O mistério de Elena Ferrante continua fascinando a Itália

Escritora, cuja identidade real continua secreta, lança um novo romance após cinco anos de silêncio, sob uma enorme espera midiática e literária

Imagem das ruas de Nápoles, cidade onde são ambientados os romances de Ferrante.
Imagem das ruas de Nápoles, cidade onde são ambientados os romances de Ferrante.getty images

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Era uma da madrugada quando os jornalistas literários italianos receberam por email um código que serviria para baixar o livro. A ideia era que pudessem preparar de antemão uma resenha do novo romance de Elena Ferrante, a misteriosa autora que estava havia cinco anos sem publicar nada. Seu editor indicava na nota que se tratava de “um romance maravilhoso” – só faltava ele não achar isso – e que se levava entre cinco e seis horas para lê-lo sem pausas. Então a maioria precisou ficar até o amanhecer grudado às 336 páginas do livro digital para descobrir, entre outras coisas, que La Vita Bugiarda degli Adulti (“A vida mentirosa dos adultos”) não tem nada a ver com a tetralogia A Amiga Genial, que vendeu mais de 30 milhões de exemplares no mundo.

Elena Ferrante é o pseudônimo de uma escritora que nunca confirmou sua identidade, mas que várias investigações atribuem a Anita Raja, tradutora da mesma editora que publica seus livros e esposa do escritor napolitano Domenico Starnone, cujo apelido era Nino, como o personagem da saga de Ferrante (Nino Sarratore). Uma investigação jornalística de 2016 seguiu as faturas da editora de Ferrante e concluiu que Raja era quem se ocultava por trás do pseudônimo. Mas isso só serviu para provocar um enorme debate sobre o direito à intimidade e sobre o assédio que a mídia impõe a determinados autores. Os envolvidos jamais se manifestaram para confirmar ou negar a informação.

Independentemente do mistério e do cuidadoso marketing por trás de cada lançamento de Ferrante – só comparável aos Harry Potter de J.K Rowling (há um ardor cego nos fãs de seu universo que também os relaciona) –, a escritora tem seguidores como Hillary Clinton, Nicole Kidman, Jane Campion, Zadie Smith e Jonathan Safran Foer e conseguiu unir a receita perfeita entre entretenimento e uma certa contribuição literária.

Pelo novo livro já não desfilam Lila e Lenu, protagonistas da tetralogia napolitana iniciada por A amiga genial, mas respira-se uma atmosfera parecida. Continua contando com o olhar feminino da protagonista. Giovanna, uma mulher de 40 anos, que conta em primeira pessoa sua história a partir da relação com os pais, dois professores com diferente origem social. O pano de fundo continua sendo Vomero, um dos bairros da parte alta de Nápoles. A trama, como resumiu o Il Corriere della Sera, se concentra em um breve período correspondente à adolescência de Giovanna: dos 12 aos 16 anos. Um período agitado em que sua vida muda e suas certezas se trincam. Os pais modelos, que tinham se amado desde jovens, se separam, dando lugar a um triângulo amoroso que envolve a família de seus melhores amigos e de suas filhas, a quem ela considera como irmãs.

O lançamento é aguardado nas livrarias e os eventos literários como o grande momento do ano. O Salão do Livro de Turim, o mais importante da Itália, sempre dedicou muita atenção a Ferrante. Na noite desta quarta, seu diretor, Nicola Lagioia, organiza um sarau de La Vita Bugiarda degli Adulti em primeira mão, com leitura de um ator e comentários dos leitores. “Sempre nos ocupamos muito de Ferrante do ponto de vista literário. Não nos interessa em nada qual é sua verdadeira identidade. Na literatura importam as obras. Não nos interessam as fofocas domésticas de Shakespeare, e sim que tenha escrito Macbeth e Hamlet”, afirma por telefone.

Lagioia, que conversou em várias ocasiões com Ferrante por email, considera que a tetralogia que fez dela um mito literário “é um romance clássico, que entra na órbita das grandes escritoras italianas como Elsa Morante e Anna Maria Ortese, mas com uma inovação interessante”. “A tetralogia conjuga muito bem a complexidade com a legibilidade. E isso é um desafio que ela lança. Publicar um romance em quatro obras é muito corajoso”, aponta. As livrarias são o melhor termômetro disso, e esperam a partir desta semana uma grande afluência de compradores.