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Miró na terra, no céu e em São Paulo

Exposição do artista do surrealismo espanhol abre as portas neste domingo

Vista de algumas obras de Miró expostas em São Paulo.
Vista de algumas obras de Miró expostas em São Paulo. EFE

“A diferença entre Pablo Picasso e eu é que tudo o que ele faz fica perfeito”, declarou certa vez o pintor surrealista catalão Joan Miró sobre o colega cubista. Muitos podem pensar que a comparação era fruto de uma rivalidade ou então de um desejo de Miró de que suas obras dessem tão certo quanto as de Picasso. Duplo engano: os dois eram grandes amigos e Miró apenas lançou uma provocação – sua ambição com a arte era muito menos acadêmica e próxima tanto da terra (dos homens) quanto do céu (da espiritualidade).

Successión Miró, Miró, Joan AUTVIS, Brasil, 2015
Successión Miró, Miró, Joan AUTVIS, Brasil, 2015

Sob essa evocação – a de uma marca artística humana, universal e atemporal – estreia em São Paulo a exposição Joan Miró – A Força da Matéria, cujas portas se abrem para o público neste domingo (24 de maio) no Instituto Tomie Ohtake. O evento, que em setembro chegará a Florianópolis, é mais uma grande mostra dedicada ao modernismo espanhol no Brasil: no ano passado, o próprio Tomie Ohtake abrigou Salvador Dalí, e no CCBB-SP ainda está em cartaz Picasso e a Modernidade Espanhola.

São 114 obras, entre pinturas, esculturas, fotografias, vídeos e objetos que em parte já circularam pelo mundo, mas, segundo o neto do pintor, há uma dose importante de exclusividade na exposição paulistana. “Há 48 obras da família que nunca tinham saído de casa”, disse Joan Punyet Miró, durante uma visita guiada para convidados. “Queríamos que fosse uma experiência mais pessoal”.

Vale a pena ressaltar que o texto da exposição brasileira, encomendado a Valter Hugo Mãe, escritor angolano radicado em Portugal, destaca a relação íntima entre Miró e João Cabral de Melo Neto, que se conheceram quando o poeta brasileiro foi vice-cônsul e depois cônsul em Barcelona. João Cabral inclusive escreveu um livro sobre o artista, titulado Joan Miró e editado em português, catalão e espanhol, pela Casa Amèrica Catalunya em 2008.

Esse lado pessoal das coisas de fato significou muito para Miró, que deixa transparecer em seu trabalho aspectos da sua vida e, além disso, acreditava que as artes ocidentais deveriam recuperar qualidades espirituais e mágicas que a pintura e a escultura, entre outras expressões, tinham na Antiguidade.

Rosa María Malet, diretora da Fundação Miró desde 1980, e Joan Punyet Miró, neto do artista.
Rosa María Malet, diretora da Fundação Miró desde 1980, e Joan Punyet Miró, neto do artista. EFE

Três momentos de sua trajetória estão representados na exposição. No primeiro, durante as décadas de 20 e 30, ele retrata uma época difícil na Espanha, pós-guerra mundial e de guerra civil, com quadros feitos durante o exílio em Paris. Também aparece a fase em que ele se esforça em “desmistificar a tela, sair do acadêmico, abandonar os volumes e caminhar rumo a uma abstração poética”, segundo destacou Joan. Aparecem então o lado do “poeta pré-histórico”, com desenhos que lembram hieróglifos e resgatam símbolos caros ao catalão, como a estrela, a mulher, a lua e outros.

Um segundo momento leva o visitante de volta à década de 50, quando Miró finalmente conseguiu a oficina que tanto desejava para praticar suas artes, construída pelo mesmo arquiteto que desenhou a Fundação Miró, em Barcelona. É quando ele estabelece seu vocabulário – tão reverente à cultura mediterrânea, à fertilidade e à passagem do tempo – e investe inclusive nas esculturas de bronze, que para ele evocavam a eternidade.

Personaje, Estrella – Fundació Joan Miró – © Successión Miró, Miró, Joan AUTVIS, Brasil, 2015
Personaje, Estrella – Fundació Joan Miró – © Successión Miró, Miró, Joan AUTVIS, Brasil, 2015

Na última sala, com a chegada da maturidade tanto na vida como na arte, os suportes e formatos são os mais variados. Com uma foto em que Miró está agachado na areia, presente na exposição, a diretora da Fundação Miró Rosa María Malet resume a visão simples e revolucionária do pintor, evidente em um pensamento que um dia ele fez em voz alta: “Se algum dia me faltarem os materiais, irei à praia para fazer xixi na areia e com um pau desenharei um grafismo”. Surrealista, porém livre, enfim.

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