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Greta Gerwig, única mulher na disputa pelo Oscar 2018 de direção (e a quinta na história)

Nomeação tem peso simbólico forte: ocorreu após protesto de Natalie Portman no Globo de Ouro pela ausência de mulheres na categoria e no ano do escândalo de Weinstein

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A diretora Greta Gerwig, em um evento em Londres. Dave Benett/Getty Images

“Aqui estão todos os homens indicados”, disse uma combativa Natalie Portman no palco do Globo de Ouro 2018 quando se dispunha a anunciar o vencedor na categoria de melhor direção. Nem rastro de Kathryn Bigelow ou de Dee Rees, autoras de dois esplêndidos filmes, Detroit em Rebelião e Mudbone – Lágrimas sobre o Mississippi, que ficaram fora da corrida de premiações, mas o mais inexplicável e suspeito: tampouco de Greta Gerwig, cujo filme Lady Bird – A Hora de Voar, que estreará no Brasil no começo de abril, partia como favorito no quesito de melhor comédia do ano, prêmio que acabaria conquistando naquela mesma noite.

O certo é que, apesar desta incompreensível ausência, estava claro que Hollywood precisava de sua particular heroína nesta temporada de premiações manchada pelo escândalo de Harvey Weinstein e marcada pelas reivindicações das mulheres. Não podia ser Kathryn Bigelow (incômoda demais), tampouco Patty Jenkins (por que o cinema popular e de super-heróis não pode ser premiado?) nem Dee Rees (penalizada certamente porque seu filme é distribuído pela Netflix). E ali estava Greta Gerwig, tão normal ela, e ao mesmo tempo tão fascinante, no lugar exato e no momento indicado para se transformar no novo ícone geracional feminino dentro de uma indústria disposta a buscar sangue fresco com o qual lavar sua má consciência. Greta Gerwig se tornou a quinta mulher (e única mulher entre quatro homens que concorrem nesta edição) a concorrer a um Oscar de melhor direção por Lady Bird, cujos premiados serão revelados no domingo, 4 de março.

O melhor é que tudo isto, o de passar de musa indie a alcançar o reconhecimento de crítica e público, foi feito a golpe de autenticidade e frescor, sem renunciar em um só momento a seu estilo particular e demonstrando quão importante é lutar para impor uma voz própria em qualquer processo criativo. Primeiro conseguiu impregnar com sua personalidade cada um dos filmes dos quais participou (que deliciosamente irresistível estava em Descobrindo o Amor). E agora demonstrou que possui uma sensibilidade única e intransferível na hora de construir personagens com um encanto tão especial como o que ela mesma possui.

Trailer do filme 'Lady Bird', dirigido por Greta Gerwig, quinta mulher a disputar um Oscar de melhor diretora

Greta Gerwig é dessas atrizes que sempre parecem estar interpretando a si mesmas. Há uma identificação quase inevitável entre ela e seus personagens, uma fusão que ganha todo o sentido na obra autobiográfica com a qual estreou atrás da câmara em que se encarrega de verter suas experiências adolescentes com a naturalidade e a transparência que sempre a caracterizaram.

Nós a conhecemos como uma das figuras fundamentais do movimento mumblecore, do qual surgiu Lena Dunham e também outros autênticos off road, como os irmãos Duplass, Andrew Bujalski e Joe Swanberg. O mumblecore serviu para reunir ao seu redor um grupo de jovens inquietos que tentavam buscar por meio do cinema uma nova forma de expressão em que pudessem falar de suas inquietações quase em primeira pessoa. Estavam fartos das estruturas pré-fabricadas e do artifício e queriam romper com eles na base do naturalismo e improvisação.

Lady Bird
Saoirse Ronan e Beanie Feldstein em uma cena de 'Lady Bird', escrito e dirigido por Greta Gerwig.

Nossa protagonista sempre foi fiel a esses postulados. Também fiel a si mesma, apesar de estar ciente de que seu personagem poderia chegar a criar atrações e fobias. Embora para muitos Greta Gerwig pareça maçante, outros a consideram adorável. Quase não há meio termo.

Sua primeira experiência como roteirista chegou com Hannah Sobe as Escadas (2007) e um ano depois com Swanberg codirigiria Nights and Weekends. Mas seu reconhecimento definitivo viria graças à associação com Noah Baumbach em Frances Ha (2012). É curioso redescobrir este filme depois de ter visto Lady Bird porque adquire um sentido completamente diferente: transforma-se ao mesmo tempo em seu preâmbulo e em sua continuação. Assim, se em um momento Frances Ha funcionou para Greta como um modo de aproximação do personagem, agora se apresenta como uma prolongação das mais reveladoras.

Greta Gerwig é dessas atrizes que sempre parecem estar interpretando a si mesmas. Há uma identificação quase inevitável entre ela e seus personagens

Nela nos encontrávamos com uma mulher a ponto de entrar nos trinta anos que se convertia a contragosto em um símbolo de toda uma geração: sem trabalho e sem dinheiro, à beira do fracasso vital, perdida em um emaranhado de sonhos e com uma porção de inseguranças nas costas. Sonhadora e ingênua, vivaz e despreocupada, ou seja, a versão adulta dessa Christine que Saoirse Ronan interpreta em Lady Bird mergulhada em outra crise de identidade, neste caso a que tem implícita a adolescência com todas as mudanças hormonais e emocionais inerentes a ela.

Nós nos deparamos com um relato que funciona de um ponto de vista tão testemunhal quanto nostálgico. Estamos em 2002. A sociedade norte-americana ainda não se recuperou dos atentados das Torres Gêmeas e uma certa sensação de incerteza e tristeza flutua no ar.

Christine pertence a uma família da classe trabalhadora que começa a sofrer os efeitos da crise. Mas ela se encontra mais preocupada em se denominar como “Lady Bird” e em odiar, como boa adolescente, tudo o que a rodeia: a mãe, o colégio de freiras ao qual é obrigada a ir, o status social ao qual pertence e, sobretudo, Sacramento, a pequena cidade provinciana em que não quer passar nem mais um minuto.

Momentos únicos da vida cotidiana

Gerwig conta sua história, ou seja, um momento de sua vida muito íntimo e específico, mas todas essas experiências terminam adquirindo um caráter universal. Não há nada de especial na vida de Christine, como tampouco havia na de Frances. E aí está precisamente o maravilhoso: a capacidade que Gerwig tem como diretora e roteirista de tornar especiais e únicos momentos da vida cotidiana que poderiam perfeitamente passar despercebidos e que em suas mãos adquirem uma dimensão muito emocionante.

Greta Gerwig como Frances Ha, em uma cena do filme homônimo que a alçou a 'musa indie', de 2012.
Greta Gerwig como Frances Ha, em uma cena do filme homônimo que a alçou a 'musa indie', de 2012.

E não me refiro à perda da virgindade ou ao primeiro desencanto amoroso, mas a coisas muito mais minúsculas que logo se tornam grandes, como essa maravilhosa descrição que Christine faz no final do filme, quando relata para sua mãe a profunda emoção que sentiu na primeira vez em que assumiu o volante de um carro e dirigiu pelas ruas de sua cidade, redescobrindo-a de uma ótica diferente, mais adulta. Ou o momento em que usa uma canção de Alanis Morrissette para falar dos sonhos e das aspirações, mas sobretudo para estabelecer um vínculo com seu pai.

Lady Bird é um coming-of-age orgulhoso de assim ser e por isso conta com todos seus tópicos: aventuras estudantis, rebeldia juvenil, incursões amorosas, o baile de graduação. Mas há uma energia interna que percorre o filme e o singulariza do princípio ao fim. E a partir desses pequenos capítulos que a integram descobrimos de que maneira a diretora nos fala do vazio e da desorientação que se sente quando se está a um passo de mudar de etapa na vida, do que significa o sucesso na hora de alcançar ou não a felicidade, da necessidade de se manter fiel a si mesmo, da amizade e da complicada relação que tendemos a manter com nossos pais.

Que difícil contar coisas tão complexas de uma maneira tão delicada e próxima. E como Greta Gerwig faz isso bem. Ela, que sempre apostou na beleza contida na imperfeição, aqui consegue uma obra madura e serena, distanciada de qualquer tipo de embuste ou de tentativa de modernidade ridícula. Uma obra perfeita em sua maravilhosa imperfeição.

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