Pandemia de coronavírus

Cem dias de solidão em meio à pandemia

Moradores de São Paulo relatam os efeitos da interrupção da vida social ocasionada pela covid-19. Distúrbios no sono, falta ou excesso de apetite e pouco interesse em fazer as coisas se tornaram comuns no isolamento, aponta pesquisa do Ministério da Saúde

O viaduto de Santa Efigênia, em São Paulo, no início do confinamento.
O viaduto de Santa Efigênia, em São Paulo, no início do confinamento.Toni Pires

Já se passaram cem dias desde que o designer Paulo Sampaio, de 33 anos, viu sua vida mudar abruptamente. De uma última saída livre no final de semana para uma caminhada no parque Ibirapuera, que acabou em um boteco, passou ao isolamento abrupto dentro de casa. Era a nova realidade imposta pela pandemia do novo coronavírus, que dava os primeiros sinais de alarme no Brasil. Na segunda seguinte, 16 de março, escolas começavam a fechar em São Paulo. Atividades culturais também eram interrompidas, em meio a uma série de medidas que visavam desacelerar o contágio em massa para assegurar que a rede de saúde não entrasse em colapso. Como muitos paulistanos, Sampaio aderiu ao home office e só passou a sair de casa para atividades essenciais. Viveu o primeiro mês relativamente tranquilo. Mas logo o tempo começou a pesar. O sono parou de vir e levantar da cama virou uma tarefa árdua.

Estavam ali os sinais de que sua saúde mental já pedia ajuda, algo por que muitos outros brasileiros têm passado, segundo um levantamento do Ministério da Saúde. A pesquisa, realizada por telefone entre 25 de abril e 5 de maio com 2.007 pessoas de todas as regiões, apontou que 89% dos brasileiros adultos afirmam ter aderido ao isolamento. E quatro em cada dez pessoas apresentaram problemas com o sono ou declararam pouco interesse em fazer as coisas durante a pandemia.

Sampaio se reconhece nas estatísticas. Neste período, viu amigos serem demitidos diante da crise econômica deflagrada com a paralisação das atividades, perdeu um avô para a doença e sentiu que o contato online com amigos e familiares já não supriria com a mesma força as relações sociais com as quais estava acostumado. O passar dos meses o levou a duvidar da máxima que repetia frequentemente aos amigos: “Logo tudo isso vai passar”. “Eu sempre dizia isso, mas agora não sei quando e se a normalidade que eu achava que era satisfatória vai voltar. Quando vamos poder cumprimentar os amigos com um abraço?”, se questiona, ainda que não tenha dúvidas sobre a necessidade de continuar cumprindo as medidas de distanciamento.

O desânimo e a dificuldade para levantar da cama todas as manhãs logo interferiram em sua atividade profissional. “Fiquei com bloqueios criativos que afetaram meu trabalho e criaram uma cadeia de problemas”, conta. Os chefes perceberam e o procuraram para entender o que estava acontecendo. Com o apoio de colegas do trabalho, decidiu começar a terapia para enfrentar o “novo normal” imposto pela pandemia. “Há poucos dias, busquei ajuda profissional porque as coisas foram mudando muito. Comecei a me preocupar de estar com algum transtorno psicológico mais grave e não conseguir voltar sozinho”, conta. Sampaio segue trabalhando de casa e agora tenta lidar com a tela em branco que lhe toma a mente quando pensa num futuro próximo. “A normalidade é que a gente não tem mais prazo [para voltar ao normal]. Eu me sinto meio zumbi muitas vezes. Tenho uma sensação de painel em branco na minha mente.”

Os efeitos colaterais da necessária quarentena durante a pandemia também chegaram à casa da socióloga Teresa Maia. O estudo do Ministério da Saúde aponta que o público feminino aderiu mais ao isolamento social ―91,6% das mulheres disseram ter saído de casa apenas para atividades essenciais nas duas semanas anteriores às entrevistas, enquanto esse percentual foi de 86,3% dos homens. Na casa de Teresa, a quarentena afetou também o marido e o filho, de cinco anos de idade. A criança apresentava crises de choro no primeiro mês de isolamento, e os pais organizaram frequentes reuniões online com os amigos dele e familiares para ajudá-lo a enfrentar o isolamento. A ideia surtiu efeito, e logo as crises de choro passaram. Mas não tem sido fácil para Teresa lidar com a sobrecarga de trabalho doméstico e profissional.

“Tem uma flexibilização de horário no home office que muda tudo. Se a gente já sentia que tinha que estar muito disponível no whatsapp antes, a pandemia transformou qualquer hora em horário de trabalho”, conta Teresa. Parar de trabalhar mais tarde mudou os hábitos de toda a família, que agora dorme mais tarde. Teresa diz que o sono começou a ficar irregular nas primeiras semanas de quarentena, mas só recentemente passou a sentir palpitações e sintomas de ansiedade. Ela não procurou assistência psicológica, mas o acordo com o companheiro é falar muito sobre o que estão sentindo durante o isolamento para tentar levar o “novo normal” de uma maneira mais leve.

Há cerca de 100 dias, a família dela está em isolamento. Teresa ainda chegou a participar de um projeto de distribuição de alimentos no primeiro mês, mas há mais de um mês não saia de casa nem para ir ao mercado, uma tarefa que ao longo da pandemia vem sendo feita pelo companheiro. “A gente sente falta do sol, do vento, da convivência com a natureza”, diz. Depois de muitos pedidos do filho para dar uma volta de bicicleta em uma pracinha perto de sua casa, em São Paulo, Teresa decidiu permitir o passeio rápido na semana passada. Uma atitude que, segundo ela, seria inimaginável há um mês, mas que vem de uma influência do relaxamento da quarentena em São Paulo. “Não concordo com a flexibilização da quarentena pelo que vejo dos dados e casos subindo, mas isso [a decisão do Governo] tem uma influência. Não sei explicar”. Ela diz que o passeio durou cerca de uma hora, e a família escolheu um horário em que a praça estava mais vazia e usou máscaras e álcool em gel. São cuidados que Teresa não vê como abandonar em curto prazo e que não são seguidos pela maioria da população, apesar da gravidade da pandemia no país.

O estudo do Ministério da Saúde aponta que apenas 37% dos brasileiros cumprem as medidas ideais de prevenção ao coronavírus. A pasta considerou nesse cálculo aqueles que disseram ter estado em isolamento social duas semanas antes da entrevista para o estudo, ter mantido o distanciamento de pessoas com sintomas da doença, ter realizado higiene regular das mãos e de objetos de uso frequente, ter adotado práticas complementares de higiene (como trocar roupas e sapatos ao chegar em casa e não compartilhar objetos de uso pessoal), ter evitado tocar o rosto e ter coberto o nariz com o cotovelo ao espirrar. “Tendo em vista que 37,5% da população adulta no Brasil referiu a realização simultânea das práticas citadas anteriormente, e considerando o cenário atual da pandemia, recomenda-se reforçar a orientação a população das medidas de proteção”, destaca o Ministério da Saúde.

Esses são cuidados que têm sido seguidos à risca pelo estudante universitário Yuri Diniz Arnaut, de 22 anos. Depois que foi decretada a quarentena, ele deixou a capital paulista ―onde cursa Educação Física― e foi para a casa da família em São Vicente, na Baixada Santista. Adotou todas as medidas de prevenção porque cuida do pai, de 65 anos, que está no grupo de risco da covid-19 pela idade. Se no começo da pandemia ele sentia ansiedade e crises de pânico pelo medo de contrair o novo coronavírus, agora tem os mesmos sintomas, mas por conta do sentimento de improdutividade. “Os sentimentos continuam os mesmos, mas acho que mudou o que causava esse sentimento”, afirma. Ele diz não ter procurado assistência psicológica por questões financeiras e por falta de vontade. Tem tentado desconectar-se das redes sociais por se sentir mais pressionado a produzir e pelo desânimo de ver pessoas furando a quarentena num momento grave como este. “O que tem me ajudado a enfrentar isso são os grupos de whatsapp dos amigos”, diz.

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