Paternidade

Vamos ser campeão (sic)!

No quinto capítulo do 'Diário de um pai recém-nascido', remoo a possibilidade de meu filho, que nasceu são-paulino, vir a trocar de time

Rodolfo Borges

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“Vai lá de coração, vamos, São Paulo, vamos, São Paulo, vamos ser campeão!”. A falta de concordância ao final do grito de guerra nunca me incomodou muito. Instintivamente me refugio na poesia da convocação coletiva, de uma torcida, uma nação, para a glória de uma unidade, no singular: o clube — uma explicação menos poética e mais gramática aponta a ocorrência de uma silepse de número. A gente enxerga sofisticação onde pode, encontra explicação para tudo, tolera o erro daqueles de quem a gente gosta. E esse preâmbulo linguístico todo é apenas para dizer que não gosto de pensar na possibilidade de meu filho, que nasceu são-paulino, vir a trocar de time. Também não me soa nada bem, contudo, obrigá-lo a torcer pelo clube mais vitorioso do país onde nasceu. Seria uma violência inaceitável, ainda mais quando a fase não vai bem. Os sádicos já me ameaçam, dizendo que Lucas será corintiano — e pode ser pior, tendo em vista que cresci em Brasília: ele pode vir a torcer pelo Flamengo, a nação do insuportável cheirinho. Seria trágico. E cômico. Porque, nesse caso, ironicamente, eu não apenas faria questão de levá-lo ao Itaquerão ou ao Maracanã, mas consigo me ver inclusive torcendo para qualquer desses dois times ganhar, só para ver o meu filho sorrir — me imagino mesmo celebrando, a partir de vídeos do passado, os chutes divinos do profano Marcelinho Carioca ou, num extremo aterrorizante (oh, o horror, a humanidade!), embarcando às gargalhadas em uma dessas piadas sem graça de que Obina é melhor que Eto’o. Mas por que pensar no pior? Temos tempo, ele mal tem um mês de vida. Além do mais, a competição real virá de fora. É mais fácil meu filho querer frequentar o Santiago Bernabéu ou o Camp Nou. Mas nós acabamos de assistir a uma vitória acachapante do Tricolor sobre a Chapecoense depois de oito jogos sem vitória. É hora de aproveitar o otimismo, antes que ele passe — antes da próxima rodada. E eu ainda tenho muitas glórias que vêm do passado como argumento para mantê-lo ao meu lado na torcida. Como Lucas conseguirá resistir ao mito de Rogério Ceni, cujos feitos já eram irresistíveis antes mesmo de serem emoldurados pelo passar do tempo? A elegância de Raí em campo também resistirá aos anos de desgaste como dirigente, isso é certo. As arrancadas de Juninho Paulista e de Denilson, o vigor exagerado de Lugano, a disposição irresponsável de Luís Fabiano — e o que dizer da chegada de Daniel Alves, cuja apresentação parece ter ressuscitado o Morumbi? Também tem os títulos internacionais, o tricampeonato brasileiro de Muricy, discípulo do mestre Telê, outro grande ativo do clube… Mas a minha cartada final são os gols impossíveis de França. E, quem sabe, de tanto assisti-los e de tanto me ouvir falar no assunto, Lucas descubra enfim a gravação do lance em que Françoaldo fingiu um lançamento no meio de campo em um jogo contra o Palmeiras e a câmera da Globo acompanhou, humilhada, uma bola invisível, voltando constrangida no segundo seguinte para descobrir que o craque desengonçado não tinha soltado a bola. Quem sabe meu filho não encontre esse lance e tire enfim da minha cabeça a impressão de que eu o inventei, num delírio futebolístico inesquecível de quem via os jogos do São Paulo à distância, pela televisão. Meu destino era torcer para o Sport Club do Recife. Assim como meu pai, como grande parte da minha família. Mas o acaso nos fez passar por São Paulo no início da década de 1990. O São Paulo Futebol Clube estava arrebatador. Eu e meu irmão nos convertemos naturalmente, mesmo indo morar em Brasília logo depois — ou principalmente por ir morar em Brasília, túmulo do futebol —, e acabamos contagiando nosso pai, nossa irmã, nossas mulheres. Meu pai ainda torce para o Sport, assim como todos nós, mas é o São Paulo que a família toda segue, é nele que prestamos mais atenção. É por onde eu me permito perder o controle. Xingar, ofender, desabafar, praguejar. O controlado descontrole do futebol, confinado dentro das quatro linhas. Mas é também onde eu aprendi a me controlar, a me equilibrar, a dividir esforços, compartilhar missões, focar objetivos, raciocinar rápido, antecipar cenários e reagir quase que instintivamente, mas de forma calculada. Foi onde eu aprendi a ganhar e perder desde muito cedo, a reconhecer e aceitar meus limites, a me relacionar, onde aprendi a prestar atenção nas outras pessoas, a decifrar suas intenções, ler seus pensamentos. É muito difícil dissimular dentro de campo. A bola expõe as inseguranças, a confiança excessiva, o egoísmo patológico, e pune cada um desses defeitos. Quem estiver disposto a conversar com ela, a partilhá-la, recuar para avançar na hora certa, dar o passe para quem estiver mais bem posicionado, sairá de campo lapidado, pronto para escapar dos carrinhos e caneladas da vida. Não precisa nem virar profissional, Lucas. E, sob alguns aspectos, é até melhor não se profissionalizar, para não perder o foco do jogo, do desafio, das trocas, da amizade, das brincadeiras, da camaradagem, do companheirismo, do respeito — não me vem cavar falta na pelada, e só vale pedir o VAR se for de sacanagem. Depois de anos querendo ser jogador de futebol, eu percebi que, para ser profissional, é necessário que sua vida dependa disso — financeira ou psicologicamente. Meus pais não permitiram que isso acontecesse, e eu posso apenas agradecer. O Brasil perdeu um segundo volante de drible curto e passe longo. Terá de se contentar com um escritor capaz de celebrar um ou dois títulos na carreira — e talvez tenha mais sorte com seu filho. 

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