Voto indígena será decisivo nas eleições do Equador

Embora próxima da esquerda, um longo histórico de desentendimentos com o correísmo limita o apoio eleitoral dessa comunidade ao candidato Arauz

Indígenas durante o primeiro turno das eleições no Equador, em 7 de fevereiro, em Cuenca.
Indígenas durante o primeiro turno das eleições no Equador, em 7 de fevereiro, em Cuenca.Robert Puglla ((EPA) EFE)

O voto das comunidades indígenas é um bem precioso no Equador. Representa entre 7% e 10% do eleitorado e quem conseguir atraí-lo garantirá a vitória no segundo turno deste domingo. Andrés Arauz, o candidato promovido pelo ex-presidente Rafael Correa, sabe disso, assim como seu rival, o conservador Guillermo Lasso. A lógica política diz que Arauz deveria ficar com esses votos, mas as divisões entre os líderes do movimento indígena e um longo histórico de desentendimentos com Correa limitam o apoio das comunidades.

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Pachakutik é o nome do braço político que representa o indigenismo equatoriano. Nas eleições de 2006, o movimento analisou a possibilidade de acompanhar Correa com um candidato a vice-presidente. A ideia não amadureceu e o Pachakutik apresentou seu próprio candidato, sem muito sucesso: obteve apenas 2,1% dos votos. Apesar disso, Correa incluiu esse partido em seu Gabinete e nomeou uma mulher quéchua de Sarayaku como secretária de Comunicação. Mas a boa sintonia não prosperou.

O rompimento foi amadurecendo pouco a pouco, à medida que as bases indígenas se erguiam nas áreas rurais para reivindicar obras, como estradas, ou para frear a exploração de minérios em seus territórios. No auge da tensão, o Governo correísta chamou as revoltas de atos terroristas e tentativas de sabotar a produção de petróleo, a principal fonte de divisas do Equador. Houve detidos, entre eles o último candidato à presidência pelo Pachakutik, Yaku Pérez, e pesos-pesados da liderança indígena, como Lourdes Tibán e Salvador Quishpe. As feridas daquele divórcio continuam abertas.

Hoje, o movimento indígena está dividido em relação a Arauz, pelo menos em sua liderança. “A problemática é diferente na Serra Central, na Amazônia e na Serra Norte, onde as comunidades se dedicam ao comércio”, diz Jacobo García, analista político eleitoral. “O erro está em homogeneizar. Há uma parte do mundo indígena que é favorável a Correa porque foi beneficiada por suas obras públicas, e há outro mundo indígena que rejeita a lógica desenvolvimentista correísta, baseada no uso dos recursos naturais”, explica. Essas divisões explicam em parte a complexidade das redes de apoio e rejeição às candidaturas de Arauz e Lasso no segundo turno.

O Pachakutik e seu candidato Yaku Pérez, terceiro colocado no primeiro turno, fizeram campanha pelo voto nulo. O partido é o braço político da Conaie (Confederação de Nacionalidades Indígenas do Equador), cujo líder, Jaime Vargas, pediu, no entanto, voto para Arauz. Yaku Pérez, então, chamou Vargas de “cadáver político”, enquanto bandeiras do Pachakutik tremularam no comício de encerramento da campanha de Arauz, realizado quinta-feira em Quito.

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O comício do candidato correísta contou com uma presença significativa de líderes indígenas. Entre eles estava Nanky Sant, um shuar da Amazônia que tentou a sorte como candidato a deputado. “Neste momento, a única opção que os povos e nacionalidades aqui no Equador têm é a opção progressista representada por Andrés Arauz”, diz Nanky Sant. O dirigente garante que o voto indígena irá em massa para Arauz, e que a defesa do voto nulo feita por um setor do Pachakutik é uma evidência de suas divisões internas. “Noventa por cento não concordam com os atuais dirigentes do Pachakutik e com os que estão promovendo de maneira ressentida o voto nulo”, diz.

Para onde irá então o voto indígena? “O voto nulo não será significativo, muitos eleitores acabarão votando em alguém”, arrisca Sebastián Hurtado, presidente da consultoria de risco político Profitas. “Por trás do voto nulo promovido por Pérez e pela Conaie, pelo menos por uma parte dela, está a ideia de que Arauz e Lasso são iguais, quando não são. As políticas de Arauz estão mais alinhadas com as aspirações dos setores indígenas, e os que decidirem votar em alguém acabarão votando nele. No setor indígena houve divisões sobre o que fazer em relação a Arauz, mas não houve voto em Lasso”, diz Hurtado. O que se vê na superfície é a desconexão entre “as lideranças e as bases, que são mais de esquerda e, portanto, próximas de Arauz”, explica.

Na segunda-feira, porém, o Pachakutik terá muito a dizer ao Governo que surgir das urnas. O resultado de Yaku Pérez o primeiro turno (19,39%, com uma diferença de menos de 33.000 votos para Lazzo) transformou o braço político das comunidades indígenas na segunda força da Assembleia, com 27 cadeiras no Legislativo. “É a maior representação de sua história”, destaca Pedro Donoso, diretor da consultoria Icare. “Eles não jogam no curto prazo, veem uma estratégia futura para disputar a governabilidade. Por isso, o Pachakutik declarou que fará oposição a qualquer Governo, inclusive em uma aliança programática com a Esquerda Democrática de Xavier Hervas, que ficou em quarto lugar no primeiro turno e terá 18 legisladores”, assinala. Se Arauz vencer, uma parte das bases poderá exigir pactos com o correísmo, mas o que definirá a relação com o novo Governo será o jogo político das lideranças. Sem maiorias claras na Assembleia que tomará posse em maio, os deputados indígenas sabem que terão a chave da governabilidade.

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