheiro de jaca e marés.

O Recife sem arroz e com saudade de Arraes, subverto o poema de Manuel Bandeira. O Hellcife de Miró da Muribeca, o poeta que está na boca de ouro e na boca banguela da capital pernambucana. Miró é aquele poeta recitado de cor pelas ruas, bares, mercados e repartições. Um fenômeno que só testemunhei no Brasil com Augusto dos Anjos, dito em voz alta por todos os escalões sociais.

A dupla, aliás, o dos Anjos e o da Muribeca, foram declamados pelos jovens da plateia do Você é o que Lê, na noite de quinta-feira, no Marco Zero, ali diante da rosa-dos-ventos do pintor Cícero Dias e as esculturas mais tesudas e excitadas do universo -de Francisco Brennand, óbvio. Maria Ribeiro e Gregorio Duvivier, chapas neste projeto lítero-delirante, sentiram a potência nuclear da poesia. A lua crescente engravidou de um marinheiro grego no eterno portal do Recife para o mundo, justamente na véspera do dia de Nossa Senhora da Conceição, salve Oxum no mesmo altar, e vamos simbora.

O país de Miró, a nação da Muribeca, no Grande Recife, é o da gente humilde agoniada com o preço do botijão de gás, da massa que conhece o mapa da fome como GPS de uma vida. Muribeca virou sinônimo, nos beiços de Jaboatão dos Guararapes, de lixão, arrabaldes sem anjos. De lá vem o poeta que diz assim, repare:

“Deus largado pelas ruas de Recife
não sabe se dança frevo
ou vai atrás do maracatu

será que Deus também tem dúvidas?

nas ruas
igrejas e povo
Deus deixa beijar
usar a roupa que quiser

são quatro dias
que Deus não tá nem aí

aí, na quarta-feira de cinza
Deus de ressaca
perdoa quase todo mundo”.

Ao ouvir a gente das ruas recitar Miró, na minha volta ao Recife com Irene, eu me vi nessa crônica das antigas: no Beco da Fome, na Sete de Setembro, anos 80, quatro poetas por cada metro quadrado, almas penadas, leilão de Faustos: o cheiro de queijo de coalho assado, cerveja com amendoim, a macaxeira com charque para abrir as ventas dos maconheiros.

Fome de viver maior que a larica e o desprezo do tal cão sem plumas, que passa, independentemente do verso enxuto, genial e preciso de seu João Cabral de Melo Neto, amigo de outro Miró, o da Catalunha. A vida é adjetivosa, meu filho!, molhada, sebenta, suada, correia do chinelo entre os dedos lamacentos, a vida brega, cheira a bueiro do Recife, é suja e pegajosa como lamaçais alhures.

Recife, Ponte Buarque de Macedo, minha sombra, agora barriguda de utopia e cerveja, e todos os meus medos n’água barrenta, velho Augusto. Foi bonita a festa, amigo Sidney Rocha, obrigado pelo apoio mental caririense, viva Platão e Deus lhe pague pelo destino das metáforas. Beijo e até a próxima sexta, o dia em que até as virtudes prevaricam.

Xico Sá, escritor e jornalista, é autor de “Big Jato” (Companhia das Letras), entre outros livros. Comentarista dos programas “Papo de Segunda” (GNT) e “Redação Sportv”.

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