A Bolívia como sintoma

Renúncia de Evo Morales é reflexo do esgotamento de um modelo e ao mesmo tempo a preocupante demostração de que o poder na América Latina ainda depende dos militares

Manifestantes festejam renúncia de Morales.
Manifestantes festejam renúncia de Morales.Martin Alipaz / EFE

A Bolívia se converteu em um símbolo neste domingo. A renúncia de Evo Morales é sintoma do esgotamento de um modelo que tinha ocasionado uma forte contestação social e, ao mesmo tempo, a preocupante demonstração de que o poder na América Latina depende ainda hoje das Forças Armadas. A grave convulsão que o país vem atravessando desde as eleições de 20 de outubro segue dinâmicas próprias, é um reflexo de sua história recente, mas, ao mesmo tempo, a transcende. O que aconteceu afeta os valores da democracia, de um lado e do outro, pois nesse processo estavam em jogo um estilo de governo, mas também o exercício de uma oposição responsável.

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O presidente concordou em convocar novas eleições, sem definir uma data, com as quais buscava reduzir a escalada de tensão e violência desencadeada pelo resultado das eleições, que lhe deram uma vitória no primeiro turno em meio a acusações de fraude. Fez isso porque não tinha alternativa, logo depois de a Organização dos Estados Americanos (OEA) emitir seu veredicto sobre o processo eleitoral, que detecta "irregularidades, que variam de muito graves a indícios".

Os alarmes dispararam logo após o fechamento das urnas, quando o Tribunal Supremo Eleitoral suspendeu o escrutínio eletrônico por 24 horas. Hoje está demonstrado, de acordo com a verificação desse órgão, que o presidente não apenas tentou evitar um segundo turno com Carlos Mesa, o principal candidato da oposição, mas que o aparato do partido governista, o Movimento ao Socialismo (MAS), quebrou as regras mais básicas do jogo.

Além da crise de legitimidade de Morales somou-se o colapso de sua credibilidade e também uma anomalia em um país democrático: a intervenção do Exército. O presidente estava no poder havia quase 14 anos e, apesar de perder em 2016 um referendo sobre a reeleição por tempo indeterminado, voltou a se candidatar após decisões questionadas de um tribunal constitucional e da autoridade eleitoral.

"O comandante-chefe das Forças Armadas foi o último a se somar e mudou a equação"

Nas últimas semanas, tanto o líder indígena como os setores da radicais da oposição aceleraram o conflito. O presidente se entrincheirou e denunciou repetidamente uma tentativa de golpe de Estado, que atribuiu a forças internas e externas. Enquanto isso, os líderes dos protestos semearam o caos nas ruas, rejeitaram qualquer hipótese de diálogo e não ficaram satisfeitos com a convocação de novas eleições, exigindo a renúncia incondicional do Governo. Essa via não teria sido possível se não fosse pelos militares. O comandante-chefe das Forças Armadas foi o último a se somar e mudou a equação.

É um cenário que remete ao fantasma da Venezuela. No entanto, nem Morales é Nicolás Maduro, nem as inquietações na Bolívia, especialmente sua economia, são comparáveis à emergência da Venezuela. Há analogias, sobretudo em nível ideológico, mas também existem diferenças na sua implementação. E o mero fato de que nestas eleições havia uma missão de observação da OEA e que sua auditoria resultou em uma nova convocação eleitoral marca uma distância importante entre os dois Governos, mesmo tendo um projeto semelhante. O que se viu é um sintoma de seu enfraquecimento, do mal-estar social que estimulou, às vezes com violência, e o impulso de uma política do tudo ou nada dentro da oposição, que contribui igualmente para a instabilidade do sistema.

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