Cinema

Greta Gerwig: “O feminismo de ‘Mulherzinhas’ não é excludente; todos os homens e mulheres ganham”

Diretora estreia nova adaptação do clássico ‘Mulherzinhas – Adoráveis Mulheres’ ao cinema que enfatiza o subtexto feminista do livro que Louisa May Alcott assinou em 1868

A diretora Greta Gerwig.
A diretora Greta Gerwig.Carlo Allegri / Reuters

Convidada a definir sua esperada adaptação de ‘Mulherzinhas – Adoráveis Mulheres’, que estreia no Brasil em 9 de janeiro–, Greta Gerwig (Sacramento, 36 anos) escolhe um adjetivo pouco habitual neste século. “Gosto de dizer que é cubista”, responde a atriz e diretora. “O cubismo, como me ensinaram, consiste em observar algo de diferentes ângulos ao mesmo tempo. Foi o que senti que estava fazendo com este filme.” Durante um século e meio, o romance que Louisa May Alcott publicou em 1868 foi venerado por uma legião de fãs, mas também tratado como uma forma menor de arte, sujeita às rígidas leis da chamada prosa doméstica, que surgiu nos Estados Unidos no século XIX. Sua missão era fortalecer um ideal de feminilidade sustentado em pilares como a piedade, a pureza e a reclusão na vida doméstica.

Nessas margens estreitas, Alcott conseguiu plantar uma semente de subversão, apesar de respeitar estritamente as convenções literárias da época. É a ideia que guia a releitura feita por Gerwig da história das irmãs March, que parece pensada para contentar vários tipos de espectadores ao mesmo tempo, do mais acrítico ao mais político. “O livro ficou envolvido numa moralidade de cartão postal de Natal, mas sob a superfície existem outras coisas. Quando voltei a lê-lo já adulta, percebi como era espinhoso, estranho e revolucionário”, diz Gerwig. Seus protagonistas são feministas porque “são mulheres completas, e não clichês ou objetos”, segundo precisou a diretora em meados de dezembro, durante uma entrevista em Paris.

O livro de Alcott funciona como um catálogo de quatro diferentes modelos de feminilidade com os quais suas leitoras podem se identificar. Como a maioria das mulheres fãs de leitura, Gerwig sempre se reconheceu em Jo March, modelo pré-feminista que já inspirou personalidades tão díspares como Simone de Beauvoir, Hillary Clinton e Patti Smith. “Jo queria ser escritora, como eu. E ela tinha gênio ruim, como eu. Não sei se já me parecia com ela e por isso gostei tanto dela, ou se me esforcei para me parecer com ela até que consegui”, sorri Gerwig. Em segredo, a diretora sempre temeu ser mais como Amy, a irmã mais nova e a de pior reputação, por ter queimado o manuscrito de Jo e por ficar com seu pretendente. Essa nova adaptação retira todos os restos misóginos do personagem. “É significativo que durante 150 anos não tenhamos gostado dessa garota, que é a que diz mais claramente o que quer e a que mais se esforça para consegui-lo. Talvez seja um símbolo do progresso que tenhamos mudado de ideia”, diz a diretora.

Trazer o romance de volta à tela grande depois de inúmeras adaptações –como as estreladas por Katharine Hepburn, em 1933, e Winona Ryder, em 1994– era um projeto há muito acalentado por Gerwig. “No começo me contrataram apenas para escrever o roteiro. Pedi que também me deixassem dirigir, mas não tinha rolado nada. E os estúdios não têm o hábito de dar grandes filmes para iniciantes…”, diz Gerwig. Tudo mudou depois sua bem-sucedida estreia como diretora, com ‘Lady Bird – A Hora de Voar’, crônica de sua adolescência na cidade californiana de Sacramento, que a faria entrar no reduzido clube de mulheres indicadas ao Oscar de melhor direção. De repente, ela tinha um orçamento de 40 milhões de dólares e um elenco composto por estrelas como Saoirse Ronan, Emma Watson, Timothée Chalamet, Laura Dern e Meryl Streep, que interpreta a azeda tia March.

“Existe um impulso de contratar mais mulheres e colocar seus filmes no centro da conversa. Mas eu também diria que, para os estudos, é como comer verdura...”, ironiza Gerwig. Ou seja, algo que se faz mais por obrigação do que por convicção ou prazer. “Hollywood não se importa de onde vem o dinheiro, desde que venha. Eles perceberam que os filmes dirigidos por mulheres funcionam financeiramente, como ‘Mulher Maravilha’ ou ''As Golpistas. E têm o prazer de descontar o cheque...”, diz a diretora. Gerwig não queria rodar um filme destinado somente às mulheres. “Uma das coisas de que gosto no livro de Alcott e do seu feminismo é que não são excludentes. Vê o feminismo como uma mudança com a qual homens e mulheres saem ganhando.”

Depois de quatro anos sem representar, Gerwig voltará a fazê-lo em 2020, em uma montagem de ‘As Três Irmãs’, de Tchekhov, no circuito off-Broadway, enquanto escreve um filme sobre a boneca Barbie com seu companheiro, Noah Baumbach. Um retrato do diretor nova-iorquino ao lado do bebê que acabam de ter, Harold, se ilumina como fundo de tela do seu celular. Gerwig anuncia que a maternidade será um de seus próximos temas como diretora. “Considerando tudo, me parece uma tarefa heroica”, brinca. Semanas atrás, pesquisando para um futuro projeto sobre o qual não quer dar detalhes, leu em uma revista universitária uma lenda que a marcou. “Contava que na Grécia clássica nenhuma sepultura tinha o nome do falecido, exceto a dos homens que caíram na guerra e a das mulheres que morreram ao dar à luz”, relata Gerwig. “Não sei o que vou fazer com essa história, mas fiquem atentos.

A obrigação moral de ser feliz

Apesar dos tiques de modernidade, o filme é mais fiel ao original do que parece. Gerwig calcula que mais de 80% dos diálogos são idênticos aos do livro, o que não exclui que sejam as mudanças o que salta à vista. A diretora desorganizou voluntariamente a estrutura cronológica do livro através de vários flashbacks que permitem comparar passado e presente. Gerwig também incluiu uma reflexão sobre a obrigação moral do final feliz, que continua em vigor quase dois séculos depois. Sem entrar em detalhes, a diretora conclui sua história com uma argúcia que se adapta melhor ao fim que Alcott desejava em sua época, antes de se submeter às leis do mercado: sem fazer essas mudanças, Mulherzinhas nunca teria sido publicado. “Eu quis dar um final que Louisa teria gostado”, diz Gerwig. “No fundo, contei uma história de amor entre uma garota e seu livro.”

Por outro lado, preferiu não refletir a ambiguidade de gênero que Alcott parece esboçar ao descrever seus personagens. “Jo diz que quer ser um rapaz e tem nome de rapaz, enquanto Laurie, seu pretendente, tem nome de mulher. Senti que Alcott perseguia certa androginia, porque os dois personagens intercambiam a roupa e agem como duplos, como se fossem gêmeos”, admite Gerwig. No entanto, acabou descartando essa pista: “Não queria impor uma lente do nosso século à realidade do século XIX a ponto de distorcer o original, nem colar etiquetas que esses personagens não escolheram”.