Piñera acusa governos e instituições do exterior de influenciarem protestos no Chile

Presidente motiva uma onda de críticas em seu país ao afirmar que alguns vídeos que mostram violações dos direitos humanos "foram filmados fora do Chile"

O presidente Sebastián Piñera faz um pronunciamento no palácio de La Moneda, em Santiago, em 23 de dezembro.
O presidente Sebastián Piñera faz um pronunciamento no palácio de La Moneda, em Santiago, em 23 de dezembro.Marcelo Hernandez / Getty Images

O presidente do Chile, Sebastián Piñera, insiste na tese de que uma intervenção estrangeira influenciou a eclosão social chilena, que explodiu em 18 de outubro reivindicando melhores serviços sociais, como saúde e educação. Numa entrevista à emissora CNN en Español, o mandatário afirmou que “a campanha de desinformação, de notícias falsas, de montagens para criar uma sensação de desordem e de uma crise total foi gigantesca (...), e nisso houve, sem dúvida, participação de Governos e instituições estrangeiras”. Convidado a citar um exemplo, o presidente apontou vídeos relacionados a violações dos direitos humanos “divulgados profusamente nos meios de comunicação chilenos e também estrangeiros”, mas que, segundo ele, “não correspondem à realidade”. “Há muitos deles que são falsos, que são filmados fora do Chile ou que são deturpados”, acrescentou.

As declarações da Piñera ao canal norte-americano geraram uma ampla repercussão no Chile. Uma parte da entrevista já tinha sido transmitida em 15 de dezembro, mas a íntegra só foi ao ar no último dia 22. Críticos entenderam que o chefe de Estado estava relativizando as violações dos direitos humanos durante as manifestações, que foram relatadas por diversos organismos internacionais. Enquanto isso, o procurador-geral Jorge Abott informou nesta quinta que o Ministério Público, ao analisar as imagens, não encontrou situações como as denunciadas pelo presidente sobre vídeos gravados fora do Chile.

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Karla Rubilar, porta-voz da presidência, compareceu perante jornalistas à tarde para explicar as palavras de Piñera: “Temos algumas imagens e vídeos que são de países como a Bolívia e a Colômbia, que são enfrentamentos que eles têm com a polícia de lá e que alguém pode reconhecer pelos uniformes, e que foram desmentidos pelos próprios Carabineiros [polícia do Chile]”, disse a ministra. Para Rubilar, entretanto, o presidente “reconhece os abusos, os excessos, os delitos e violações que infelizmente ocorreram durante estes meses, que nos doem, e esperamos que efetivamente sejam investigados como se deve”.

Foi tanta a pressão que na noite de quinta o próprio presidente, através de um vídeo no Twitter, explicou sua fala: “Ao me referir a certas fake news numa entrevista à CNN, não me expressei em forma suficientemente precisa, provocando interpretações que não representam meu pensamento”, afirmou Piñera. “As violações aos direitos humanos devem ser condenadas sempre, por todos e sob qualquer circunstância, sem nunca tolerar a impunidade.”.

Os excessos policiais no Chile durante os protestos foram denunciadas por diversos organismos internacionais, como a ONG Human Rights Watch (HRW) e o Alto Comissariado de Direitos Humanos das Nações Unidas, que emitiu um relatório apontando “violações graves” dos direitos humanos durante as manifestações. Ao longo das últimas 10 semanas, o Instituto Nacional de Direitos Humanos (INDH) contabilizou 3.557 feridos —sendo 359 com lesões oculares— e 943 ações judiciais apresentadas perante os tribunais por crimes como torturas, maus tratos e violência sexual. De acordo com os dados oficiais, 3.157 agentes do Estado sofreram lesões, e 21.111 pessoas foram detidas (sem considerar as levadas por desrespeitarem o toque de recolher) das quais 1.615 se encontram sob prisão preventiva.

Em meio à maior crise das últimas décadas no Chile, as intervenções do mandatário complicam ainda mais a situação política de seu Governo. Logo depois do início dos protestos, por exemplo, ele afirmou que o Chile estava “em guerra” contra um inimigo poderoso e disposto a usar a violência sem nenhum limite. Em novembro, numa entrevista ao EL PAÍS, Piñera se referiu a uma suposta ingerência estrangeira na eclosão social e sobre a ação de agentes de regimes contrários ao seu Governo. “Não descarto nada”, afirmou Piñera, que agora tem 11% de aprovação e 82% de rejeição, segundo a última pesquisa da empresa CADEM. Nesta quinta-feira, acompanhando em Valparaíso o combate aos incêndios que afetaram a cidade, cidadãos se reuniram em frente à sede do Governo regional para protestar contra sua presença.

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