ÁRBITRO DE VÍDEO

Ruína do futebol ou avanço necessário? O VAR na opinião de dois comentaristas

Arbitragem por vídeo levanta discussões a cada rodada do Brasileirão e vira tema de debate no Legislativo nesta terça-feira. O EL PAÍS ouve um jornalista e uma ex-árbitra sobre a mudança mais impactante nesse esporte

VAR sendo usado na Copa do Mundo.
VAR sendo usado na Copa do Mundo.THEMBA HADEBE / AP

Cartão vermelho, pênalti e impedimento estão no vocabulário básico de qualquer torcedor de futebol, mas nem sempre foi assim. Hoje consagradas, essas medidas foram algumas das novidades introduzidas pela International Football Association Board desde 1883 para melhorar o esporte. Mudar as regras sempre fez parte do jogo, mas nada parece ter sido tão impactante para a história do futebol quanto a chegada da tecnologia como auxiliar da arbitragem. O árbitro de vídeo, popularizado como VAR, alterou a dinâmica do jogo com a promessa de trazer mais justiça às decisões dentro de campo. Usado na Copa do Mundo e nos principais europeus, a ferramenta estreou no Campeonato Brasileiro em 2019 e até agora trouxe mais dúvidas do que certezas.

São quatro os lances decisivos em que o VAR pode interferir nas decisões do árbitro de campo, conforme diz o protocolo da ferramenta: lances de gol, pênalti, cartão vermelho direto ou confusão de identidade dos jogadores. Se, em alguma dessas situações, os auxiliares sentados em uma cabine com várias telas de vídeo concluírem que o árbitro errou a marcação em campo, eles entram em contato com o responsável pela partida através de um fone. Caso o lance seja objetivo, como um gol válido anulado por impedimento, o simples recado via fone, respaldado pela consulta ao replay, serve para o árbitro legitimá-lo. As discussões aumentam quando a cabine discorda de uma marcação interpretativa do responsável no gramado. Caso aconteça, o procedimento pede que a cabine alerte o árbitro e peça para que ele revise o lance na tela localizada na beira do gramado. Os replays vistos trazem diferentes ângulos que, por sua vez, dão margem a diferentes interpretações sobre as quais os árbitros tentam concordar, apesar de a decisão final ser daquele que está em campo.

Mesmo com a aparente confusão, a aceitação do VAR tem sido maior do que as críticas. A Fifa se disse contente com o uso da ferramenta na Copa do Mundo, ressaltando que a tecnologia atuou de forma correta em 99% dos lances. Na mesma toada, a CBF divulgou em agosto um balanço mostrando que os acertos da arbitragem saltaram de 77% para 98% com o VAR no Brasileirão, alcançando índices parecidos com os principais campeonatos europeus –nos quais a realidade tecnológica já parece irreversível.

Em tempos em que o debate do VAR inflama os torcedores e chega até o Legislativo brasileiro –nesta terça-feira, uma audiência pública convocada pelo deputado federal Hélio Lopes (PSL) discute a ferramenta–, o EL PAÍS ouviu duas vozes contundentes contra e a favor da aplicação do árbitro de vídeo no futebol. O jornalista e comentarista esportivo Arnaldo Ribeiro ganhou fama pela militância anti-VAR e não hesita em classificar a novidade como uma "praga que acabou com o jogo". Por outro lado, a ex-árbitra Renata Ruel usa a experiência como profissional na área para sair em defesa da tecnologia: "Legitima o resultado".

Abaixo, os argumentos dos dois especialistas escolhidos para o debate:

“O VAR veio para arruinar o esporte mais precioso de todos os tempos”

O jornalista Arnaldo Ribeiro se coloca como maior inimigo do árbitro de vídeo no país e critica a ferramenta responsável pelas principais discussões no futebol brasileiro há mais de um ano

“A tecnologia já é realidade. Agora temos que investir no preparo dos árbitros”

Renata Ruel, ex-árbitra e comentarista, vê o árbitro de vídeo como um auxílio necessário no futebol, mas pede transparência da CBF e uma melhora no preparo da arbitragem