ÁRBITRO DE VÍDEO

“O problema não está no VAR. Precisamos de árbitros melhores”

Para Renata Ruel, ex-árbitra e comentarista, o vídeo como é um auxílio necessário no futebol, mas é preciso transparência da CBF e mais preparo da arbitragem

Mais informações

Entre as várias discussões que permeiam o uso do VAR no futebol brasileiro, o comportamento do árbitro está no centro das atenções. Se antes o auxiliar tinha a responsabilidade de marcar os impedimentos durante o jogo, hoje ele conta com a ajuda praticamente infalível do vídeo. Se antes o árbitro era absoluto nas decisões para a mediação da partida em campo, hoje ele precisa conversar com um colega que, assistindo ao mesmo jogo de uma cabine com ar-condicionado, opina, alerta e reinterpreta os acontecimentos em campo. As mudanças trazem uma readequação dos profissionais que, em mais de um ano de uso do árbitro de vídeo no Brasil, ainda traz polêmicas. "Vejo o VAR como um auxílio que já faz parte da nossa realidade. Agora, temos que investir no preparo e instrução dos árbitros", opina a ex-árbitra e hoje comentarista de arbitragem, Renata Ruel.

No primeiro semestre deste ano, Ruel resolveu se aposentar da arbitragem aos 40 anos para se tornar comentarista do assunto nos canais ESPN. Desde então, sua função diária é elucidar as dúvidas dos jornalistas e do público sobre as polêmicas, tarefa que se tornou mais complicada com o advento do VAR. "Ao contrário do que dizem, a regra não tem nada de clara, é muito interpretativa. Mesmo o texto escrito dá margem a diferentes visões", argumenta.

Apesar da complicação, Ruel é a favor do VAR no futebol, tratando-o como necessário em um mundo que está constantemente evoluindo e se atualizando através da tecnologia. "O árbitro de vídeo atua na legitimação do resultado da melhor maneira possível", opina. Mas ela faz a diferenciação entre lances factuais, em que é possível chegar à decisão certa de forma mais clara, e os interpretativos, em que entra a opinião dos árbitros. "Se o VAR está precisando corrigir muitos lances é porque os erros estão sendo cometidos. Vemos alguns árbitros se escondendo atrás da ferramenta, usando como bengala", diz, destacando que a tecnologia é responsável apenas por levar a imagem até os analisadores, e não pela interpretação que fazem dela. "O problema está nas pessoas", afirma.

Pergunta. Por que você é a favor do VAR?

Resposta. Eu vejo a tecnologia como uma realidade em todos os momentos da nossa rotina. Por que não trazer essa realidade para o futebol? Temos que acompanhar as evoluções que a vida traz, nos atualizar. Vejo o VAR como um auxílio para o futebol que atua na legitimação do resultado da melhor maneira possível. A tecnologia traz uma imagem que nos dá uma melhor visão para que possamos interpretar, então o problema não está na tecnologia, está nas pessoas. A imagem é a mesma que todos estão vendo. Se a imagem é uma só, o problema está na interpretação.

P. Que balanço você faz do uso do VAR no Brasil?

R. Quando analisamos lances factuais como o impedimento, que não geram interpretação, o VAR está sendo perfeito. Existem problemas na hora que cabe interpretação, porque entramos na questão da falta de uniformidade de critérios de quem utiliza a ferramenta. A tecnologia foi implementada no futebol brasileiro de forma muito rápida. Enquanto a Premier League estudou mais de um ano para implementar, o Brasil se apressou, e o treinamento [dos árbitros] não foi o suficiente. Os árbitros estão pecando em interpretações por conta das recomendações que recebem. O protocolo do VAR fala em erros claros e óbvios, mas às vezes o vemos interferindo muito em lances interpretativos em que deveriam manter a decisão do árbitro em campo. Em outros, deveriam sugerir revisão e ficam quietos. O VAR corrige alguns resultados, mas se ele está interferindo muito é porque a qualidade da arbitragem em campo não é das melhores, porque os erros seguem sendo cometidos. É isso que precisa melhorar.

P. O balanço apresentado pela CBF divulgou um índice de acerto de 98% por parte da arbitragem com o VAR no campeonato brasileiro de 2019. Como você vê essas estatísticas?

R. Falta a transparência de mostrar o número de erros cometidos por árbitros em campo. Se o VAR corrigiu tanto, os árbitros erraram tanto. O índice do VAR traz um acerto maior em lances factuais. Os interpretativos dividem opiniões, e são neles que percebemos a ausência de uniformidade dos critérios.

P. O mesmo balanço fala em um custo de 51.000 reais com o VAR por jogo na rodada. É um custo alto?

R. É um valor alto. Se entrarmos na comparação do que um árbitro ganha por jogo, é bem alto.

P. A possibilidade de a CBF criar uma central do VAR, fixa em uma cidade, como aconteceu na Copa do Mundo e em outros campeonatos, melhoraria o uso da ferramenta?

R. O [Leonardo] Gaciba [chefe da comissão de arbitragem da CBF] disse que eles gostariam de criar uma central para deixar os árbitros de vídeo lá, mas tem a questão estrutural de precisar puxar fibra ótica e outros cabos dos estádios. O Brasil é muito grande e esse é um complicador. Eu vou além da central: tenho a visão de que estão criando uma função nova de arbitragem com o VAR. Pode ser um curso novo, porque pessoas que só trabalham nessa função não precisam ser árbitros que tenham atuado no campo de jogo. Hoje o teste físico faz muitos árbitros se aposentarem, e nesse caso você prezaria pela qualidade em vez da disposição física. O Gaciba terminou a carreira mais cedo em razão de teste físico, assim como o Wilson Luiz Seneme, presidente do comitê de arbitragem da Conmebol. Eles eram ótimos árbitros, então dá para aproveitar o conhecimento dessas pessoas no árbitro de vídeo. Isso seria sensacional. Não precisamos mais investir na tecnologia, temos que investir na instrução de profissionais.

P. O VAR está sendo utilizado de forma pior na América do Sul do que na Europa?

R. Sempre quando comparamos futebol na América e na Europa precisamos pensar em culturas diferentes. Aqui falta muito respeito dos jogadores com a arbitragem. Na Europa há mais respeito. Dou o exemplo da Copa América: a maioria dos jogadores que jogaram o torneio é de jogadores que atuam no futebol europeu. Lá, eles não reclamam com a arbitragem, mas na Copa América foi uma coisa de louco. Então sabem que não podem lá e que podem aqui. Além disso, vejo na Europa um investimento maior na arbitragem e na necessidade de ter uma uniformidade de critérios.

P. Você falou sobre a falta de preparo dos árbitros e a ausência de uniformidade de critérios. Você acha que o VAR, além de jogar luz sobre quem não está preparado, faz com que as regras do futebol sejam mais debatidas?

R. É importante dizer que existem alguns profissionais competentes atuando e que não arrumam problemas quando trabalham com o VAR. Tem uma questão recente de adaptação, mas existem árbitros executando bem a função em campo e no vídeo. Por outro lado, alguns lances escancaram para a gente aqueles que não têm qualidade e que precisam de um preparo maior. No São Paulo x Ceará, pela 15ª rodada do Brasileirão, houve um pênalti claríssimo do goleiro Tiago Volpi que não foi marcado em campo nem sugerido para revisão na cabine de vídeo. Aí houve o erro no gramado, onde o profissional não viu, e no vídeo, onde se equivocaram apesar da tecnologia. Já a regra não tem nada de clara, é muito interpretativa. Mesmo o texto escrito dá margem a diferentes visões.

P. A aplicação do VAR trouxe uma nova determinação da Fifa a respeito dos toques de mão na bola, uma vez que agora nenhum gol que tenha um toque no braço pode ser validado. O árbitro de vídeo traz a tendência de tornar as regras mais objetivas?

R. A única regra envolvendo toque de bola na mão clara hoje é esse lance factual, de que se a bola bateu no braço o gol não é valido. Tirando isso, a regra da mão está cada vez mais difícil de ser assimilada pelo árbitro porque ela se torna cada vez mais interpretativa. Não é mais usada a diferença de "bola na mão" e "mão na bola" como antigamente. Estamos precisando de uma alteração nas regras para clarear esse tipo de situação, mas não podemos esquecer de que o jogador não consegue saltar sem o impulso do braço e não corre com a mão colada no corpo. É preciso levar em consideração a velocidade e a distância em relação à bola.

P. Então você gostou dessa nova regra que invalida gols em que a bola toque no braço, já que é bastante clara?

R. Quando lançaram essa regra, houve o argumento de que o futebol não aceita um gol que originou de um toque no braço, mesmo que sem querer. Isso ficou claro e tornou mais fácil a marcação por parte do árbitro. Se for para facilitar e todo o mundo entender, maravilha. Não concordo com todas as regras, mas se existem elas precisam ser cumpridas.

P. Os lances de impedimento estão incluídos nos chamados lances factuais. No entanto, tivemos nas últimas semanas dois gols do Flamengo, um anulado de Gabigol na Libertadores contra o Grêmio e outro validado de Bruno Henrique no Brasileirão contra a Chapecoense, que até agora não tivemos a certeza de que a arbitragem acertou mesmo com os replays, por conta dos detalhes milimétricos da jogada. Você acha que a regra do impedimento também vai precisar passar por uma adaptação? Ou o VAR não vai conseguir ajudar sempre, mesmo nos lances objetivos?

R. Normalmente o impedimento é um lance factual. Só é interpretativo se o árbitro precisa decidir se o jogador em posição irregular participou ou não da jogada. Os lances do Flamengo foram factuais, mas acho que faltou mostrar ao público como a tecnologia funciona. A imagem pausada que chegou até nós era o momento exato em que a bola saiu do pé do jogador que fez o passe? Porque um milésimo de diferença no frame da imagem que a equipe analisa pode mudar a posição de um jogador por centímetros. Faltou uma transparência de mostrar como é puxada a linha do impedimento, como é feito o procedimento. O campeonato inglês mostra todo o processo de traçar a linha do impedimento, desde o primeiro momento, com todos os detalhes necessários em tempo real. A CBF não precisa fazer o mesmo simultaneamente, mas eliminaria dúvidas ao mostrar como funcionaram os bastidores da marcação mesmo que depois do jogo. Agora, com a tecnologia, a função do assistente praticamente acabou em campo. Se erram, o VAR corrige.

P. Com o passar do tempo, existe alguma possibilidade de relativização ou de recuo do protocolo do VAR?

R. Não tenho dúvidas de que o protocolo do VAR vai passar por alterações. Ele está sendo implementado agora, só depois do uso que se verifica o que pode ser ajustado. Eu tenho essa visão, e a CBF e a Fifa também. Vimos mudanças na Premier League [que adotou depois dos principais campeonatos] que mostra uma interferência mínima literal, diferente do protocolo da Fifa [que prega a interferência mínima, mas nem sempre a pratica]. Já no próximo ano teremos uma ou outra mudança, e esse protocolo vai ser ajustado constantemente, assim como as regras do jogo. Mas só o tempo para diagnosticar o que será alterado.