Crise política na Bolívia

Bolsonaro ironiza Evo Morales, mas teme efeitos da crise boliviana

Vazio político instaurado na Bolívia pode criar tensão na fronteira e fazer escalar instabilidade na região. País renegocia com vizinho estratégico acordo de importação de gás que expira em dezembro

Presidente Jair Bolsonaro em evento no Palácio do Planalto.
Presidente Jair Bolsonaro em evento no Palácio do Planalto.UESLEI MARCELINO (REUTERS)

O presidente Jair Bolsonaro ironizou a decisão de Evo Morales de deixar o país andino e se exilar no México, um dia depois de o boliviano renunciar ao poder: "Lá a esquerda tomou conta de novo. Tenho um bom país para ele: Cuba", afirmou o presidente brasileira, em referência ao Governo mexicano de Andrés Manuel López Obrador em frente ao Palácio do Alvorada. No domingo, o presidente brasileiro já tinha escrito uma mensagem irônica nas redes ao usar a expressão "grande dia", seguida de um sinal de joinha, pouco depois do anúncio de renúncia de Morales, que deixou o cargo por pressão do Exército e após dias de protestos intensos. O vice-presidente boliviano e os chefes das duas casas legislativas renunciaram também, deixando a sucessão presidencial em um limbo.

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Apesar da comemoração da queda de um dos governos da ala da esquerda —alvo constante de ataques de Bolsonaro— para as redes e as as câmeras, nos bastidores a informação é que o tema preocupa o Planalto, já que a crise que mergulhou a Bolívia em um vazio político pode criar tensão na fronteira com o Brasil, fazer escalar o clima de instabilidade na região e, dependendo da duração e do desfecho, afetar a estratégica relação comercial entre os dois países, cujo principal eixo é um acordo de importação de gás pelo lado brasileiro (83% do gás que o Brasil importa vem da Bolívia, num cenário que os campos brasileiros só produzem pouco menos de 70% do que o país precisa). Por tudo isso, o melhor é que a situação se estabilize o quanto antes, segundo interlocutores.

Em entrevista ao jornal O Globo, Bolsonaro afirmou não considerar que Morales tenha sofrido um golpe. Para ele, as denúncias de fraudes nas eleições culminaram na renúncia do boliviano. "A palavra golpe é usada muito quando a esquerda perde, né?", disse. O presidente brasileiro explicou ainda que o sistema de votação atual "não serve" e que a Bolívia é um sinal para que o Brasil adote um sistema seguro. Em um tom um pouco mais cauteloso, Bolsonaro ressaltou que "não é bom acontecer esse tipo de movimento". "Eu sei que lá foi contra a esquerda, mas a gente não quer nem contra a esquerda nem contra a direita. A gente quer que, acabou, tem dúvida, vai lá e conta, abre a urna lá, o voto impresso e conta", disse.

Reunião na OEA e pragmatismo

Por enquanto, a tônica do Governo sobre a crise instaurada no país andino parece ser essa: observação atenta, mas sem maior envolvimento, à diferença de crises anteriores, quando o país era chamado a mediar o conflito diretamente. O chanceler brasileiro, Ernesto Araújo, disse que o Brasil apoiará uma "transição democrática e constitucional" e que a "narrativa de golpe só serve para incitar violência". O Itamaraty também afirmou que já tinha solicitado uma reunião antes mesmo da renúncia de Morales com a Organização dos Estados Americanos (OEA) para examinar as conclusões da auditoria realizada pelo órgão a respeito das eleições. Outros países, como a Colômbia do Governo conservador de Ivan Duque, se somaram ao pedido de uma reunião emergencial após a renúncia do boliviano. O encontro deve acontecer na sede em Washington nesta terça-feira.

"A posição do presidente é clara, mas o que importa do ponto vista político-diplomático são as ações do Brasil. E acho que o país não vai tomar nenhuma outra ação além de apoiar o relatório da OEA e pedir novas eleições", explica Rubens Barbosa, ex-embaixador brasileiro em Washington. Para Barbosa, o país deve se preocupar quanto a possíveis distúrbios na fronteira.

Em um dos limites dos dois países, em Corumbá, a 415 km de Campo Grande, a passagem está fechada há mais de 20 dias. Uma greve geral de manifestantes contrários ao ex-presidente é mantida no local. "Como é um país com uma fronteira importante e grande é sempre complicado. Acho que estão preocupados, mas a situação ainda não saiu do controle", diz Barbosa.

Outro receio quanto à crise instaurada na Bolívia é que ela afete de alguma maneira a relação comercial entre os dois países, principalmente no mercado de gás natural. Atualmente o Governo brasileiro tenta renegociar o contrato de importação do gás boliviano, por meio do Gasoduto Brasil-Bolívia, para diminuir o preço do combustível. Em tese, o contrato atual, que obriga a Petrobras a comprar uma cota mínima de produção boliviana expira em dezembro. Apesar de o Brasil ter diminuído sua fonte de dependência do produto do vizinho, ainda assim é de lá que vem mais de 80% do importante em gás natural. "Se a Bolívia parar de fornecer gás por um dia a gente para a Av. Paulista. A nossa indústria depende profundamente do gás natural que vem de lá", explica o professor de Política Internacional da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Dawisson Lopes.

Para além das implicações econômicas, Lopes ressalta que o momento que atravessa o país andino é muito relevante para os rumos da política da América Latina. "Há dois campos medindo força na região. Antes da renúncia de Morales, os movimentos pareciam indicar que o campo da esquerda estava conseguindo recuperar terreno perdido e me refiro a Alberto Fernandez, na Argentina, e a libertação do ex-presidente Lula no Brasil. Tinha um clima favorável a esse campo da esquerda, mas essa onda foi interrompida no domingo", explica.

A situação da Bolívia virou uma espécie de totem do que é a situação institucional da América Latina, na opinião de Dawisson. "Quando as pessoas começam a ir frequentemente para rua é sinal que há um descolamento entre sociedade e política institucional, economia e política institucional, e eu acho que a questão institucional voltou para a pauta".

Apesar de formar parte do grupo de políticos de esquerda na América Latina, fortemente criticado pelo clã bolsonarista, o ex-mandatário boliviano mantinha uma boa relação pragmática com o presidente brasileiro e, em janeiro, compareceu à posse de Bolsonaro em Brasília. Antes, o boliviano já havia se aproximado de Michel Temer, mesmo tendo feito críticas ao impeachment.  "Evo Morales é famoso internacionalmente não apenas porque ficou 13 anos no poder, mas porque fez diplomacia presidencial como nenhum outro da região. Ele se encontrava com líderes tão diferentes como Bolsonaro e Maduro. Sua capacidade diplomática era invejável", ressalta Dawisson.

A relação com o presidente brasileiro só azedou durante a crise das queimadas na Amazônia, quando Bolsonaro atacou o país andino e afirmou que era na Bolívia, e não no Brasil, onde estavam se espalhando os incêndios florestais.

Na avaliação do professor da UFMG, ainda é cedo para fazer prognósticos sobre o futuro da Bolívia e sua relação com o Brasil. Mas sua maior aposta é de que a direita irá assumir o poder no pós-Evo Morales. "Algum candidato que tenha a simpatia das forças armadas deve assumir e Bolsonaro vai apoiar esse candidato", sugere.