Pandemia de coronavírus

Quando “a fome é muito grande”, mas a procura para ajudar também

Voluntários arregaçam as mangas para dar conta de uma demanda crescente por alimentos na capital de São Paulo

Franciscano organzia as marmitas que serão distribuídas para a população de rua em São Paulo. / SEFRAS
Franciscano organzia as marmitas que serão distribuídas para a população de rua em São Paulo. / SEFRAS

Todos os dias, uma enorme fila se forma ao redor de uma tenda montada em frente ao Largo São Francisco, no centro de São Paulo. Ali, moradores de rua e pessoas vulneráveis aguardam para receber uma das 1.300 marmitas distribuídas no horário do almoço. No jantar, a mesma cena se repete e outras 1.300 quentinhas são entregues por voluntários da Associação Franciscana de Solidariedade (Sefras). Antes do coronavírus, nosso novo marco temporal para os dias de hoje, a Sefras distribuía em sua sede 300 almoços e 300 chás da tarde no projeto chamado Chá do Padre. Depois da pandemia, não foram só os números de casos confirmados ou de óbitos que cresceram exponencialmente na capital que é o epicentro dessa crise. “Nosso público cresceu absurdamente”, explica o frei Marx Rodrigues dos Reis, diretor secretário do Sefras. “Tivemos que abrir novos espaços para ampliar o atendimento.”

A tenda do Largo São Francisco foi então aberta. E junto com a demanda cresceu também a oferta de doações e trabalho. O número de parceiros, voluntários e doadores que procuraram a entidade para ajudar cresceu, extrapolando até mesmo a estrutura da entidade. “Descobrimos que éramos capazes de conseguir mais do que o que nosso território demandava, que são as 2.600 refeições diárias da tenda”, diz Frei Marx. “Começamos então a pensar em fazer parcerias com outros grupos que têm atividades semelhantes à nossa, como a Casa de Oração do Povo de Rua, que atende na cracolândia, além do atendimento a moradores que vivem em locais como debaixo de viadutos”.

O resultado, até o momento, é um alento em tempos de más notícias. Do final de março para cá, quase 70 toneladas de alimentos e 80.455 marmitas prontas foram enviadas por doadores voluntários. A empresária Gabriela Spinardi, dona de um bufê, faz parte dos atuais 106 parceiros dos franciscanos que contribuem com essas refeições. Todos os dias ela leva 50 marmitas até a tenda, que se somam às demais enviadas pelos outros voluntários. “Quando comecei a distribuir as quentinhas, logo no começo da pandemia, foi na região da Ceagesp [zona oeste de São Paulo]. E foi muito difícil”, conta ela. “Um senhor recebeu a marmita, nos olhou e disse ‘obrigado por trazer comida. Ninguém olha para a gente'. Aquilo foi muito doído".

Mas com o passar dos dias, ela começou a perceber que quando chegava ao local, alguém já tinha passado por ali e distribuído refeições aos moradores. Era hora de procurar outras barrigas para alimentar. E foi aí que ela foi atrás dos franciscanos e passou a levar suas marmitas para a tenda no centro da cidade.

A corrente de solidariedade foi então sendo formada em todas as escalas. “Recebi uma doação grande da Associação Paulista de Supermercados (APAS), que é meu cliente”, conta Gabriela. “Eles tinham uma verba para comprar ovo de Páscoa para os funcionários e como não usaram doaram para mim. Com isso, no fim de semana de Páscoa distribuímos um monte de marmitas”. Além das doações, uma amiga se voluntariou para ajudar na cozinha e o açougueiro deu um desconto para a compra das carnes.

A ajuda em cascata recebida pelos franciscanos por pessoas como Gabriela alimentou mais de 100.000 pessoas no último mês, e se reverberou para outras frentes de apoio, como a distribuição de cestas básicas, outra imensa demanda. “No dia em que iniciamos o cadastro para o recebimento das cestas básicas fizemos 1.000 inscrições, a fila dobrava a esquina", conta Frei Marx. "E ainda teve gente que saiu revoltada porque não demos contas de fazer tantas inscrições”. Hoje, parte das quase 20.000 cestas já doadas foi enviada até para comunidades do Rio de Janeiro.

Mas, embora a estrutura da Sefras tenha crescido, eles seguem precisando de doações para continuar o trabalho. “A fome é muito grande”, diz Frei Marx. Ele explica que a entidade atualmente precisa de equipamentos de proteção individual (EPIs) para os voluntários, alimentos não perecíveis e dinheiro. Aqui há mais informações sobre como ajudar.

Já quem começou o voluntariado agora diz que este é um caminho sem volta. Gabriela, que antes da pandemia trabalhava com eventos, e depois teve que reorganizar os negócios para a venda de refeições congeladas, reduziu os salários da equipe, pediu desconto no aluguel e hoje fatura 30% do que faturava antes, diz não saber o que vai ser quando a pandemia passar. “Não sei o que vai ser do meu negócio”, diz. Mas perguntada se pretende continuar distribuindo refeições mesmo após a pandemia, não titubeia. “Acho difícil que eu pare”.

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