Pandemia de coronavírus

Brasília relaxa quarentena enquanto vizinha Ceilândia multiplica por 9 as mortes por coronavírus

Explosão de casos em Ceilândia acende alerta no governo Ibaneis Rocha, que decidiu reabrir shoppings em 27 de maio

Fila para entrar em lotérica em Ceilândia, cidade satélite do DF que viu disparar número de casos de coronavírus.
Fila para entrar em lotérica em Ceilândia, cidade satélite do DF que viu disparar número de casos de coronavírus.CADU GOMES

O pico da pandemia de coronavírus deve chegar na capital do país apenas em meados de julho. Antes disso, o governo Ibaneis Rocha (MDB) já iniciou uma fase de abre e fecha que pode interferir na proliferação da doença. Talvez o exemplo mais emblemático dessa política seja o de Ceilândia, localizada a cerca de 30 quilômetros da Praça dos Três Poderes, coração do poder político da capital brasileira. É a cidade satélite de Brasília mais populosa, tem quase 500.000 moradores, um a cada cinco dos que vivem no Distrito Federal.

Depois que, no período de um mês, a região administrativa multiplicou por 9,6 o número de mortos por covid-19 e por 24,5 o de infectados, a gestão distrital decidiu restringir novamente a abertura do comércio, clubes, igrejas e parques. No início de maio, Ceilândia tinha registrado 6 óbitos e 102 casos. Nessa tarde desta sexta-feira (12), já eram 58 mortes e 2.501 registros de infectados. Em todo DF foram 20.684 casos e 275 óbitos. A taxa de casos confirmados por 100.000 habitantes em Ceilândia é de 717, enquanto que a do Brasil é em torno de 350.

Ceilândia foi um dos primeiros lugares frequentados pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido), no fim de março, quando ele iniciou seus “coronatours”, termo que opositores cunharam aos passeios presidenciais em um momento em que a orientação é o de isolamento social para evitar a propagação do vírus. Naquela ocasião, a simples presença do presidente resultou em aglomerações. Ele tirou fotos com simpatizantes e conversou com vendedores ambulantes.

“Em Ceilândia nunca houve distanciamento social, não percebi uma grande redução na circulação de pessoas nas ruas. Supermercados não controlam o fluxo de pessoas e várias lojas abrem, mesmo quando tudo está proibido”, relatou o biólogo Flávio Rosas, morador da região.

De fato, na quarta-feira, a pedido do EL PAÍS, o repórter fotográfico Cadu Gomes circulou pela cidade. Naquele dia, ainda estava em vigência o decreto do governador que limitava o funcionamento dos estabelecimentos comerciais. Nos registros feitos pelo repórter é possível notar aglomeração de pessoas em frente às agências bancárias e lotéricas, camelôs trabalhando livremente e lojas de roupas infantis funcionando com as portas entreabertas. Igrejas e boa parte das lojas da estava fechada.

O Distrito Federal foi a primeira das 27 unidades federativas a decretar quarentena no país, na primeira quinzena de março. Foram proibidos de fechar os serviços que não eram considerados essenciais, ou seja, quase tudo. Escolas, academias, salões de beleza, lojas, shoppings e outros centros comerciais, restaurantes e bares (menos para entrega), clubes, botares, museus, cinemas e teatros fecharam suas portas sem uma previsão clara de quando ocorreria a reabertura.

De alvo de críticas de Bolsonaro, o governador Ibaneis Rocha voltou a ser considerado um aliado. Participou de entrevistas no Palácio do Planalto e se vendeu como um potencial exemplo para quem defendia a reabertura do comércio. Em abril, em entrevista ao EL PAÍS, fez uma projeção que não se confirmou: que o pico ocorreria até o início de maio. Também disse que o então ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, tinha sido demitido tardiamente.

Nas últimas duas semanas, o governador tem adotado posturas que agradam ao Palácio do Planalto. Em 27 de maio autorizou a reabertura de shoppings e de todo o comércio. Contrariando parte dos técnicos da Saúde que indicaram manter os fechamentos parciais até o fim de julho, conforme apurou a reportagem. Nesse meio tempo, Ibaneis irá avaliar caso a caso. O decreto que voltou a limitar as atividades de Ceilândia, e de outras duas regiões administrativas (Sol Nascente e Estrutural), não foi prorrogado e não há previsão para que seja, por enquanto. O Governo espera contar com o “bom senso” da população ao instalar painéis pela cidade pedindo que os moradores fiquem em casa e relatando quantos óbitos foram registrados em cada região. As ruas, contudo, permanecem movimentadas.

No Plano Piloto, onde moram cerca de 220.000 pessoas e há uma taxa de 718,2 contaminações por grupo de 100.000 habitantes, o governador decidiu reabrir duas áreas destinadas à recreação da população nos domingos e feriados o Eixão do Lazer e a W3 Sul do Lazer. São longas avenidas que acabam sendo fechadas para veículos nessas datas e onde a população pratica esportes ou se reúne para participarem de atividades musicais.

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