Brasil ensaia recuperação em 2020 a conta-gotas

Empresários celebram o Governo Bolsonaro, enquanto os brasileiros desconfiam do excesso de confiança em um país dominado pela informalidade do trabalho

O presidente Jair Bolsonaro, no último dia 3 de janeiro.
O presidente Jair Bolsonaro, no último dia 3 de janeiro.Eraldo Peres / AP

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Ao longo de 2019, o mundo ouviu o nome do presidente ultradireitista do Brasil, Jair Bolsonaro. Seja por negar os incêndios na Amazônia, calar-se diante de violações dos direitos humanos no país ou por suas provocações a diferentes personagens que o criticam por suas posições contra o meio ambiente, a imprensa ou as minorias. De Leonardo DiCaprio a Emmanuel Macron como alvos, Bolsonaro pôs energia na promoção de insultos, em uma narrativa disruptiva que o mantém em evidência. No entanto, quando seus interlocutores são empresários, Bolsonaro é um encanto. "Vocês são verdadeiros heróis", repete em seus discursos ao setor privado, ao qual prometeu facilitar a vida para que se possa investir e prosperar. "Ofereço aos senhores, o que tiver em decreto que porventura estejam atrapalhando, nos procurem. Em poucos dias submeteremos essa proposta de novo decerto a nossa assessoria jurídica. E, se for o caso, mudamos o decreto", disse ele em um encontro recente com o setor privado. No mesmo evento, aproveitou para ironizar o papel da ativista sueca Greta Thunberg, que ergue bandeira por soluções para as mudanças climáticas do planeta, algo que Bolsonaro despreza. “Tem até uma pirralha que tudo o que ela fala a nossa imprensa, pelo amor de Deus, dá um destaque enorme”, comentou, para deleite dos empresários.

Na batalha entre o desenvolvimento econômico do Brasil e a preocupação mundial com a preservação da natureza, o presidente brasileiro escolheu um lado. É para o setor privado que Bolsonaro governou em seu primeiro ano, semeando reformas para facilitar os negócios. Nesse sentido, não está sozinho. O Congresso brasileiro, que estreou com ele em janeiro de 2019, tem hoje uma maioria de políticos com os olhos voltados para a economia, que busca reduzir o papel do Estado e incentivar os investimentos das empresas. Foi essa combinação entre Executivo e Legislativo que garantiu a aprovação da reforma da Previdência no Brasil este ano, uma batalha que parecia perdida há décadas.

Hoje, a economia brasileira está se movendo a conta-gotas, mas o suficiente para ensaiar uma recuperação, ou pelo menos uma distância maior da recessão vivida entre 2015/2016. Se este ano o país crescerá 1%, para 2020 já se dá como certo que vai superar 2,2% do PIB, um alento para o Brasil depois de anos de recessão e um turbilhão de crises políticas que se sucederam desde 2015. “Nosso plano era crescer 1% este ano. Agora, esperamos 2% em 2020, 3% em 2021 e 4% em 2022”, afirmou o ministro da Economia, Paulo Guedes, em entrevista.

Guedes tem uma agenda de reformas para 2020, como a tributária e a administrativa, como parte de um plano para reduzir o labirinto burocrático que deixa o Brasil nas piores posições do relatório global Doing Business. Ele se prepara também para privatizar 300 estatais, desde empresas de tecnologia do Governo à companhia de geração de energia elétrica (Eletrobras) —esta última, depende de aprovação do Congresso. E também um novo marco legal para expandir os investimentos privados em saneamento básico promete gerar investimentos de 700 bilhões de reais até 2033, e dar gás ao setor de infraestrutura, que ficou paralisado desde 2014, quando a operação Lava Jato alcançou as construtoras.

As empresas confiam que o Governo Bolsonaro é capaz de cumprir suas promessas porque já desatou alguns nós que pareciam eternos. É o caso do acordo entre a União Europeia e o Mercosul, fechado no final de junho. O anúncio de que os dois blocos finalmente chegaram a um consenso deixou claro que a abertura do Brasil não é mais uma realidade tão distante. "Isso nos obriga a pensar grande", diz José Augusto Castro, presidente da Associação das Empresas de Comércio Exterior (AEB). “Tínhamos antes um acordo restrito com países como o Egito ou Palestina. Agora é um acordo de alto nível”, comemora. Suas projeções favoráveis vão além de 2020, quando finalmente os acordos específicos entre os dois blocos devem ser ratificados. Para este ano, Castro estima que o comércio exterior do Brasil cairá 3,2%, na inércia de um ano comprometido pela guerra comercial entre a China e os Estados Unidos. O presidente da Citrus, Ibiapaba Neto, que representa os produtores de suco de laranja, também se anima. "Fechamos um acordo com problemas e imperfeições, mas de amplitude gigante e que nos traz um futuro promissor", diz Neto. "Do ponto de vista comercial, este é o Governo mais pragmático que tivemos.”

Castro, da AEB, também conta com outras promessas feitas pela equipe do ministro da Economia, como a reforma tributária e administrativa. "Todas essas políticas vão reduzir os custos para as empresas e torná-las mais competitivas", festeja ele, que chegou a temer que a retórica agressiva de Bolsonaro contra a China no passado pudesse afetar os negócios com o gigante asiático.

Quando estava em campanha, Bolsonaro reclamava dos chineses. "A China não quer só comprar do Brasil, quer comprar o Brasil." As mensagens assustaram o principal parceiro comercial dos brasileiros, em um momento em que o presidente estava cada vez mais próximo de Donald Trump em plena guerra comercial. Uma vez na presidência, modulou seu discurso. "A China cada vez mais faz parte do futuro do Brasil", disse em encontro com o presidente Xi Jinping, em novembro.

Assim, apesar da retórica agressiva, Bolsonaro aprendeu a manter os empresários encantados. Pesquisa feita em dezembro mostra que 60% dos dirigentes de empresas no Brasil aprovam o Governo Bolsonaro. A aprovação da reforma previdenciária, concluída em outubro, também soou como música para os ouvidos do setor privado, por abrir um horizonte de longo prazo com os gastos públicos mais controlados. "Isso trouxe calma para as empresas, que se animam a investir um pouco mais", afirma Marcelo Lico, sócio da Crowe Auditoria. Lico teve que adiar as férias de dezembro para atender à demanda de novos projetos e planos de seus clientes para a nova década. Ele mesmo vai ampliar em 40% a equipe da Crowe. "Certamente será um ano fantástico", diz o empresário. Como ele, a maioria se entusiasma e considera que o Brasil está no caminho certo.

Alguns fatos e números começam a respaldar um otimismo incipiente. Setores que estavam parados, como a construção civil, começam lentamente a gerar empregos. As vendas deste Natal foram as melhores dos últimos sete anos, com uma alta estimada de 5% em comparação com 2018, informa a Confederação Nacional do Comércio. O Governo deu uma força para o incremento das vendas ao liberar o FGTS. A isso se somam taxas de juros mais competitivas, com a queda de 6,5% em janeiro para 4,5% em dezembro, a mais baixa da série histórica. A mediana sempre ultrapassou 10% até 2017 —e 30% na década de 1990—, com algumas exceções nos anos de Dilma Rousseff (2011-2016), o que também provocou inflação e ajudou a descontrolar as contas públicas.

O emprego também se recuperou no final do ano, depois de uma queda no primeiro semestre. Eram 33,4 milhões de trabalhadores na folha de pagamento até novembro, quase 400.000 formalizados entre setembro e novembro. No entanto, 38,8 milhões de pessoas estão na informalidade, segundo cálculo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) — são os que trabalham por conta própria, muitas vezes em condições precárias (como Uber, ou empresas sem registro, por exemplo), ou no setor privado sem contrato—. O desemprego abarca 11,9 milhões de brasileiros, enquanto a informalidade alcança 41% dos que têm uma ocupação (94,4 milhões de ocupados, incluindo aqueles que conseguem trabalho um dia por mês). "É uma boa notícia que cheguemos ao final do ano com novos empregos formais, mas a informalidade demonstra que não é certo que seja um ponto de inflexão para a economia", diz Adriana Beringuy, do IBGE.

Aqui está uma realidade que contrasta com a euforia do Governo e dos empresários. Os brasileiros de menor poder aquisitivo foram os mais prejudicados pela recessão e são os que menos têm esperança em um futuro melhor. "As pessoas estão cada vez com menos dinheiro, e pedem descontos o tempo todo", lamentou Maria Elenice Alves, 62 anos, que vende roupas em uma barraca de rua em São Paulo, segundo contou à jornalista Heloísa Mendonça. Alves calcula que sua renda reduziu pela metade nos últimos cinco anos. Mesmo tendo escutado o ano inteiro que a economia está melhorando, ela teve que lidar com o desemprego do marido, que sempre atuou na construção civil. "Estamos apertados, não consigo juntar dinheiro para minha aposentadoria."

Uma pesquisa do Datafolha mostra que os pobres são os mais pessimistas com a economia. Enquanto 57% dos mais ricos estão seguros de que a a área vai melhorar em 2020, apenas 39% dos que ganham até dois salários mínimos têm fé no futuro. O Governo Bolsonaro aprofundou um severo ajuste fiscal, que já havia começado no Governo de Michel Temer (2016-2018). A equipe econômica do ministro Paulo Guedes cortou programas sociais para os que têm muito pouco. Também sua perseguição à esquerda reduziu os investimentos em educação e cultura, sempre com um discurso agressivo.

Nos últimos meses, Bolsonaro também viu aumentarem as denúncias de corrupção contra seu filho Flavio Bolsonaro, que também é senador, por suspeita de lavagem de dinheiro quando era deputado estadual. As denúncias podem chegar ao próprio presidente por envolver pessoas em comum com os dois. Isso explica por que sua popularidade anda baixa entre a população. Hoje, 38% desaprovam seu Governo e apenas 29% o classificam como bom.

O Governo considera que o primeiro ano era o único em que se poderia aplicar o amargo remédio do ajuste fiscal. Mas, dentro de sua filosofia liberal, espera que os empresários correspondam à sua política pró-negócios com novos projetos que gerem empregos, e mudem o humor dos que hoje reclamam. Os investimentos públicos foram reduzidos ao mínimo para forçar empresas e bancos a se atreverem a ir mais ao mercado. O investimento privado está hoje na casa de 16,3% do PIB, ainda abaixo do necessário para que o Brasil supere um crescimento que ficou conhecido como “voo de galinha”, com uma expansão média anual nos últimos 20 anos de pouco mais de 2%. Nesse período, o Brasil viveu extremos, como uma expansão de 7,5% em 2010 e dois anos negativos em torno de 3,5% em 2015 e 2016.

Hoje, a expansão da economia se baseia sobretudo no consumo familiar, que responde por dois terços do PIB. O desafio do Governo é mudar esse eixo, que esconde a armadilha do endividamento. Em outubro, os brasileiros comprometeram 44,8% de sua renda para pagar dívidas. Houve o alívio da liberação do FGTS, mas essa solução tem efeitos limitados. Por isso, o desafio do Brasil agora é apoiar o crescimento em mais investimentos privados, que podem gerar empregos, mais renda e incentivar um ciclo virtuoso.

O economista Armando Castellar, da Fundação Getúlio Vargas (FGV), confia que 2020 trará mais investimentos das empresas em virtude de um conjunto de indicadores que propiciam apostas mais altas. “Estamos com as taxas de juros mais baixas da história, o que facilita o crédito, e uma inflação anual de 3,9%. É certo que será um ano muito melhor”, diz o economista, que se mostra mais otimista que o Governo ao projetar um crescimento de 3%.

Ronaldo Evelande, dono da empresa de alimentos Maricota, que emprega 500 pessoas, é um dos que estão em sintonia com a política bolsonarista. “As taxas de juros mais baixas nos permitiram vender mais este ano. Conseguimos crescer 19%, o melhor resultado da década, sinal de que o consumo continua aumentando”, afirma Evelande, que fabrica pão de queijo. Ele encontrou crédito mais barato, o que permite sonhar mais alto. Sua marca chega a 17 países, e o plano é alcançar 50 até 2025. Para atingir a meta, ele abrirá uma nova fábrica no Rio em 2020, com a geração de 100 postos de trabalho.

O empresário diz que votou em Bolsonaro no segundo turno sem muita convicção, apenas porque não queria a vitória do candidato opositor, Fernando Haddad, do PT. Mas está contente com a atual política econômica. Reconhece, de todo jeito, que o presidente fala demais. “Quando [um governante] fala bem lá fora, isso nos ajuda. Quando não fala, pode nos prejudicar”, afirma.

É quase um consenso entre empresários que o presidente provoca ruídos desnecessários com sua retórica. Mas Evelande conta que sua confiança está nos movimentos do ministro da Economia. Foi Paulo Guedes o fiador de Bolsonaro junto ao mercado financeiro, quando o mandatário era ainda um projeto de candidato a presidente que ninguém levava a sério. Hoje, Bolsonaro reconhece o poder de Guedes em sua gestão. “Eu que tenho que me alinhar com ele, não ele a mim. Ele que é meu patrão nesta questão, não eu o patrão dele”, disse o presidente à imprensa em dezembro. Se os planos de Guedes forem bem-sucedidos, Bolsonaro já pode sonhar inclusive com uma reeleição em 2020. Caso contrário, seu liberalismo radical será apenas mais uma página que o Brasil tentará esquecer em busca de tempos melhores.

Poucas alegrias na educação

O professor de ciências Simei Ribeiro de Sousa deu um passo importante em sua vida em 2019, quando fez 36 anos. Após dividir o aluguel com amigos desde os 17, ele decidiu comprar um apartamento —embora isso signifique endividar-se por mais de uma década. Sua ideia era encontrar um lugar para alugar e morar sozinho, mas as baixas taxas de juros no Brasil, algo novo depois de anos, o motivaram a ser mais ousado. “Faço essa compra num momento muito favorável economicamente para o país”, afirma Souza, que dá aula num colégio privado de São Paulo. Além do crédito mais barato que em outros tempos, os preços dos imóveis caíram após uma crise de cinco anos, agravada pelos ecos da recessão vivida no Brasil em 2015 e 2016.

O professor assume uma dívida de mais de 450.000 reais, confiando que seu emprego está assegurado. Ele trabalha há nove anos na mesma escola e adora o que faz. Planeja poupar para saldar metade da dívida até 2025. Também sente que há uma certa estabilidade na economia que lhe permite comprar o apartamento. "É a única coisa segura deste Governo. Difícil pensar num impacto positivo em outros temas, como educação, ciência e meio ambiente", opina Souza. Ele viu muitos colegas que trabalham no setor perdendo bolsas do Governo, dentro da severa política de ajuste fiscal de Bolsonaro. Como professor voluntário em escolas públicas, foi testemunha também da falta de uma estrutura mínima devido à falta de investimento ligada aos cortes de gastos, que devem se intensificar em 2020. "Chega a faltar água na escola do Governo. Como se pode viver assim? Um país que não investe em educação está destinado ao fracasso", avalia.