Pandemia de coronavírus

Bolsonaro celebra como uma vitória a suspensão dos testes da Coronavac

Presidente usa o assunto para intensificar sua ofensiva contra o imunizante chinês promovido por Doria

O presidente Jair Bolsonaro durante evento em Brasília no início de novembro.
O presidente Jair Bolsonaro durante evento em Brasília no início de novembro.EVARISTO SA / AFP

O presidente Jair Bolsonaro intensificou sua ofensiva irresponsável para politizar a vacina contra o coronavírus, colocando a Coronavac, de fabricação chinesa, na mira mais uma vez. O mandatário celebrou nesta terça-feira como uma vitória pessoal a suspensão, na véspera, pela Anvisa, de um dos vários ensaios clínicos em andamento no Brasil. A suspensão ocorreu depois da morte de um voluntário em circunstâncias que, segundo os responsáveis pelos testes, não tem nenhuma relação com a imunização. A vacina em questão é a Coronavac, produzida pela empresa chinesa Sinovac em colaboração com o Instituto Butantan, ligado ao Governo de São Paulo, chefiado por João Doria, o grande adversário político de Bolsonaro.

O Brasil é um dos laboratórios onde as diferentes vacinas são testadas há meses, graças a milhares de voluntários e ao fato de ser um dos países mais afetados do mundo, com mais de 160.000 mortes e 5,5 milhões de infecções pelo coronavírus. Tudo isso com um presidente que não hesita em tentar tirar proveito político da doença, mesmo que seja promovendo o caos na administração e semeando dúvidas sobre uma vacina diferente daquela que seu Governo comprou.

Na manhã desta terça-feira, Bolsonaro voltou a colocar a imunização no centro da polêmica quando um internauta lhe perguntou se iria comprar a vacina chinesa. Uma pergunta sem muito sentido, já que o presidente obrigou o Ministério da Saúde a desfazer, semanas atrás, um acordo para incluir a Coronavac no calendário nacional de vacinação. Mas para o presidente era a ocasião de marcar um gol e comemorá-lo: “Morte, invalidez, anomalia. Esta é a vacina que o Doria queria obrigar a todos os paulistanos tomá-la. O presidente disse que a vacina jamais poderia ser obrigatória. Mais uma que Jair Bolsonaro ganha”, escreveu o mandatário no Facebook, sem apresentar nenhuma prova de suas afirmações. Palavras que minam a tradicional confiança dos brasileiros na vacinação, mas colocam o assunto no centro do debate político em um país que realizará eleições municipais neste domingo.

Um dos voluntários dos testes da AstraZeneca (a vacina comprada pelo Governo federal) no Brasil morreu semanas atrás, e os testes continuaram. Agora, a Anvisa ordenou a suspensão dos ensaios clínicos da Sinovac. A paralisação foi ordenada às 20h40 de segunda-feira, depois de um dia dominado por notícias sobre as boas perspectivas da vacina da Pfizer e sobre o anúncio do governador Doria de que as primeiras doses da Coronavac chegarão a São Paulo no dia 20.

O Instituto Butantan, que conduz os testes e produz dois terços das vacinas do Brasil, acusou nesta terça-feira as autoridades da vigilância sanitária de “causar insegurança, medo” e “fomentar o descrédito gratuito”, nas palavras do cientista Dimas Covas, diretor dessa instituição pública fundada em 1901. Covas deu uma entrevista coletiva para insistir que o que ocorreu com o voluntário “não tem nenhuma relação com a vacina”. O cientista disse que não podia dar mais detalhes para não violar a privacidade da família do afetado.

Bolsonaro fez campanha ativa contra as precauções defendidas pelo Ministério da Saúde para evitar as infecções, e agora semeia dúvidas sobre a segurança da vacina apadrinhada por seu adversário Doria. Os dois, que foram aliados nas últimas eleições presidenciais, têm travado duros confrontos sobre se a vacinação deve ser obrigatória ou não. Cada um apoia candidatos diferentes para as eleições municipais. Essa disputa eleitoral é considerada um prelúdio para as eleições presidenciais de 2022.

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