Crivella é declarado inelegível, mas desgaste não o retira do páreo da disputa do Rio

Prefeito pode seguir com sua campanha até ter todos os recursos esgotados na Justiça Eleitoral e, se for o caso, no Supremo Tribunal Federal

Reunião da CPI “Guardiões do Crivella” acabou sem definição de cargos na terça-feira.
Reunião da CPI “Guardiões do Crivella” acabou sem definição de cargos na terça-feira.Renan Olaz/CMRJ
Ana Paula Grabois
Rio de Janeiro - 25 sep 2020 - 00:42 UTC

O prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella (Republicanos), está inelegível até 2026. O mais provável, no entanto, é que ele possa continuar a fazer campanha à reeleição até ter todos os recursos esgotados na Justiça Eleitoral e, se for o caso, no Supremo Tribunal Federal. O Tribunal Regional Eleitoral do Rio de Janeiro (TRE-RJ) decidiu de forma unânime, por sete votos, pela inelegibilidade do prefeito devido ao uso de máquina pública para fins eleitorais em evento realizado em 2018 na quadra da escola de samba Estácio de Sá. No evento, funcionários da Comlurb, empresa municipal de coleta de lixo, foram convocados sob o argumento de que seria um assunto de importância para a carreira e levados por veículos da própria companhia. No entanto, quando chegaram na quadra, tratava-se de um evento para promover a candidatura a deputado federal do filho de Crivella, Marcelo Hodge Crivella, com a presença do prefeito.

Crivella vai recorrer da decisão. Em uma entrevista na quarta-feira, ele afirmou que vai contestar o fato de um dos juízes que votou pela inelegibilidade, Gustavo Alves Pinto Teixeira, ser também advogado da Lamsa, concessionária que opera a Linha Amarela e que trava uma briga jurídica com a prefeitura. O candidato à reeleição havia suspendido o pagamento de pedágio para motos e, durante a pandemia, suspendeu também aos demais veículos que trafegam pela via, uma das principais da cidade. A estratégia do candidato à reeleição é deslegitimar a votação no TRE-RJ, pois Teixeira havia anteriormente se declarado impedido e mudou de ideia no início do julgamento, na segunda-feira. Segundo Crivella, para decidir sobre inelegibilidade, seria preciso ter o quórum completo do tribunal, de sete juízes.

O prefeito classificou a denúncia de “absolutamente irrelevante”, pois está baseada em uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) aberta na Câmara dos Vereadores que não resultou em seu afastamento. No entanto, o relator do caso no TRE-RJ, o desembargador Cláudio Luis Braga dell`Orto, ressaltou que as provas colhidas pela CPI são muito consistentes.

A decisão do TRE-RJ desgasta ainda mais Crivella, mas não o retira do páreo. O prefeito está em segundo lugar nas pesquisas eleitorais e tem como principal adversário o seu antecessor, Eduardo Paes (DEM), em primeiro lugar nas intenções de voto. Sob alta rejeição entre o eleitorado carioca, de cerca de 75%, Crivella passa por uma sucessão de denúncias. Já foi alvo de três tentativas de impeachment na Câmara dos Vereadores e tem escapado com margem pequena de votos. A última dizia respeito ao chamado QG da Propina, um suposto esquema de corrupção instalado dentro da prefeitura e objeto de denúncia do Ministério Público do Estado do Rio. O prefeito ainda é alvo de uma nova tentativa de CPI da Câmara para investigar os “Guardiões do Crivella”, grupo de servidores que se postavam na frente de hospitais municipais para barrar críticas dos doentes e de seus familiares sobre os serviços de saúde à imprensa.

Crivella pode nem chegar ao segundo turno, pois está empatado tecnicamente com a candidata do PT, a deputada federal Benedita da Silva, de acordo com a pesquisa mais recente, do Atlas Político. O prefeito tentará usar o apoio da família Bolsonaro a seu favor. O presidente Jair Bolsonaro (Aliança pelo Brasil) já sinalizou que não participará da campanha, mas os filhos, o senador Flávio e o vereador Carlos, sim. Os dois são do mesmo partido do prefeito. “Se alguém fizer campanha tentando se associar à imagem do Bolsonaro, pode ajudar a levar ao segundo turno. O antibolsonarismo é muito forte na capital do Rio de Janeiro, mas Bolsonaro ainda conserva um prestígio em parte da população”, diz o cientista político Ricardo Ismael. O Rio é o berço político da família Bolsonaro.

O candidato Eduardo Paes evita criticar o presidente de olho nos votos que pode herdar de Crivella se o prefeito não tiver fôlego para chegar ao segundo turno, principalmente do eleitorado da zona oeste. A região define a eleição na cidade por concentrar cerca de 40% do eleitorado. É a área que possui o maior percentual de evangélicos, grupo que apresenta alta taxa de aprovação a Bolsonaro. “A opção número um dos evangélicos é o Crivella, mas se o Crivella não for competitivo, não conseguir chegar ao segundo turno, a tendência é apostar no Eduardo Paes”, completa o cientista político.

“Se o Crivella chegar ao segundo turno, seja quem ele enfrentar, provavelmente ele vai perder. A situação dele é muito delicada, uma campanha muito difícil. Ele tem 11%, Benedita, 9% e Martha, 6%. Ele pode ser ultrapassado porque a eleição no Rio de Janeiro se decide mais para o final. Com essa rejeição e os fatos negativos recentes, ele vai ter que se explicar muito para conseguir chegar ao segundo turno”, avalia Ismael.

Para o cientista político Fernando Guarnieri, do Instituto de Estudos Sociais e Políticos (Iesp), da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, existe uma guerra travada dentro do espectro da direita do Rio. “Estão tentando resolver quem vai ser o candidato. No Rio, quando a direita está unida, não tem para ninguém. Estão tentando limpar a área para concentrar em alguém”, afirma Guarnieri. O tipo de ataque que tem como foco a corrupção atinge exatamente o eleitor conservador, do centro e da direita.

Se Crivella desidratar devido às denúncias de corrupção e uso da máquina, o apoio da família Bolsonaro pode migrar para Luiz Lima, nome do PSL, partido anterior do presidente Bolsonaro e de seus filhos. Bolsonaro não comenta o quadro eleitoral do Rio e nada mencionou sobre o PSL local. “Se ele achar que o Crivella vai queimar o filme dele, ele vai dar apoio ao Luiz Lima”, prevê Guarnieri.

A disputa pela Prefeitura do Rio pode terminar com uma mulher no segundo turno. São seis candidatas. As três com mais chance, segundo as pesquisas, são do campo de esquerda: Benedita da Silva; a deputada estadual Martha Rocha (PDT), e a deputada estadual Renata Souza (PSOL). Ainda figuram como candidatas Cristiane Brasil (PTB), presa recentemente por um caso de corrupção no Governo do Rio; Clarissa Garotinho, deputada federal pelo Pros e filha do casal de ex-governadores Anthony Garotinho e Rosinha Matheus, e Glória Heloiza (PSC).


Mais informações