Paulo Freire, o patrono da educação duas vezes perseguido pelo autoritarismo

Presidente Bolsonaro já defendeu expurgar das escolas brasileiras o método criado pelo pedagogo. Centenário do educador é lembrado por um doodle, do Google.

O educador Paulo Freire (1921-1997), em imagem publicada pelo Centro Cultural São Paulo.
O educador Paulo Freire (1921-1997), em imagem publicada pelo Centro Cultural São Paulo.CCSP
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Na década de 1960, o educador Paulo Freire aplicou um revolucionário método de alfabetização de adultos que levava em conta a realidade de cada um e, acima de tudo, o tornava um cidadão crítico. Em 40 horas de ensino, conseguiu alfabetizar 300 pessoas. Quando a ditadura militar se instalou no Brasil, um dos primeiros atos do regime militar foi perseguir este pedagogo pernambucano, que completaria neste domingo 100 anos. Naquela época, ele dirigia uma equipe que tinha como responsabilidade levar seu método de ensino para todo o país. Plano este que foi sepultado com a assunção do autoritarismo.

Freire viveu intensamente uma militância educacional que transformou a realidade de milhares de estudantes do mundo inteiro. Por conta do regime militar, ficou preso por 70 dias e teve de se exilar por 16 anos. Passou pela Bolívia, pelo Chile, onde trabalhou por cinco anos no Instituto de Desenvolvimento Agropecuário e do Ministério da Educação, e pela Suíça. Nos anos de vida no Chile, ele publicou seu mais famoso livro “Pedagogia do Oprimido”. É autor ou coautor de ao menos outros 23 livros. Quando retornou ao Brasil, lecionou na Unicamp e na PUC, foi secretário de Educação de São Paulo e criou um instituto que leva seu nome.

Após 24 anos de sua morte, ainda é uma referência internacional. É o terceiro pensador mais citado do mundo em universidades da área de humanas, conforme um levantamento da London School of Economics. Ainda recebeu o prêmio Unesco da Educação pela Paz e possui 29 títulos de doutor honoris causa entregues por universidades da Europa e da América. Em 2012, três anos após sua viúva – Ana Maria Araújo Freire – receber sua anistia política, Freire foi considerado o Patrono da Educação Brasileira.

Por conta de sua influência e por ensinar tanta gente a ter autonomia intelectual, nos últimos três anos voltou a ser perseguido pelo Governo do capitão reformado do Exército Jair Bolsonaro. É a sua segunda perseguição por governantes autoritários. Desde a campanha eleitoral de 2018, Bolsonaro defende “expurgar a ideologia de Paulo Freire” das escolas. O discurso do presidente reflete em sua militância, que divulga incontáveis fake news contra o educador, morto em São Paulo em 1997, aos 75 anos.

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Algo que certamente a filosofia de Freire combate, afinal, é a disseminação de desinformação. “Um aluno com consciência freireana lê um texto e reage, não aceita fake news, porque tem senso crítico. Vai captar o que é dito [em uma mensagem falsa] e ver o que está por trás disso, com que interesse foi produzido, em qual contexto”, disse ao portal G1 um dos estudiosos da obra do educador, o pesquisador Kleber Silva, da Universidade de Brasília (UnB).

Em maio de 1978, o próprio Freire resumiu o seu pensamento, em entrevista a este periódico. “Eu nunca poderia admitir a mistificação de que a educação é um negócio neutro. Acho o contrário, que a educação é sempre uma tarefa política. Não há, portanto, dimensão política para a educação, mas é um ato político em si. O educador é um político e um artista; o que não pode ser é um técnico frio”.

E por que o atual Governo e seus apoiadores têm tanto medo de Paulo Freire? “Um educador, que ajude o aluno a compreender-se como protagonista de sua própria história, da história de sua comunidade e de seu país, será sempre considerado um perigo por quem pretende calar a voz daqueles que nunca tiveram vez nas dinâmicas de poder do Estado e da sociedade”, opina em artigo publicado na Folha de S. Paulo a doutora em educação e pesquisadora aposentada, Dagmar Zibas.

Na década de 1980, quando aluna de Freire em um curso de pró-graduação na PUC-SP, Zibas se voluntariou para ser secretária do educador. Exerceu a função por cinco anos e diz que se assombrava de ver como uma pessoa, de tão elevado status, conseguia se relacionar com “tanta simplicidade e empatia com qualquer pessoa que dela se acercasse”.

Doodle feito pelo Google em homenagem ao educador Paulo Freire.
Doodle feito pelo Google em homenagem ao educador Paulo Freire.Google

Apesar da estridência do bolsonarismo contra Freire, ele segue em alta no país. Nesta semana, a juíza Geraldine Vital, da 27ª Vara Federal do Rio de Janeiro, acatou um pedido feito pelo Movimento Nacional de Direitos Humanos e proibiu o Governo de “atentar contra a dignidade” do patrono da educação brasileira. Se houver qualquer ato institucional contra a figura do pedagogo, será aplicada uma multa de 50.000 reais.

Enfim, o educador parece estar mais vivo do que nunca, como ressaltou o colunista do EL PAÍS Xico Sá, em texto publicado no último dia 12. “Mais vivas do que nunca, todas as letras de Paulo Freire reacenderam, piscaram, sinais de que o mundo não caiu na besteira de se entregar às trevas da nova ordem”. Neste domingo, dia de seu centenário, Freire foi homenageado com um doodle, do Google.

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