Tribuna
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A verdadeira guerra do Chile é contra a desigualdade

De um lado parlamentares descolados da realidade que recebem 60.000 reais, do outro classes média e baixa empobrecidas

Bombeiros combatem incêndio em um armazém durante os distúrbios no Chile.
Bombeiros combatem incêndio em um armazém durante os distúrbios no Chile.JOSE LUIS SAAVEDRA (REUTERS)

Faz muito tempo que um amplo mal-estar social impera no Chile. Embora fosse impossível prever que uma alta do preço do metrô de Santiago terminaria sendo a fagulha que detonaria maciças manifestações ao longo do país, é mais que compreensível por que tanta gente saiu às ruas para protestar. Os níveis de desigualdade imperantes são escandalosos, e a grande maioria da classe média vive angustiada por sua precariedade. Os protestos maciços logo deram lugar a saques a grandes lojas e supermercados, de maneira que o Governo terminou declarando estado de exceção e inclusive toque de recolher em muitas cidades do país.

A magnitude dos saques e da destruição demonstra que o país tem um problema estrutural. Este problema se chama desigualdade. Existem milhares de cifras a respeito, mas vou mencionar apenas quatro. Primeiro: a renda per capita dos 20% mais pobres não chega a 140 dólares (565 reais). Segundo: metade da população ganha cerca de 550 dólares (2.220 reais). Terceiro: hoje em dia, dois terços da sociedade chilena opinam que é injusto que quem pode pagar mais tenha acesso a saúde e educação melhores. Quarto: o sofisticado sistema de evasão tributária, que parte importante do grande empresariado usou de maneira sistemática durante anos, teve um custo para o fisco de aproximadamente 1,5 bilhão de dólares (seis bilhões de reais).

Todos estamos em choque com as imagens de descontentamento e raiva que percorrem o país. Entretanto, o Governo de turno e grande parte da classe política simplesmente parecem não compreender a magnitude do problema nem o que está em jogo. Na sexta-feira à noite, quando a situação estava saindo do controle, o presidente da República foi comer uma pizza em um restaurante de Vitacura, a comuna [bairro] mais rica de Santiago. Dias antes, o ministro da Economia declarou que, como a passagem de metrô em Santiago é mais barata em horários matinais, as pessoas deveriam madrugar para economizar dinheiro. Atitudes desse tipo só vêm a reforçar o mal-estar existente, e o Governo não realizou praticamente nada para tentar aplacar o fundo do problema.

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Qual foi então a resposta das autoridades? Por um lado, guardaram um inexplicável silêncio, e seu acionar foi tardio e atrapalhado. Por outro lado, o Governo começou a assumir um discurso crescentemente autoritário, dando a entender que o problema se soluciona com repressão. Sem ir mais longe, o presidente Piñera disse na noite de domingo que “o Chile está em guerra”. Argumenta que o país está enfrentando um inimigo poderoso, disposto a usar a violência sem nenhum limite. Nós que vivemos a ditadura de Pinochet escutamos estas palavras com consternação. Embora seja verdade que os saques são graves e é necessário gerar segurança, parece inconcebível que o Governo de turno não tenha o mínimo interesse de elaborar um relato que reflita o amplo mal-estar existente na sociedade chilena.

O militar prussiano Carl von Clausewitz é famoso por ter cunhado aquela frase que diz que “a guerra é a continuação da política por outros meios”. Quando o presidente do Chile indica que o país está em guerra e dá a entender que as Forças Armadas têm que solucionar o problema, estamos frente a um político que está claudicando em seu trabalho: governar. Por sorte, o general Javier Iturriaga, que encarregado da situação de emergência, declarou que não está em guerra com ninguém. O presidente Piñera e seus assessores parecem não entender que o problema que o país enfrenta não é militar, e sim político. A crise que o Chile está vivendo é uma chamada de atenção às elites de que é preciso realizar transformações profundas a fim de reconstruir o pacto social.

Quanto mais o Governo demorar a entender isto, mais difícil será sair da situação crítica em que se encontra o país. É verdade que as reformas políticas levarão tempo, mas algumas medidas simbólicas deveriam ser o primeiro passo que o Governo deveria tomar. Assim, por exemplo, é inconcebível que vários dos ministros que usaram uma linguagem marcada pela falta de conexão com a população continuem em seus postos. Por sua vez, dado que a remuneração parlamentar no Chile supera em 4,7 vezes a média mundial (um deputado no Chile ganha 60.000 reais por mês), o Congresso deveria aprovar o antes possível uma lei que estabeleça uma redução do salário de deputados e senadores.

Insistir no caminho repressivo não só gerará mais violência como também terminará por dar maior voz a forças de direita radical que clamam por restringir liberdades e que simplesmente não veem as desigualdades que imperam no país. Se a classe dirigente não compreender que é preciso reformar o modelo socioeconômico imperante, o que está em jogo é a democracia. A conclusão é simples: o Chile deveria estar em guerra contra a desigualdade. Essa guerra se ganha através da política, e não por outros meios.

Cristóbal Rovira Kaltwasser é professor de Ciência Política na Universidade Diego Portales de Santiago. É autor, com Cas Mudde, de ‘Populism, a Very Short Introduction’ (Oxford).