Denúncia contra Alckmin consolida cerco ao ‘velho’ PSDB de São Paulo

Em um mês, dois dos principais nomes da legenda e ex-governadores do Estado foram alvo da Lava Jato. Tucano era cotado para coordenar plano de Governo de Bruno Covas nesta eleição

Geraldo Alckmin durante a campanha eleitoral de 2018.
Geraldo Alckmin durante a campanha eleitoral de 2018.AP

O ex-governador de São Paulo Geraldo Alckmin (PSDB) foi denunciado nesta quinta-feira pelos crimes de lavagem de dinheiro, corrupção passiva e falsidade ideológica eleitoral. Segundo o Ministério Público de São Paulo, ele recebeu 2 milhões de reais em espécie da Odebrecht durante sua campanha ao Governo estadual em 2010 e mais 9,3 milhões de reais na eleição seguinte, em 2014, quando foi reeleito. A contrapartida dessas doações seriam contratos nas obras do Metrô de São Paulo e do Rodoanel, de acordo com a Polícia Federal. Alckmin já havia sido indiciado (etapa anterior da investigação em que a polícia, ao concluir o inquérito, aponta indícios de autoria) por esses crimes na semana passada pela PF. Ele é o segundo tucano de relevância nacional alvo de denúncia neste mês: em 10 de julho o senador José Serra foi acusado pela força-tarefa da Operação Lava Jato em São Paulo pelo crime de lavagem de dinheiro. Os dois negam qualquer irregularidade.

Assim como no caso de Serra, a denúncia contra Alckmin —que disputou e perdeu duas eleições presidenciais, em 2006 e 2018— teve como base os acordos de delação premiada firmados por executivos e diretores da Odebrecht com a Procuradoria-Geral da República em dezembro de 2016. Ou seja, se passaram mais de três anos (e uma eleição para o Planalto) antes que o Ministério Público apresentasse denúncia contra o ex-governador, o que é motivo de críticas com relação à seletividade e parcialidade da Promotoria estadual e do Ministério Público Federal com relação aos tucanos, especialmente em São Paulo, Estado governado pelo partido por 23 dos últimos 25 anos. A oposição sempre afirmou que havia uma “blindagem” ao partido.

Nas 86 páginas da denúncia constam, além de depoimentos de delatores, planilhas do sistema Drousys e MyWeb Day 2, utilizados pela Odebrecht para controlar o pagamento de propinas. Em algumas delas são sublinhados apelidos que seriam atribuídos a Alckmin e a seus assessores e tesoureiros de campanha, mas não existe menção alguma a contas bancárias em nome do tucano nem extratos bancários ligando os pagamentos a ele. Para os promotores, no entanto, “há uma correlação lógica e objetivamente racional entre a solicitação, o recebimento e o pagamento da vantagem indevida para Geraldo Alckmin”.

O ex-governador saiu dos holofotes e da vida política após a derrota acachapante no pleito de 2018, no qual nem sequer foi ao segundo turno e teve a pior votação da história do PSDB em eleições nacionais dos últimos anos. O fracasso nas urnas também marcou seu rompimento com João Doria, de quem foi padrinho político, a quem acusou de tê-lo traído ao endossar a campanha de Jair Bolsonaro. Após ser eleito para o Palácio dos Bandeirantes, Doria assumiu o papel de renovação do partido e cunhou o termo “novo PSDB”, em oposição ao velho, de Aécio Neves, Serra e Alckmin.

Atualmente Alckmin vinha fazendo participações em programas televisivos focados em saúde —ele é médico de formação—, mas iria coordenar o plano de Governo e a campanha do prefeito Bruno Covas, que disputará as eleições municipais deste ano. Covas anunciou nesta quinta-feira que o ex-governador pediu para se afastar dessas iniciativas para que pudesse cuidar de sua defesa. “Acredito na inocência de Alckmin”, disse o prefeito. A denúncia tem potencial de tornar o ex-governador tóxico para os candidatos do PSDB no pleito e afastá-lo de vez da política.

Segundo o MP, os recursos recebido por Alckmin “não foram registrados nas prestações de contas do candidato, que solicitou e recebeu vantagem indevida, paga pelo setor de operações estruturadas da Odebrecht a partir do emprego de métodos ilícitos como uso de ‘doleiros’, com o fim de ocultar a origem dos valores e dificultar a possibilidade de seu rastreio”, diz trecho da denúncia obtida pelo jornal O Estado de S. Paulo. Este departamento da empreiteira ficou conhecido como o setor de propinas. Além do ex-governador, foram foram denunciados o ex-tesoureiro do PSDB Marcos Monteiro, que teria intermediado os repasses em 2014, e um ex-assessor de Alckmin. O responsável por articular os pagamentos em 2010 seria, de acordo com a Promotoria, Adhemar César Ribeiro, cunhado do ex-governador, que não foi alvo de acusação por ter mais de 70 anos, logo os possíveis crimes cometidos por ele estariam prescritos.

Em nota, a defesa de Alckmin informou que “lamenta a denúncia oferecida” e diz que o ex-governador “jamais foi procurado pelas autoridades policiais para se manifestar a respeito dos fatos”. Ainda segundo o texto, “as apressadas conclusões do inquérito são infundadas e não encontram suporte nos fatos. Por isso, confiante na Justiça, responderá aos termos da denúncia, seguro de que não praticou qualquer ilícito, até porque nunca recebeu valores a título de contribuição de campanha eleitoral que não tenham sido devidamente declarados. Nem, tampouco, praticou qualquer ato de corrupção durante mais de 40 anos de vida pública”.

O presidente do diretório estadual do PSDB, Marco Vinholi, endossou o argumento da defesa de Alckmin: “Em seus mais de 40 anos de vida pública, Alckmin manteve uma postura de retidão e respeito à lei sem jamais abrir mão dos princípios éticos e de seu compromisso em servir ao setor público e ao cidadão. Acreditamos na Justiça e temos convicção de que, ao final do processo, os fatos serão devidamente esclarecidos”.

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