Papa diz que só aceitará renúncia de cardeal condenado depois que ele esgotar o último recurso

No voo de volta de sua viagem a Marrocos, Francisco insiste em que há um ponto na questão dos abusos que "não se entende sem o mal'

O papa Francisco, na coletiva de imprensa no voo de regresso de sua viagem a Marrocos.
O papa Francisco, na coletiva de imprensa no voo de regresso de sua viagem a Marrocos.Alberto Pizzoli (AP)

O Papa foi questionado neste domingo à noite em seu voo de volta da viagem a Marrocos sobre algumas questões do momento no Vaticano. Uma delas, abordada ao mesmo tempo em que era exibida uma longa entrevista a Jordi Évole na emissora de TV espanhola La Sexta, foi sobre a recente condenação do cardeal e arcebispo de Lyon, Philippe Barbarin, por encobrir abusos sexuais. O cardeal, sentenciado a seis meses de prisão, apresentou sua renúncia ao papa há duas semanas. No entanto, o Pontífice decidiu não a aceitar e foi fotografado com ele sorridente. Algo que incomodou muito as vítimas.

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Barbarin, que decidiu deixar temporariamente o posto quando foi condenado, recorreu da decisão. E essa é a razão pela qual ele continua sendo arcebispo, explicou o Papa. "Eu não posso aceitar sua renúncia porque judicialmente há o direito à presunção de inocência. Quando o processo for encerrado, quando o segundo tribunal der a sentença, vamos ver o que acontece. Isso é importante para enfrentar a pressão midiática", disse ele. "Falei tantas vezes do caso da Espanha, onde a condenação da mídia resultou em padres injustamente acusados [refere-se ao caso conhecido como Romanones]. Antes de a mídia condenar, que espere pela justiça. Ele decidiu se aposentar e deixar um vigário liderar a diocese até que o tribunal dê a justiça final."

Francisco também se referiu a algumas das críticas recebidas após o resultado da cúpula contra os abusos sexuais, ocorrida no Vaticano no final de fevereiro. "Um jornal, depois do meu discurso, disse: 'O papa foi esperto: falou da pedofilia como praga mundial, depois falou algo sobre a Igreja e, no fim, lavou as mãos e culpou o diabo. Mas, para entender uma situação, é preciso dar todas as explicações. O que significa socialmente, culturalmente ... Eu tento dá-las, mas há um ponto em que as coisas não são entendidas sem o mal", afirmou.

Ao mesmo tempo em que o Pontífice fazia essas declarações no avião, diante dos correspondentes credenciados à Santa Sé, as declarações dadas a Jordi Évole, gravadas havia uma semana, estavam sendo exibida na TV. Nessa entrevista ele voltou a insistir no resultado da cúpula e na possível decepção das vítimas. "Eu as entendo. As pessoas buscam resultados para este momento. Se eu tivesse enforcado 100 sacerdotes abusadores na Praça São Pedro, tinha ocupado o espaço. Meu interesse não é ocupar espaços, mas iniciar processos de cura. Iniciar processos foi a coisa concreta da cúpula. E isso leva tempo. Mas compreendo as pessoas que ficaram insatisfeitas. Quando há uma dor no meio, temos que ficar em silêncio, rezar e acompanhar. Mas iniciar processos é o único caminho para a cura ser irreversível.”

Entre os temas que ele não havia mencionado antes, Francisco falou sobre a memória histórica e o direito dos parentes de muitos dos fuzilados durante a Guerra Civil de recuperar seus cadáveres. "Sempre defendi o direito à verdade. O direito a uma sepultura digna, de encontrar os cadáveres. É um direito, não só da família, mas da sociedade, que não pode sorrir para o futuro com os mortos escondidos. Eles têm que ser enterrados e individualizados. Nunca haverá paz com um morto escondido.”

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