‘Os miseráveis’: Ódio e fogo na ‘banlieue’

Recordo ‘The Wire’ em determinados momentos desta crônica dura e verossímil. O diretor Ladj Ly sabe do que fala. É o seu bairro, ali ele passou a vida

Na prodigiosa série The Wire, esse retrato desolador da inevitável corrupção da política, do feroz tráfico de drogas nas ruas, das maracutaias de um sindicalismo portuário que tenta sobreviver ao seu ocaso, da educação de crianças negras e problemáticas, fadadas a um futuro sombrio, da mistura de profissionais e de pobres diabos nessa polícia tantas vezes manipulada ou amordaçada pelo poder, do acesso dos grandes traficantes ao turvo mundo da construção para lavar seu botim, das grandezas e misérias do jornalismo, repleta toda ela de personagens memoráveis, existe um, aparentemente cinzento, que merece todo o meu carinho e minha admiração. Chama-se Roland Pryzbylewski. Entrou na polícia por recomendação do seu sogro, um delegado polonês que utiliza seu cargo para todo tipo de falcatruas. Ronald, que só está lá por suas conexões, é inicialmente arrogante e bobo. Numa noite de bebedeira, fazem uma inútil operação no bairro onde rola o tráfico de heroína. A tensão explode. O apavorado Roland arranca o olho de um garoto. E o idiota evolui. Faz bem seu trabalho de grampear as conversas dos traficantes. Depois mandará o sogro dominante para o inferno e buscará a vida dando aulas em um colégio muito complicado. Tentará ensinar, ajudar e proteger os garotos mais necessitados. E este homem honesto e solidário se chocará contra a realidade.

Recordo The Wire em determinados momentos de Os Miseráveis (que foi indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro estreia nesta quinta-feira no Brasil), crônica dura e muito verossímil da vulcânica relação na banlieue parisiense entre garotos desocupados e de futuro incerto, com a violência pulsando em seu entorno e dentro deles, e a odiada brigada de polícia que tenta manter uma fictícia paz no bairro, às vezes pactuando, às vezes ameaçando ou dando porrada, sabendo que seu trabalho é inútil, que tudo vai continuar igual, porque os de cima não estão nem aí para o problema ou oferecem medidas fictícias.

Este filme desprende conhecimento, eletricidade e autenticidade. O diretor Ladj Ly sabe do que fala. É o bairro dele, ali ele passou a vida. Sabe que a fogueira pode explodir a qualquer momento. Também que há ímãs barbudos dispostos a canalizar a ira dos jovens, atraí-los para as mesquitas, lhes oferecer refúgio, conselhos e os ensinamentos fundamentalistas, conscientes de que podem ser carne de jihad.

E dentro da polícia há de tudo. De um sujeito que só acredita no uso indiscriminado da força e da intimidação para obter o amedrontamento ao recém-chegado que acredita na lei e no diálogo, passando pelo tíbio que, num momento de pânico, provocará o inferno atirando num menino. O espectador vive essa tensão do começo ao fim, e o ameaçador desenlace, com uma imagem em que pode detonar o horror, com as forças da ordem encurraladas pelo ódio e pelo fogo, cria uma sensação muito incômoda. É a isso que se propôs esse diretor tão expressivo. Não é um trabalho sob encomenda. Sua visão do conflito nasce de seu compromisso, e é complexa. Missão cumprida.

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