Bolsonaro assina tímidos acordos com a China e Guedes fala de livre comércio

Apenas dois de nove atos firmados com Xi Jinping devem resultar em investimentos imediatos e abordam a comercialização de pera e melão

Xi e Bolsonaro em encontro no Itamaraty.
Xi e Bolsonaro em encontro no Itamaraty.ADRIANO MACHADO (REUTERS)

De um lado, os discursos: o presidente Jair Bolsonaro fala em aumentar as vendas de produtos brasileiros para a China, o maior parceiro comercial do Brasil enquanto o ministro da Economia, Paulo Guedes, diz que negocia um acordo de livre comércio com o gigante asiático. De outro, os resultados concretos até agora: a exportação de produtos brasileiros para os chineses caiu 9,9% neste ano em comparação com o ano passado e a importação manteve-se quase estável, com crescimento de 0,73%. Em meio a esses dois mundos, e na esteira da Cúpula dos BRICS em Brasília, as duas nações firmaram um tímido acordo comercial que nem sequer foi detalhado nos discursos oficiais.

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O pacto foi dos nove atos assinados nesta quarta-feira entre o presidente Bolsonaro e seu homológo Xi Jinping em reunião bilateral. Do conjunto, apenas dois tratam diretamente de investimentos financeiros. Um detalha como será a exportação da pera chinesa para o Brasil. E outro aborda como os produtores brasileiros exportarão melão para a China. Os demais tratam de transferência de pessoas condenadas e memorandos de entendimento, que são um pacote de intenções que o Governo pretende ver concretizado.

“Não há nada substancial nesses acordos comerciais. O Brasil assinou um acordo apenas para não sair com as mãos vazias”, afirmou o deputado Daniel Almeida (PCdoB-BA), presidente do grupo parlamentar Brasil-China e opositor de Bolsonaro. Um assunto que nos últimos três anos sumiu da pauta de discussões entre os dois paíse —e não foi retomado dessa vez— é a ferrovia que os chineses anunciaram que financiariam entre o Brasil e o Peru, como uma rota de acesso ao Oceano Pacífico.

Acordo de livre comércio visto com ceticismo

Enquanto Bolsonaro assinava os documentos com o colega chinês, Paulo Guedes dizia em uma palestra que os dois governos tratavam da área de livre comércio. “Estamos conversando sobre a possibilidade de criarmos o free trade área também com a China, ao mesmo tempo em que falamos de entrar na OCDE”. A fala ocorreu no seminário do Novo Banco de Desenvolvimento do BRICS.

O ministro se mostrou empolgado com a possibilidade, ainda que, em um primeiro momento, o mercado brasileiro seja inundado de produtos industrializados ou manufaturados chineses e que o Brasil se mantenha como fornecedor de commodities. Os dados do Ministério da Economia mostram que 72% (ou 3,7 bilhões de dólares) dos produtos brasileiros exportados para a China são compostos por soja, minérios e petróleo. Enquanto que os principais itens importados são manufaturados, aparelhos transmissores e maquinários, são 32% do que é importado, ou 10,2 bilhões de dólares.

“Não me incomodo se, em uma situação de superávit com a China, nós nos equilibrarmos ali à frente, aumentando as exportações em 50% e as importações dobrando ou mesmo triplicando. O que nós queremos é mais integração”, afirmou Paulo Guedes.

Internamente, no Ministério da Economia, a hipótese de área de livre comércio com os chineses é vista com ceticismo. “É uma conversa que ainda está em estágio inicial. Não tem nada certo, ainda. Tudo muito longe de qualquer conclusão”, afirmou uma fonte que participa dos diálogos com os chineses.

O opositor Almeida criticou um eventual acordo. “As economias do Brasil e da China são complementares, mas há uma assimetria muito grande. O nível tecnológico da China está muito a frente. Falar em livre comércio entre desiguais no deixa preocupados”, avaliou.

Durante o encerramento do fórum empresarial, Xi Jinping afirmou que 30% do crescimento da economia internacional se deve ao seu país e reforçou que pretende atuar cada vez mais em uma economia aberta. “Queremos abrir a nossa economia, aumentar as nossas exportações e importações”. Ainda convidou os países a se inserirem no megaprojeto de investimento em infraestrutura global batizado de “Um cinturão, uma rota”, por meio do qual a china investe em pontes, portos e ferrovias em dezenas de países. Até o momento, o Brasil não apresentou projetos para serem financiados por essa nova rota da seda.

Tanto Xi quanto o presidente da Rússia, Vladimir Putin, criticaram o protecionismo comercial que tem dominado boa parte das conversas na área internacional —protecionismo que aumentou durante o governo do norte-americano Donald Trump e deu início a uma guerra comercial entre Estados Unidos e China. Os mandatários russo e chinês devem retomar a essa pauta na reunião de coletiva de mandatários nesta quinta-feira, segundo e último dia da Cúpula dos BRICS em Brasília.