Em Curitiba, o fim de 580 dias de vigília por Lula

De 7 de abril de 2018 até esta sexta-feira, manifestantes cumprimentavam petista com um "bom dia", "boa tarde" ou "boa noite, presidente"

Apoiadora do ex-presidente Lula mostra camiseta com os dizeres
Apoiadora do ex-presidente Lula mostra camiseta com os dizeres HENRY MILLEO (AFP)

“Soltem Lula! Soltem Lula!”, gritavam diante da porta do prédio da Polícia Federal, em Curitiba, centenas de pessoas que se amontoaram no local onde o ex-presidente ficou preso por 580 dias em razão de sua condenação por corrupção e lavagem de dinheiro na Operação Lava Jato.

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O resultado do julgamento pelo Supremo Tribunal Federal (STF), na véspera, encheu de esperança seus eleitores, que aguardavam ansiosamente sua saída. Pessoas vindas de várias partes do Brasil se revezavam desde o primeiro dia da prisão de Lula, em 7 de abril de 2018, em vigília voluntária ao redor do prédio. Desde essa data até esta sexta-feira eles o cumprimentavam religiosamente em todos os dias em que Lula permaneceu detido com um "bom dia, presidente", "boa tarde, presidente" ou "boa noite, presidente".

A defesa do ex-presidente entrou nesta sexta-feira com um pedido de soltura imediata, o que foi concedido pelo juiz Danilo Pereira Júnior, da 12ª Vara da Justiça Federal no Paraná. A juíza Carolina Lebbos, que costuma decidir sobre questões de execução penal na Lava Jato, está em férias.

Lula deixou a prisão por volta das 17h40 desta sexta. Tanto como a família, seus eleitores leais eram os mais animados por ver o ex-presidente sair da prisão. Principalmente depois que o petista lhes prometeu que a primeira coisa que faria quando saísse da carceragem da PF seria tomar uma cachaça com eles. Um gesto de gratidão pela disposição que tiveram em dormir em um alojamento ao lado da polícia para que Lula não sentisse solidão.

A assistente social Mirian Krueger, 60 anos, veio de Indaial (SC). Chegou no dia em que Lula foi preso e voltou 50 vezes, nas suas contas. E trouxe centenas de pessoas de sua cidade para visitá-lo à distância. Francisco, um trabalhador rural de Castro, a três horas de Curitiba, esteve aqui quando Lula foi preso e voltou nesta sexta-feira com a expectativa de vê-lo livre. "Ver tantas pessoas na porta da prisão é um sinal de que Lula fez muitas coisas boas pelo Brasil", segundo Francisco. “Ele ajudou muita gente, ajudou o povo, e é por isso que as pessoas têm esse carinho por ele”, disse Francisco.

O STF revisou a jurisprudência que permitia a execução de uma sentença de prisão depois de confirmada em segunda instância – mesmo que nesta fase ainda houvessem recursos pendentes nos tribunais superiores. Com isso, Lula ganhou automaticamente a possibilidade de sair da prisão. Ele está com um recurso no Supremo pedindo a suspeição do ex-juiz Sergio Moro, que julgou o processo do tríplex em um balneário de São Paulo, que resultou na sua condenação a 8 anos de prisão (eram 12 inicialmente).

Enquanto cerca de vinte carros da polícia fechavam a entrada da rua do prédio da polícia, um palco foi montado na esperança de que Lula fizesse ali seu primeiro discurso em liberdade. Curitiba, a cidade fria em que o ex-presidente permaneceu em seus piores dias, vê mais um capítulo dessa odisseia.