Oscar 2020

‘Coringa’, ‘O Irlandês’, ‘1917’... por que os favoritos ao Oscar retratam ‘homens brancos enfurecidos’?

O mítico programa humorístico ‘Saturday Night Live’ tornou viral uma canção com a qual parodia o padrão narrativo recorrente entre os longas mais elogiados pelos membros da Academia nesta edição.

Joaquin Phoenix em uma cena de 'Coringa' (Niko Tavernise/Warner Bros. Pictures via AP).
Joaquin Phoenix em uma cena de 'Coringa' (Niko Tavernise/Warner Bros. Pictures via AP).Niko Tavernise / AP

Coringa, O Irlandês, Era Uma Vez em... Hollywood, 1917... A poucos dias de uma nova edição do Oscar, a lista de filmes favoritos para saírem repletos de estatuetas na cerimônia de 9 de fevereiro ficou reduzida a apenas um punhado de opções. Durante a longa e extenuante temporada de prêmios, foram muitas as vozes que censuraram a pouca diversidade dos filmes mais elogiados pelos acadêmicos, assim como a sub-representação das mulheres em categorias como melhor direção e dos atores não brancos nas de interpretação. interpretativas. No sábado passado, o mítico programa humorístico de TV Saturday Night Live levou as críticas a um novo nível, sintetizando em pequenas canções o padrão narrativo que parece definir os filmes que deslumbram a Academia: “A fúria do homem branco”.

Joaquin Phoenix, magro, magro; ri muito, mas mesmo assim dá medo; dança nos degraus, esperneia, esperneia; cobre sua mãe louca com um travesseiro; mas aquilo de que este filme realmente fala é: a fúria do homem branco, a fúria do homem branco”.

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Com essa estrofe, em ritmo de bossa nova, a comediante Melissa Villaseñor começou a parodiar como Hollywood decidiu celebrar este ano o mesmo padrão temático entre os filmes candidatos ao Oscar. “A vida do gângster é difícil, com De Niro e o pequeno Joe Pesci; dura três horas, são jovens e velhos; e fala sobre: a fúria do homem branco, a fúria do homem branco”, cantou sobre O Irlandês, citando em seguida outros filmes, como Era Uma Vez em… Hollywood, 1917, Jojo Rabbit e até Toy Story 4. Villaseñor terminou seu número —que só no Twitter já tem mais de 50 mil curtidas— acrescentando que o motivo pelo qual Greta Gerwig não foi indicada a melhor diretora por Adoráveis Mulheres não foi outro senão a “fúria do homem branco”. O apresentador do noticiário satírico no qual entrou a canção, Colin Jost, um homem branco heterossexual (noivo de Scarlett Johansson), colocou-se na pele dos potenciais ofendidos afirmando que via Coringa para “fazer exercício” e que assistiu a O Irlandês “no dia de Natal, sozinho”. E o convidado do episódio era ninguém menos que Adam Driver, cujo personagem em História de um Casamento poderia muito bem ter engrossado a lista —e provocou uma série de memes.

O conceito de “fúria do homem branco” é uma derivação da expressão “homem branco irritado”, usada para condenar a masculinidade tóxica daqueles machos caucasianos com opiniões políticas conservadoras ou reacionárias. Popularizada na última década, personagens como Walter White em Breaking Bad e Walt Kowalski em Gran Torino foram considerados exemplos desse arquétipo na telinha e na telona, respectivamente. Desde que Donald Trump chegou à presidência dos Estados Unidos, essa expressão tem sido utilizada para reprovar algumas das opiniões e ações sexistas, homofóbicas e xenófobas do magnata. “Há uma epidemia de fúria do homem branco neste país, que nosso odioso presidente encoraja. Está crescendo. Está em todos os lugares. As comunidades de cor estão sendo atacadas e isso vem de cima”, disse Jona Perrillo, uma professora da Universidade do Texas, à The New Yorker em agosto.

Enquanto a maioria dos veículos de comunicação e usuários do Twitter celebraram a gag, o vídeo logo provocou a ira de um grande número de aludidos —determinados, aparentemente, a demonstrar o mais rápido possível a veracidade do argumento do quadro humorístico. Além de atacar o que chamaram de falta de graça do programa e seu elenco feminino, de denunciar a não inclusão de homens negros em sua canção e de acusar o humorístico de banalizar a história de um doente mental que é Arthur Fleck em Coringa, os críticos do quadro se concentraram em Villaseñor, que foi alvo de uma série de insultos e até de montagens insinuando seu assassinato pelo palhaço interpretado por Joaquin Phoenix.

Precisamente no mesmo dia em que foi transmitido o controvertido quadro, a atriz Carey Mulligan monopolizou as manchetes da imprensa cinematográfica ao insinuar que a maioria de membros da Academia de Hollywood com direito a voto no Oscar não vê todos os filmes candidatos. “Não posso acreditar que tenham visto filmes como Adoráveis Mulheres, As Golpistas e A Despedida e achem que não merecem um reconhecimento”, afirmou em entrevista à Variety, perguntando se o sistema atual de votação funciona. “Talvez [os membros da Academia] não devessem ter permissão para votar, a menos que pudessem provar que viram todos os filmes candidatos. Deveria haver um exame. Os filmes que eles deixaram fora são indiscutivelmente brilhantes”, assinalou. Desde 2016, como resultado da controvérsia #Oscarsowhite, que surgiu devido à esmagadora maioria de indicados brancos, a Academia adotou uma estratégia agressiva para incorporar mulheres e pessoas de diferentes etnias, a fim de conseguir uma diversidade efetiva na premiação por excelência da sétima arte. Por enquanto, essa iniciativa não deu muito resultado: dos vinte atores e atrizes indicados este ano, apenas uma, Cynthia Erivo (Harriet), não é caucasiana.

Nos últimos meses, veículos como The New York Times, Vulture e Vanity Fair USA publicaram artigos descrevendo como vários dos filmes mais aclamados desta temporada de prêmios são sobre homens que se veem ameaçados pela sociedade de suas respectivas épocas e respondem com violência. Em 9 de fevereiro, veremos se algum desses filmes será contemplado com a desejada estatueta em uma cerimônia do Oscar que não terá apresentador pelo segundo ano seguido. Se, devido a essa circunstância, os organizadores estavam procurando uma canção para abrir a cerimônia, parece que Melissa Villaseñor já fez o trabalho por eles.

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