Pandemia de coronavírus

Escolas reabrem entre medo da covid-19 e do atraso no aprendizado: “Já ficamos um ano sem aula. Mais um é inaceitável”

Dez Estados marcaram a volta às aulas para este mês. Em São Paulo, rede privada retomou atividade nesta segunda. Escolas estaduais retornam no dia 8, e as municipais, no dia 15. Sindicatos vão à justiça

Sinal de distanciamento social em sala de aula da Escola Estadual Milton da Silva Rodrigues, em São Paulo, reaberta em novembro para aulas de reforço.
Sinal de distanciamento social em sala de aula da Escola Estadual Milton da Silva Rodrigues, em São Paulo, reaberta em novembro para aulas de reforço.AMANDA PEROBELLI / Reuters

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“Dá um pouco de medo, mas acho que vou mandar sim, não dá mais para ficar em casa né”, diz a mãe de uma aluna da segunda série de sete anos de idade. “Vou esperar um pouco nesse começo, depois ela volta”, afirma outra sobre a filha de cinco anos. “Ainda não sinto que é seguro mas não posso mais esperar, ele precisa da escola”, diz uma terceira ao EL PAÍS sobre o filho de 10 anos. Após quase um ano sem receber alunos para atividades de ensino regulares, sem vacina à vista tanto para trabalhadores quanto para estudantes e com muitas incertezas dos pais em meio ao agravamento da pandemia de covid-19 no país, começa a volta às aulas de milhões de alunos Brasil afora. Os governos de pelo menos 10 Estados marcaram a volta às aulas em fevereiro enquanto o de outros seis, incluindo o DF, para março.

Em São Paulo, para deixar a situação ainda mais confusa, no final de semana uma guerra de liminares primeiro suspendeu e depois confirmou a volta das atividades presenciais, que foram retomadas a partir desta segunda-feira na rede privada de ensino. Na rede estadual, as aulas presenciais voltam no dia 8, e na municipal, dia 15. No Estado, atualmente com todas as regiões e cidades nas fases laranja ou vermelha de restrições por conta da pandemia, as aulas presenciais seguem permitidas para alunos de todas as idades com regras de distanciamento social, uso de máscaras e higiene pessoal com até 35% do número de alunos por vez. Na maioria dos Estados, os pais podem escolher se mandam os filhos para a escola neste primeiro momento ou não. Assim, os colégioss devem promover um revezamento entre os estudantes para participação nas aulas presenciais e no ensino remoto.

“Manter as escolas fechadas não está protegendo a maioria das crianças da pandemia e ainda as expõe a uma série de outros riscos como desnutrição, violência e déficit de aprendizado”, afirma a pediatra Ana Escobar, que apoia o retorno imediato das escolas. “Até aqui ficamos um ano sem escola, ficar outro ano é inaceitável. Principalmente se a gente pensar nas crianças mais vulneráveis, porque em casa não trem estrutura pra aprender, os pais não conseguem ajudar, não tem com quem deixar, como alimentar, a escola tem que estar lá, não dá mais para esperar”, diz.

A pediatra diz que estudou os protocolos de segurança estabelecidos pelo Governo do Estado e da Prefeitura de São Paulo contra a pandemia para a volta às aulas e concluiu que as medidas são suficientes para garantir um retorno seguro. “Pelo que a gente viu, tanto as escolas particulares como públicas fizeram adaptações importantes e estão se preparando para fazer uma volta às aulas segura”, diz. Segundo ela, nas escolas públicas funcionários, professores e alunos vão receber equipamentos de proteção pessoal como máscaras e kit de higienização das mãos, e está sendo tomado um cuidado maior para equipar banheiros com papel e sabão. “As salas também estarão com as janelas abertas e com a capacidade de alunos reduzida, será possível manter o distanciamento social. Com isso temos a maior segurança possível para as crianças, funcionários e famílias”.

Escobar afirma que hoje está convencida da segurança de reabrir as escolas para os alunos. “As escolas que já reabriram ao redor do mundo não causaram uma explosão no número de casos, não foi constada essa relação de causa e efeito em lugar nenhum”, diz a pediatra. Ela afirma que estatisticamente é possível afirmar que a transmissibilidade do novo coronavírus é menor entre crianças e que a quantidade de casos que evoluem para estágios graves da doença são raros nessa população.

Ela acredita que famílias que tenham condições de segurar as crianças em casa mais algumas semanas podem fazê-lo sem problemas, mas que mais cedo ou mais tarde terão de mandar os filhos de novo para a escola, mesmo que a pandemia não esteja controlada. Ela acredita que os pais devem preparar-se para o eventual fechamento das escolas novamente, de acordo com a evolução da pandemia. “Este ano devemos nos preparar um abre e fecha das escolas muito dinâmico, já que a evolução da pandemia acontece dessa forma também. Mas a escola tem que ser a última que fecha e a primeira que abre”, afirma Escobar.

O infectologista Marcelo Otsuka, vice-presidente do Departamento de Infectologia da Sociedade de Pediatria de São Paulo, concorda que não dá mais para esperar. “Como sociedade é prioridade voltarmos nossos esforços para que as crianças voltem às escolas”, afirma Otsuka. O médico apoia o retorno pois, segundo ele, já foi possível constatar que a doença em crianças e adolescentes não costuma manifestar-se de forma violenta e causar complicações. “No geral, nessas faixas etárias o vírus não é muito diferente de vários outros que não fecham escolas”, afirma.

Ele diz, no entanto, que diversos fatores devem ser observados para que o retorno seja feito em segurança. “As crianças transmitem, então algo que os pais devem considerar antes de mandar para a aula é se essa criança convive com algum idoso ou pessoa dos grupos de risco. Se sim e se for possível, talvez seja melhor esperar mais um pouco”, diz. Otsuka também cobra rigor na aplicação de medidas de segurança contra a covid-19 como barreiras físicas entre os alunos, equipamentos de proteção pessoal para todos, uso de máscaras obrigatório, sabão, água e álcool em gel disponível nas escolas, entre outras coisas.

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Para ele, as pessoas também deveriam fazer mais para conter a pandemia e as crianças poderem ir para a escola em segurança, citando como exemplo a incapacidade do poder público de prover transporte sem superlotação. “Não tem cabimento comércio e bar aberto enquanto a escola fica fechada, as prioridades não podem ser invertidas. As crianças estão sendo muito prejudicadas no desenvolvimento social, neurológico, motor, psicológico e pedagógico. Muitas não têm acesso ao ensino remoto, para tantas outras a principal refeição era na escola, tem crianças sendo abusadas e agredidas, amontoadas em casa de terceiros para os pais irem trabalhar, expostas ao vírus. Isso tem que acabar”.

Sindicatos são contra

De acordo com o Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo (Apeoesp), as escolas estaduais não estão preparadas para a volta dos alunos. “O cenário nas escolas é estarrecedor”, afirma Maria Izabel Noronha, presidente da entidade. “Diagnóstico do Instituto de Arquitetos do Brasil e do Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos, feito em agosto a pedido da Apeoesp, concluiu que 82% das escolas não têm mais de dois sanitários para uso dos estudantes, e 48% não têm sanitário acessível para pessoas com deficiência; 13% não têm quadra ou ginásio; e 11% não têm pátio para atividades ao ar livre”, afirma.

Segundo a Apeoesp, a situação de falta de infraestrutura adequada e a indefinição em relação à vacinação dos professores são impeditivos para a volta das aulas neste momento. Segundo a Apeoesp, dos 180.000 associados do sindicato, pelo menos 15.000 são idosos e até agora não sabem se poderão ficar em trabalho remoto por mais tempo. De acordo com o Plano Nacional de Imunização, divulgado em janeiro pelo Ministério da Saúde, antes dos professores serão imunizados os profissionais da saúde, idosos, população indígena, comunidades ribeirinhas e pessoas com comorbidades. Ainda não há data prevista para os profissionais de ensino.

Para Luiz Antônio Barbagli, presidente do SinproSP, sindicato que representa os professores das escolas particulares, o ensino remoto poderia continuar pelo menos até o final deste semestre. O sindicato marcou um assembleia virtual para o sábado onde discutirá possibilidade de greve. “Os professores das escolas particulares estão sendo obrigados a voltar sem que sejam oferecidas condições concretas de segurança, de saúde e de trabalho. Os donos de escolas se recusam a ouvir a categoria e o poder público não oferece condições —nem tem vontade política— de fiscalizar o funcionamento das mais de 4 mil escolas particulares”, diz comunicado da entidade divulgado nesta segunda-feira (1º).

O Sindicato dos Profissionais em Educação no Ensino Municipal-SP (Sinpeem) adota a mesma linha de questionamento e não descarta promover uma greve contra a retomada. “Inconcebível expor bebês, crianças, jovens e adultos a riscos nas escolas”, diz a última nota oficial do sindicato sobre a retomada. “A vacinação teve início e o país poderia estar em situação melhor. Mas o que se vê é a doença se agravando e a inexistência de um programa nacional de vacinação urgente para todos. Se anteriormente, durante fases menos críticas da pandemia, as aulas presenciais não foram retomadas, não será agora, com a curva de contaminação em ascensão, que tal retorno intempestivo pode estar sendo determinado”.

De acordo com Benjamim Ribeiro, presidente do Sieeesp, entidade patronal que reúne as escolas particulares de São Paulo, 95% delas voltaram a receber seus alunos já nesta segunda-feira. “O ano passado foi de aprendizado e agora nós estamos preparados para abrir em segurança”, diz. “A grande maioria dos professores da rede privada sabe da necessidade da volta, são comprometidos com seus alunos que já tiveram a vida escolar prejudicada demais e sabem que tem que voltar imediatamente”. Segundo ele, cerca de 30% das escolas infantis particulares vão falir se a reabertura não continuar desde agora. “Estamos falando de pelo menos 1.000 escolas em todo o Estado”, diz.

De acordo com o decreto da Prefeitura de São Paulo que definiu a volta às aulas na rede municipal, as duas primeiras semanas do mês serão dedicadas ao planejamento interno de cada escola, e as aulas em turnos alternados e revezamento de alunos recomeçam no dia 15. O decreto prevê também que a retomada das atividades presenciais deve abranger a operação de equipamentos educacionais como bibliotecas e laboratórios, oferta de atividades esportivas, funcionamento de refeitórios e cantinas, espaços administrativos, dentre outros.

O governador João Doria (PSDB-SP) assinou um decreto em dezembro que tornou possível a abertura de escolas mesmo na fase vermelha do PlanoSP, a mais restritiva de medidas contra a circulação do coronavírus, e marcou o início das aulas na rede estadual para esta segunda-feira. Frente ao recrudescimento da pandemia em SP em dezembro e janeiro, no entanto, adiou a volta para a semana que vem, no dia 8. As escolas estaduais já estão abertas para fornecer merenda aos alunos.

A pressão pela volta às aulas aumentou no final do ano passado, depois que um manifesto assinado por mais de 400 pediatras e um movimento de pais e escolas na internet pediam o retorno imediato das aulas presenciais.

As incertezas em relação à pandemia e a falta de consenso entre Governo, escolas e professores causou uma guerra de liminares na justiça. Na quinta-feira (28), uma liminar do Tribunal de Justiça de São Paulo suspendeu o retorno às aulas nesta semana, mas foi derrubada pelo presidente do tribunal no dia seguinte. A Apeoesp e outras três entidades que entraram com a ação prometem recorrer ainda nesta semana.

Em meio à confusão, cada família lida com a situação da melhor maneira que pode. “Está uma loucura, começou hoje com a sala dividida uma parte lá e outra online”, diz Luíza Perez, fisioterapeuta e mãe de uma menina de 7 anos de idade que estuda na segunda série de uma escola particular na zona sul de São Paulo. “Amanhã é o primeiro dia dela no presencial, estamos com medo mas confiamos nela. Conversamos muito sobre a importância da máscara, ficar afastada, limpar as mãos, vai dar tudo certo.”

A médica Carolina de Souza até ia mandar a filha de cinco anos para a escola agora em fevereiro, mas ficou grávida e desistiu por enquanto. “Se eu não estivesse grávida ou estivesse vacinada, mandaria no começo de março. Agora não sei quando, mas achamos melhor esperar mais um pouco”, afirma. Luana Ribeiro, mãe de um menino de 10 anos, estudante do quinto ano do ensino estadual, não tem opção. Moradora de uma cidade na região metropolitana de São Paulo, arrumou um emprego como recepcionista de uma clínica médica no centro da capital após quase um ano desempregada e não tem com quem deixar o filho. “Estou com medo, mas ficar na escola ainda é a melhor opção para nós. Espero que abra logo e não feche de novo, é muito ruim não ter onde deixá-lo. é um leão para matar por dia.”

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