Autópsia de Jeffrey Epstein revela que tinha vários ossos quebrados no pescoço

Acusado de exploração sexual de menores, magnata morreu no sábado num aparente suicídio em sua cela. O resultado é compatível com enforcamento e estrangulamento

Protesto contra Epstein o passado 8 de julho ante o tribunal de Nova York.
Protesto contra Epstein o passado 8 de julho ante o tribunal de Nova York.STEPHANIE KEITH (AFP)

A autópsia do magnata Jeffrey Epstein, acusado de exploração sexual de dezenas de menores e que aparentemente se suicidou em uma prisão federal no sábado, revelou que tinha vários ossos quebrados no pescoço, segundo informou o jornal The Washington Post na quarta-feira. Esse tipo de fratura é compatível com morte por enforcamento e estrangulamento, de acordo com o jornal, citando fontes conhecedoras do resultado da autópsia.

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Epstein, de 66 anos, foi encontrado inconsciente por volta das seis e meia da manhã de sábado, enforcado em sua cela no Centro Correcional Metropolitano de Manhattan. O magnata, que tinha relações com a elite política dos Estados Unidos, incluindo Donald Trump e Bill Clinton, foi transferido com uma parada cardíaca para um hospital no centro da cidade, onde sua morte foi confirmada. O milionário já tinha sido atendido em 25 de julho depois de ter sido encontrado inconsciente e com marcas no pescoço, também dentro de sua cela. As autoridades estavam investigando se as marcas tinham sido autoinfligidas ou se eram resultado de um ataque.

A investigação posterior à morte revelou graves irregularidades na prisão. A última delas, que os dois guardas de segurança que deveriam vigiar a cela e visitar Epstein a cada 30 minutos, não o fizeram nas três horas anteriores ao incidente porque adormeceram, e posteriormente falsificaram o registro para encobrir seu erro, segundo publicou nesta quarta-feira o The New York Times, citando agentes da ordem e funcionários da prisão com conhecimento do caso.

Além disso, de acordo com o status especial imposto a Epstein depois que foi retirado do programa de prevenção ao suicídio, o magnata deveria estar acompanhado em sua cela. Mas no momento de sua morte, o companheiro de cela de Epstein também não estava, pois havia sido transferido recentemente, o que representa uma infração ao regulamento do centro penitenciário. A morte do milionário está sendo investigada pelo FBI e pelo Departamento de Justiça.

Os advogados de Epstein tinham avisado o juiz que seu cliente havia recebido ameaças e que temia por sua segurança. O magistrado negou a liberdade sob fiança até o julgamento, previsto para meados do próximo ano. Segundo argumentou, Epstein representava um perigo para a comunidade, além haver alto risco de fuga por sua fortuna. As incógnitas em torno da morte do milionário desencadearam uma onda de teorias conspiratórias que colocam em dúvida que tenha sido um suicídio, uma saga pontilhada por personagens famosos, poderosos e até mesmo aristocráticos, como o príncipe Andrew da Inglaterra.

Rede de tráfico sexual

Os promotores acusam o investidor e seus empregados de orquestrar uma rede de tráfico sexual, levando dezenas de menores para sua residência em Manhattan e Palm Beach, Flórida, entre 2002 e 2005. O magnata se declarou inocente depois de sua prisão. Nas buscas feitas em sua mansão de sete andares no centro de Nova York depois da prisão, os agentes do FBI encontraram um CD com centenas de fotos de suas vítimas, algumas completamente nuas.

Epstein, cuja fortuna é avaliada em 500 milhões de dólares (cerca de 2 bilhões de reais) já havia sido preso em 2006, acusado de abusar de uma garota de 14 anos em sua casa na Flórida. O Ministério Público de Nova York afirmou que o milionário explorou menores “particularmente vulneráveis”. Primeiro as levava para casa para que lhe fizessem massagens, mas depois abusava sexualmente delas. Pagava centenas de dólares às vítimas e um dinheiro extra para aquelas que o levassem a outras meninas. O caso foi encerrado em 2008, quando o então procurador federal de Miami, Alexander Acosta, negociou com Epstein para que se declarasse culpado de ter prostituído uma menor, o que lhe permitiu evitar as acusações federais que poderiam significar prisão perpétua.

Uma investigação do jornal Miami Herald, publicada em novembro, ressuscitou o caso e deu a conhecer esse acordo secreto, que provocou a renúncia, no mês passado, de Acosta como secretário do Trabalho do Governo Trump. O acordo, muito criticado porque as vítimas não foram informadas dos detalhes, permitiu que Epstein se declarasse culpado em troca de uma sentença de 13 meses de prisão por promover a prostituição, que cumpriu na forma de trabalhos comunitários em seu escritório.

A morte do magnata não encerra o caso. Os advogados de algumas das vítimas já anunciaram que continuarão buscando justiça para elas. Os investigadores agora podem se voltar contra outras pessoas acusadas de ligações com a rede. Além disso, algumas, como Jennifer Araoz, que acusa o magnata de tê-la estuprado quando ela tinha 15 anos, entraram com uma ação contra o patrimônio e os cúmplices do falecido milionário. Araoz se amparou na Lei de Vítimas de Abuso Sexual Infantil de Nova York, que desde esta quarta-feira e durante um ano, elimina o prazo de prescrição nesse tipo de crime para permitir que as vítimas possam processar seus agressores independentemente de sua idade.

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