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Paulo Freire centenário está mais vivo que um siri na lata da história

Na mira da ignorância do presidente Bolsonaro e de seus auxiliares, o patrono da educação brasileira é celebrado em todo o país

Uma imagem sem data de Paulo Freire.
Uma imagem sem data de Paulo Freire.

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Eleito como alvo mais ilustre da guerra cultural do bolsonarismo, o pernambucano Paulo Freire (1921-1997) chega aos 100 anos mais vivo do que nunca, resistente e teimoso qual um siri batendo na lata pedagógica da história.

A meta traçada por Olavo de Carvalho, guru do presidente da República, seria banir o pensamento paulofreiriano do ambiente educacional brasileiro. Apesar do estrago planejado pelo governo ter enfraquecido as universidades públicas — área da “balbúrdia” —, o centenário do mestre reacendeu o candeeiro iluminista com celebrações e congressos sobre o autor de Pedagogia do Oprimido em todos os estados do país.

Logo no início da sua gestão, Bolsonaro chamou Freire de “energúmeno” e prometeu substitui-lo como patrono da educação no Brasil. Alguns projetos da bancada da bala foram apresentados no Congresso com esta meta. Nada foi adiante. “Bolsonaro só não mandou matar Paulo porque ele já morreu”, diz a professora e doutora em educação Ana Maria Araújo Freire, 88 anos, viúva do educador. Nita, como é conhecida desde jovem no Recife, sabe como a morte é obsessão do titular do Palácio do Planalto.

Na impossibilidade da eliminação física, os fanáticos da legião presidencial tentaram borrar a importância do mestre em todos os períodos letivos pós-2018, sob a mesma desculpa furada que vingou na mentira da Escola sem Partido, um dos hits, ao lado do kit gay, da máquina de ódio na campanha eleitoral antipetista.

Mais vivas do que nunca, todas as letras de Paulo Freire reacenderam, piscaram, sinais de que o mundo não caiu na besteira de se entregar às trevas da nova ordem. E a cigana analfabeta, caríssimo Chico César, seguiu lendo a mão de Paulo Freire, qual na sua canção Beradero.

Em uma fase em que o país está mais lascado que maxixe em cruz, setembro e a ideia de primavera é de Paulo Freire, cujo aniversário se dará, para ser mais exato, ao dia 19 da folhinha do calendário. Marque na agenda. Vamos comemorar como uma Copa do Mundo. Isso é mais importante do que o tetra, do que o penta, do que o hexa. “No dia em que pelo menos um gol for dedicado a Paulo Freire esse país será campeão do mundo todos os dias”, como me disse uma vez, lá na Mercearia São Pedro, SP, o doutor Sócrates. Não custa sonhar com esse tento.

Falei ma-xi-xe linhas atrás. Maxixe, por exemplo, é um vegetal de origem africana, muito utilizado na culinária do Norte e Nordeste do Brasil, vixe, água na boca. Ah uma maxixada com natas, meu Deus, meus orixás. Maxixe não é pop, maxixe é sustança da pequena agricultura em família. E tem trilha sonora: maxixe também é um ritmo que tem como gênia-mor Chiquinha Gonzaga. Maxixe está caro, outro dia quase foi eleito como vilão da inflação de Bolsonaro, é sério, vi no SP TV e tudo.

Agora me senti o próprio texto do cineasta — homem que faz cinema — Jorge Furtado. Como é paulofreiriano e lindo o filme Ilha das Flores (1989, aquele ano em que lascaram o Lula para louvar o Collor). É sobre porcos e capitalismo. Tem no Youtube. Bo-ni-to.

Antes, porém, ensinar a saber do nosso lugar na história. Ti-jo-lo. “Num desenho lógico, / Seus olhos embotados de cimento e tráfego”, emendaria o Chico. Bo-ni-te-za. Num rascunho de sonho, garrancho por garrancho, essa palavra acende, quem sabe, a lamparina distante de um tardio iluminismo.

Tentaram apagar o mestre Paulo Freire como apagam diariamente o professor na lousa da história nas escolas públicas do país todo. Não conseguiram. Ele segue como o brasileiro mais importante aos estudos de educadores africanos, europeus, americanos e latinos.

De Angicos a Sapopemba, o método do mestre segue necessário. Do sertão potiguar, onde o mestre comandou a jornada histórica de 40 horas de alfabetização de adultos em 1963, à zona leste paulistana — aqui estamos falando da experiência do professor dos professores no cargo de secretário de Educação da prefeita Luíza Erundina, finalzinho dos anos 1980, quando exerceu toda a boniteza na prática. Quanto zelo com meninas e meninos da periferia, quanto cuidado, lembro muito bem da sua preocupação com a pintura das escolas.

O orçamento é público e tem que ser voltado para tornar as coisas belas para quem precisa. Era o pensamento. “Só escola de rico tem que ser bonita? Dou aula debaixo de mangueiras, no meio da rua e tudo, todo lugar de aprender é iluminado, mas por que só rico tem direito a escola, falo das construções, bem-cuidadas?”, respondeu Paulo Freire no dia que o conheci como repórter-foca, lá no Recife dele, digo, nosso, 1984.

Não irei repetir aqui toda a desgraça e destruição que os inomináveis ministros da Educação bolsonaristas fizeram nestes quase três anos de nada, noves fora zero. Eles seguirão insignificantes para a história. Paulo Freire, no entanto, completa 100 anos, neste 19 de setembro, repito, mais importante do que nunca. Não só no Brasil. No mundo inteiro.

Aqui na rede cearense, só me resta ler as coisas do homem e em torno do homem. Acabou de sair o livro A palavra boniteza na leitura de mundo de Paulo Freire (Paz & Terra), organizado por Nita Freire. Uma turma importante, além da memória da companheira mais íntima do educador, em ensaios sobre o cara.

Boniteza, no olhar afetuoso de Nita, é a palavra das palavras na vida do patrono da educação brasileira. Boniteza no sentido de luta pela democracia dos saberes, boniteza no sentido do antirracismo, boniteza mil vezes repetida no sentido amplo de aprender e saber ler o mundo. Ti-jo-lo. Ma-xi-xe. Po-lí-ti-ca.

Só não decifrei ainda a palavra energúmeno. Sim, aquela mesma alvejada pelo presidente para tentar “matar” Paulo Freire. Abre comigo o dicionário. E lá está: pessoa exaltada, desequilibrada, desatinada, indivíduo ignorante, boçal, imbecil etc etc. Quem essa palavra mais define?

Agora com licença, amiga, amigo, que eu vou ali comprar roupa nova para comemorar esse centenário!

Xico Sá, escritor e jornalista, é autor de “Big Jato” (editora Companhia das Letras), entre outros livros.

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