Governo Bolsonaro

Brasil encara recuperação fraca prejudicada pelo ritmo da vacinação, o desemprego e a inflação

Pandemia freia a agenda liberal que agora o Governo de Bolsonaro tenta reativar com a privatização da Eletrobras e uma avalanche de licitações de infraestrutura. Atraso na negociação inicial das vacinas agora cobra o preço da retomada, apontam economistas

Bolsonaro ao lado de Paulo Guedes, ministro da Economia.
Bolsonaro ao lado de Paulo Guedes, ministro da Economia.ADRIANO MACHADO / Reuters

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A sinalização de que a vacinação contra a covid-19 no Brasil finalmente ganha velocidade melhorou as perspectivas de crescimento econômico, em um panorama prejudicado pelo temor a uma terceira onda, o alto desemprego e uma inflação acelerada ―apesar da paralisação econômica pela covid-19. Após um aumento no PIB de 1,2% no primeiro trimestre, a agência Moody’s prevê que fechará 2021 com um crescimento de 4,9%, o que significa uma melhora de suas previsões para a economia brasileira, que em 2020 caiu 4,1%.

A pandemia freou a agenda liberal que agora o Governo de Jair Bolsonaro tenta reativar com a privatização da Eletrobras e uma avalanche de licitações de infraestrutura. Mas o desemprego está em 14,7% (quase 15 milhões de desempregados) e a inflação avança velozmente enquanto o Executivo pensa em prorrogar por mais três meses o pagamento do auxílio emergencial aos mais pobres. Desde o primeiro minuto, Bolsonaro apostou em priorizar a crise econômica sobre a sanitária insistindo que “a fome também mata”. E poucos dias atrás defendeu que se infectar é mais eficaz do que a vacina.

O aumento de 1,2% registrado no primeiro trimestre surpreendeu. O Brasil, onde as restrições foram relativamente frouxas em comparação com a Argentina e o Chile, vai recuperando o fôlego após um 2020 marcado pela pandemia em que somente o setor agropecuário cresceu, impulsionado pelo real, que está entre as moedas mais desvalorizadas do mundo.

Bolsonaro e seu czar econômico, o ultraliberal Paulo Guedes, começaram seus mandatos em 2019 com uma agressiva agenda para diminuir o Estado. Fecharam esse ano com prestígio junto ao mercado financeiro por ter avançado com uma reforma da Previdência. A pandemia, entretanto, a deteve. A duríssima realidade os obrigou a uma mudança de 180 graus. Implantaram um dos maiores programas de ajudas públicas do mundo com um pagamento direto ao bolso de um terço dos brasileiros que freou de modo efêmero o aumento da pobreza, mas aumentou a dívida pública, que acabou 2020 quase em 100% do PIB. O Governo planeja agora estender durante mais três meses essa ajuda de emergência de 250 reais que 45 milhões de famílias recebem.

“O Governo concedeu ajudas emergenciais [o pagamento do auxílio], o que teve um efeito a curto prazo. Mas continuamos com escolas fechadas, não investimos em tecnologia e não nos preparamos para esse momento com políticas públicas para a mão de obra. Estruturalmente estamos pior”, diz a consultora econômica Zeina Latif.

O otimismo nas projeções de crescimento é matizado pelo avanço da inflação. Em maio foi de 0,83% e atingiu 8,06% em 12 meses. É um resultado muito acima da meta, que oscila de 2,2% a 5,2% no país que domesticou a inflação nos anos noventa. Para detê-la agora, o Banco Central subiu neste mês pela terceira vez os juros e um quarto aumento é esperado em agosto. “Será preciso subir muito mais os juros e isso irá impactar no custo do crédito e significará um atraso na recuperação”, diz Latif. “As projeções de melhora na economia são mais uma recuperação cíclica do que um crescimento”, completa a especialista.

A lei que permitirá ao capital privado ter 60% da Eletrobras passou nesta segunda na Câmara dos Deputados, após ser aprovada na semana passada pelo Senado. É um trunfo para Guedes. Mas, conseguida a reforma da Previdência em seu primeiro ano de mandato, os outros dois grandes projetos econômicos da dupla Bolsonaro-Guedes (a reforma fiscal e a da administração pública) estão presas no Congresso e os termos originais foram diluídos “A infraestrutura pode ser o grande impulso da recuperação”, afirmou recentemente o ministro da área, o engenheiro e militar da reserva Tarcísio Gomes Freitas, no começo do mês a um grupo de jornalistas, ao anunciar uma rodada de licitações aeroportuárias, ferroviárias, portuárias e de estradas. “O objetivo é a criação de emprego”, acrescentou.

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Nas últimas semanas a vacinação acelerou, mas, ainda assim, há sobressaltos ―nesta terça-feira, 21 de junho, a prefeitura de São Paulo (a maior cidade do país) anunciou a suspensão, por um dia, da aplicação das primeiras doses do imunizante por falta do medicamento. Ainda que menos de 12% dos 212 milhões de brasileiros tenham recebido as duas doses, na quinta-feira mais de dois milhões de pessoas foram imunizadas após o processo começar com uma lentidão que exasperou tanto o poder econômico que fez o Governo levar o assunto a sério nesse ano. Sua carta dizia que, sem vacinação, não haveria recuperação econômica. A chamada de atenção surtiu efeito. O Governo de Bolsonaro ignorou durante meses as ofertas das farmacêuticas e alguns ministros se vacinaram às escondidas. Durante meses, as injeções chegaram graças, sobretudo, à iniciativa dos governadores.

Esse atraso na negociação das vacinas agora cobra o preço da retomada, avaliam especialistas como Claudio Considera. A pandemia manteve setores como o comércio e os serviços desorganizados com muitas baixas pela crise econômica que se instalou. “Hoje 73% do PIB não funciona em sua totalidade”, estima o economista do Instituto Brasileiro de Economia (IBRE) da Fundação Getúlio Vargas.

Tanto o ritmo de vacinação como a gestão da pandemia impactam na recuperação. O presidente Bolsonaro fez uma campanha errática contra o distanciamento social e, estimulada por ele, parte da população não usa máscara e sequer acredita na existência do vírus. Isso pode atrasar a reabertura total da economia porque o vírus continuará circulando e os contágios não cederão facilmente. Os economistas também não sabem qual será o impacto dos mais de 500.000 mortos pela pandemia no mercado de trabalho. A letalidade continua alta com uma média de mais de 2.000 mortos diários.

O economista avalia que algumas previsões para a economia brasileira são exageradas diante desse quadro. “A recuperação será lenta, levando em consideração que já partimos de uma base deprimida. Não estávamos crescendo no primeiro trimestre de 2020”, antes da explosão da pandemia, afirma Considera.

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