O buraco negro das finanças do Vaticano

O mais recente escândalo financeiro na Santa Sé, que já custou o cargo do chefe de segurança do Papa e atingiu o primeiro-ministro da Itália, provoca outra tempestade interna

O Papa acompanhado por Domenico Giani, então chefe de segurança do Vaticano, em 2015.
O Papa acompanhado por Domenico Giani, então chefe de segurança do Vaticano, em 2015.Alessandro Bianchi (Reuters)

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As finanças do céu costumam ser um atalho para o inferno. Mafiosos, banqueiros enforcados, conspirações, sequestros e outros marcos da crônica policial em torno do dinheiro de Deus confirmam que ninguém é capaz de colocá-las em ordem. Depois de quase sete anos de pontificado de Francisco, os problemas permanecem sem solução: os números estão no vermelho, a Secretaria Econômica continua sem líder −seu responsável, o cardeal George Pell, está preso por abusos sexuais contra menores e não foi substituído− e a bola de neve formada em torno do último escândalo de investimentos em Londres, qualificados pelo próprio secretário de Estado, Pietro Parolin, de “opacos”, trouxe à tona uma guerra suja travada há anos entre diferentes departamentos do Vaticano. A onda de choque atingiu, entre outros, o chefe de segurança do Papa, Domenico Giani (obrigado a renunciar), vários cardeais em torno dos quais foi organizada uma caçada e até o primeiro-ministro italiano, Giuseppe Conte, consultor da operação quando ainda era um advogado. E isso está apenas no começo.

Francisco anunciou no início de seu pontificado que a primeira reforma, embora não fosse sua preferida, seria a econômica. Sete anos depois, a secretaria que ele criou continua sem chefe; o auditor contratado para revisar as contas foi despedido, intimidado e ameaçado de prisão se não saísse do cargo; o vice-diretor do Instituto para as Obras de Religião (IOR), Giulio Mattietti, memória histórica da entidade, viu-se no olho da rua de um dia para o outro, sem poder entrar novamente no escritório, e o Conselho para a Economia, presidido pelo cardeal Reinhard Marx, ainda não foi renovado, apesar de seu mandato ter expirado em fevereiro. A pergunta que quase ninguém é capaz de responder −e nenhum dos entrevistados quer comentar por telefone, temendo que esteja grampeado− é quem está à frente das finanças. “Gostemos ou não, é a maneira que este Papa tem de comandar. Ele funciona assim”, assinala um alto funcionário da cúria.

O núcleo da explosão, que provocou durante a última semana uma insólita troca de acusações entre o secretário de Estado e aquele que foi seu número dois, o carismático cardeal Angelo Becciu (ambos resolveram logo a questão), é desta vez o chamado Óbolo de São Pedro: o instrumento da Santa Sé para recolher as doações do mundo católico (cerca 150 países). Esse instrumento foi formalizado em 1870, quando o papa Pio IX perdeu os Estados Pontifícios e as nações católicas tiveram de contribuir para a sobrevivência do Vaticano: uma parte é destinada à caridade e a outra −hoje de 70%−, a cobrir gastos operacionais e outras despesas não especificadas. Mas a significativa queda da arrecadação nos últimos anos −de 101 milhões de euros (450 milhões de reais) em 2006 para 51 milhões de euros (227 milhões de reais) em 2018− , vinculada aos escândalos de abusos nos EUA e à queda do número de fiéis, convida a aumentar o risco das operações de investimento para fazer as exíguas receitas crescerem. Aqui começou uma situação “muito delicada”, como explica um dos protagonistas.

O Óbolo de São Pedro depende da Secretaria de Estado, que tem cada vez menos atribuições (deixou de controlar a comunicação depois da última reforma) e está permanentemente sujeita a rumores (o último situa seu titular como novo patriarca de Veneza). Depois dos escândalos do IOR, conhecido como Banco do Vaticano, no início dos anos oitenta, com a quebra do Banco Ambrosiano, decidiu-se diminuir o risco dividindo a gestão da receita entre a entidade −cujos rendimentos também caíram pela metade− e a Secretaria de Estado. Pio XII, como recordou Becciu em sua defesa na semana passada, já havia aberto as portas para os investimentos imobiliários. Assim, esse organismo decidiu fazer isso em 2013, inserindo capital em um fundo de investimento que tinha comprado um luxuoso imóvel no bairro londrino de Chelsea.

A vertigem de uma operação da qual participou como consultor o atual primeiro-ministro Conte um mês antes de ser eleito (como publicou o Financial Times), cristalizou no final de 2018, em pleno Brexit. A Secretaria de Estado teve de injetar mais dinheiro −cerca de 150 milhões de dólares (598 milhões de reais), retirados de contas na Suíça− para assumir o edifício completo e não perder um investimento que estava em perigo. O IOR, supostamente alarmado pela quantia elevada, acabou denunciando a situação ao procurador do Vaticano. Este iniciou uma investigação que provocou uma grande psicose entre alguns membros da cúria.

Foram revistadas instalações da Secretaria de Estado e vazados nomes, sobrenomes e fotos dos investigados, entre eles Tommaso Di Ruzza, diretor da Autoridade de Informação Financeira (AIF), o organismo encarregado de prevenir a lavagem de dinheiro no IOR. “Essa é parte do problema. A AIF e o banco estão sempre em disputa. E pode ser que houvesse uma investigação em andamento que eles tenham tentado camuflar com a denúncia”, assinala um alto funcionário do Vaticano que conhece em detalhes as finanças da Santa Sé.

O chefe da polícia do Vaticano −e da segurança pessoal dos três últimos Papas−, Domenico Giani, renunciou após o vazamento divulgado pela revista L’Espresso, que fez a Santa Sé voltar aos tempos do Vatileaks. O papa Francisco, embora tenha condecorado Giani posteriormente, disse que havia sido cometido um “pecado mortal” e aceitou imediatamente a renúncia. Tudo isso enquanto o Vaticano encara pela primeira vez o fantasma da falência, como detalhou com 3.000 documentos secretos o jornalista Gianluigi Nuzzi no livro Giudizio Universale (“juízo final”). Uma projeção meio apocalíptica, se levarmos em conta o descomunal patrimônio imobiliário da Santa Sé, mas muito útil para evidenciar uma certa incapacidade de administrá-lo.

A APSA, empresa que controla todas as propriedades do Vaticano (cerca de 4.400 imóveis que valem, ao todo, 2,7 bilhões de euros, ou 12 bilhões de reais) e que se transformou em um banco paralelo, fechou 2018 com um resultado operacional de -27% − a primeira vez em sua história que fica no vermelho. O argumento é que teve de resgatar com 25 milhões de euros (111 milhões de reais) o hospital Istituto Dermopatico Dell’Immacolata (IDI) da falência (também por várias fraudes) e todas as perdas com o empréstimo concedido pela APSA foram registradas em um mesmo ano para não arrastá-las para o ano seguinte. Mas já não há ninguém na Santa Sé que confie na gestão de uma entidade cujo diretor anterior, monsenhor Nunzio Scarano, foi preso por lavagem de dinheiro. “Há imóveis que não rendem nada porque estão alugados para prestar favores que depois poderão ser cobrados de uma maneira ou outra, mas que prejudicam a economia”, explica um ex-responsável pelas finanças da Santa Sé. Especificamente, 15% dos imóveis, segundo o livro de Nuzzi, e metade do total está alugada por preços camaradas. O valor médio do aluguel é de 8 euros (35,65 reais) por metro quadrado. Os valores são de 20% a 80% menores que os de mercado.

Ninguém duvida, no entanto, que a crise aberta nas últimas semanas vai além do aspecto econômico e atinge em cheio a capacidade de serviço de um grande grupo de funcionários da Igreja. O Papa contratou um novo procurador, Giuseppe Pignatone, o juiz que decidiu arquivar em 2012 o caso do desaparecimento de Emanuela Orlandi, que sempre foi vinculado a uma trama sombria em torno do IOR e à quebra do Banco Ambrosiano. Trata-se de um linha-dura acostumado a lidar com os assuntos da máfia na Sicília, na Calábria e em Roma. Um sinal inequívoco da natureza do problema que envolve a Santa Sé, no qual Londres, como ocorreu na época do “banqueiro de Deus” Roberto Calvi (1920-1982), volta a ser uma cidade maldita.