Igreja abre a porta para ordenar homens casados na Amazônia

Sínodo vota a recomendar que pessoas com família possam ser padres em regiões onde os fiéis não podem receber a eucaristia

O papa Francisco recebe pessoas da Amazônia durante o sínodo, no último dia 17.
O papa Francisco recebe pessoas da Amazônia durante o sínodo, no último dia 17.AFP

O sínodo sobre a Amazônia, realizado durante o mês de outubro no Vaticano, termina com uma grande novidade. Duas das grandes propostas formuladas por um grande grupo de bispos da Amazônia, a ordenação de mulheres diaconisas e homens casados em regiões onde os fiéis não podem receber a eucaristia, ganharam neste sábado um importante impulso. A assembleia de bispos, da qual participaram 185 padres sinodais com direito a voto — e um grande número de especialistas e relatores —, recomendou que em algumas regiões possa ser estudada a possibilidade de ordenar homens com família. Uma decisão que o Papa deverá aprovar, mas que representa uma abertura histórica da Igreja e coloca sobre a mesa a questão do celibato.

A assembleia de bispos realizada no Vaticano desde o início de outubro tinha como objetivo discutir a proteção do meio ambiente na Amazônia, sobre as comunidades indígenas que o povoam e, particularmente, sobre a possibilidade de ordenar mulheres e homens casados para compensar a falta de sacerdotes. Este último ponto foi votado a favor por 128 membros e contra por 41. Uma aprovação baixa com relação ao restante das propostas, mas suficiente para que o Papa deva agora estudar sua aprovação na exortação apostólica que escreverá antes do fim do ano. Quanto à questão de ordenar diaconisas, também fortemente contestada, Francisco anunciou que reativará a comissão de estudos.

A decisão do sínodo tem caráter histórico e, embora o documento afirme explicitamente que se refere apenas à questão da eucaristia, trata colateralmente de uma questão tão espinhosa quanto o celibato no catolicismo. O setor ultraconservador da Igreja já expressou nas últimas semanas sua total rejeição a essa possível abertura, considerando que entraria em choque com a doutrina católica. Seus grandes promotores, como o bispo Erwin Kräutler, insistem que isso só tem a ver com a eucaristia. No entanto, esse prelado também apontou — em uma entrevista ao EL PAÍS — que a possibilidade de ter acesso aos sacramentos está acima da “graça do celibato”.

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O ponto 111 do documento votado explica assim a questão: “Propomos estabelecer critérios e disposições por parte da autoridade competente […] de ordenar sacerdotes homens idôneos e reconhecidos da comunidade, que tenham um diaconato permanente fecundo e recebam uma formação adequada para o presbiterado, podendo ter família legitimamente constituída e estável, para sustentar a vida da comunidade cristã por meio da pregação da palavra e da celebração dos sacramentos nas áreas mais remotas da região amazônica”.

A abertura, além disso, não afeta apenas a Amazônia. De acordo com o texto redigido, está escrito que “alguns se pronunciaram por uma abordagem universal do tema”. Uma nuance — “alguns” em termos do Vaticano significaria um número considerável — que amplia o horizonte da abertura e gerará um acalorado debate na Igreja nos próximos meses.

Francisco também adiantou que dotará de mais pessoal a comissão para estudar a possibilidade de ordenar diaconisas. Um órgão criado em 2016 que depois de dois anos de estudo chegou a um ponto morto sobre qual foi o papel ou se existiram as chamadas diaconisas nos primeiros anos do cristianismo. Durante esse sínodo, a necessidade de dar maior relevância à mulher na Igreja foi amplamente abordada, uma vez que nas comunidades amazônicas são essenciais para o funcionamento, como todos os participantes reconheceram. O papa disse que “recolhe a luva” lançada a ele pelas mulheres durante o sínodo para serem ouvidas.

O problema das mulheres, no entanto, é mais complicado. O diaconato permanente do sexo feminino não tinha muita chance de avançar, pois já havia sido analisado em paralelo na mencionada comissão. O caminho proposto até agora para aceitá-lo, alegando que nos primeiros tempos da Igreja havia ordenações de mulheres similares às dos homens, não goza de consenso relevante até o momento.