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Dramas de pais de primeira viagem: ‘Meu bebê não liga pra mim’

Em sites, os pais, encorajados pelo anonimato, se abrem, pedem ajuda e se apoiam uns aos outros

Dia dos Pais 2017
Filme “Juntos Pelo Acaso” (2010)

“Tenho um filho de quatro meses e quando olho para ele não sinto nada. E, obviamente, não é algo de que possa falar com minha mulher. Estou preocupado porque sei que não é um sentimento saudável”. Esse depoimento tão cru foi escrito por um pai no Daddit, o fórum sobre paternidade do Reddit, um site onde pessoas de todo o mundo trocam opiniões e experiências, desde a coisa mais trivial até, como neste caso, assuntos mais profundos, como a paternidade.

Não é o único lugar em que se trata da relação entre os pais e seus bebês. Por exemplo, o Dads Adventures (Aventuras de Papais) é um site em que os pais pedem ajuda e se apoiam uns aos outros. Podemos ler comentários como este: “Tenho um bebê de apenas um mês que só chora quando eu o tomo nos braços. Se a mãe e ou outras pessoas o pegam, ele fica bem, mas a cada vez que eu o pego começa a chorar. Tento não encarar isso como algo pessoal, mas é muito frustrante”.

Nesse site se encontra o depoimento de um pai que, encorajado pelo anonimato que protege aqueles que escrevem em seu fórum, confessa que não tem qualquer sentimento pela filha de quatro meses. “Tenho um filho de cinco anos e nunca foi difícil conectar com ele. A partir do momento em que entrou na minha vida, embora às vezes seu choro me tire do sério, meu filho se tornou alguém imprescindível para mim. Agora tenho uma filha de quatro meses e meus sentimentos não têm nada a ver. Eu me sinto totalmente desconectado dela. Ao ponto de ela ser indiferente para mim. Eu sei que soa terrível. Tento brincar e falar com ela, mas nada parece funcionar. Não sei mais o que mais fazer”.

O que se segue a essa declaração sincera é uma série de palavras de encorajamento de outros pais que aconselham esse homem a pedir ajuda o mais rápido possível. “A coisa mais importante é acabar com o estigma. Esse tipo situação é mais comum do que se imagina. É preciso ter em mente que as mães têm nove meses para se acostumar com a ideia, mas para o pai, que não sofreu mudanças físicas ou hormonais, a paternidade é algo mais repentino. O vínculo que se desenvolve entre mãe e filho durante os meses de gestação é uma poderosa vantagem da qual ele não pode se beneficiar”, explica a especialista em psicologia clínica e terapia familiar sistêmica María Jiménez.

Tenho um filho de cinco anos e nunca foi difícil conectar com ele. Mas agora tenho uma filha de quatro meses e me sinto totalmente desconectado dela. Ao ponto de ela ser indiferente para mim. Eu sei que soa terrível

Outra dificuldade é que não é de estranhar que, ao se tornarem pais, tanto o homem como a mulher tendem a abandonar seus papéis anteriores, como por exemplo o de parceiro. Isso, ao invés de ajudar a se adaptar à paternidade, aumenta a ansiedade. “Por mais filhos que se tenha não se deve esquecer que ele é mais do que um pai. As pessoas são parceiro de, filho de, especialista em, apaixonado por... e é importante que o papel do pai não anule o resto das facetas”, diz Jiménez.

Existe outro fator importante a considerar: o papel desempenhado pelo pai, desde o momento da concepção, se coloca em segundo plano em relação ao papel da mãe. E quando o bebê nasce essa sensação pode se tornar difícil de suportar. “Como posso deixar de me sentir um completo inútil?”, pergunta o pai de menino de 16 dias “no banco de reservas” porque seu filho só procura consolo – e alimento – com a mãe. “Sinto que estou fazendo tudo que posso para ser o que ele precisa, mas não é suficiente”, conclui. “Durante os primeiros meses tudo gira em torno da mãe. Uma das principais funções do pai é cuidar dela, sendo seu principal apoio, para que esta, por sua vez, possa cuidar e alimentar o bebê corretamente”, diz a psicóloga.

Na série ‘Baby Daddy”, Ben, um jovem de 20 anos, descobre que é pai de um bebê e que terá que criá-lo sozinho
Na série ‘Baby Daddy”, Ben, um jovem de 20 anos, descobre que é pai de um bebê e que terá que criá-lo sozinho

O lugar ocupado por cada um dos pais não só muda com o nascimento do bebê como também evolui à medida que este cresce e suas demandas mudam. E, como todos os pais de primeira viagem sabem, absolutamente cada pessoa que cruzarem, dos avós ao verdureiro, terá uma opinião sobre como se deve fazer qualquer coisa relacionada com o bebê. Isso, para muitos, se torna um problema, mas o que acontece quando as diferenças ocorrem dentro do casal?

“Sou pai noviço de uma criança de 18 semanas. Minha mulher não me deixa segurar o bebê, trocar as fraldas ou alimentá-lo. Ela está exausta, mas não me deixa ajudar, e está começando a pagar por isso com as pessoas próximas. Existe algo que eu possa fazer para que ela me deixe ajudar e poder passar algum tempo sozinho com meu filho?”, pergunta outro pai no Dad Adventure.

Temos de acabar com o estigma. Esse tipo situação é mais comum do que se imagina. É preciso ter em mente que as mães têm nove meses para se acostumar com a ideia, mas para o pai, que não sofreu mudanças físicas ou hormonais, a paternidade é algo mais repentino

Neste caso, o excesso de zelo dela pode ser simplesmente devido ao medo de uma mãe novata, mas também pode subjazer a ideia, socialmente estabelecida, de que eles têm menos capacidade para educar um bebê. A falta de jeito dos homens que muitas vezes é usada como desculpa acaba prejudicando suas habilidades como pais. “Culturalmente, as habilidades dos homens para cuidar de qualquer ser humano são subestimadas”, diz María Jiménez. A herança cultural – antigamente assistir a família não era atribuição dos homens – incentiva essa crença que, no entanto, já está desatualizada. “Faz muito tempo que deixamos de ser homens das cavernas. O que se deve fazer é fomentar essas capacidades nos homens”, aponta a especialista.

Mas ainda ficarão restos dessa falsa crença. Um body de bebê “à prova de papais”, com três flechas desenhadas, cada uma indicando onde vão os braços e a cabeça do pequeno, não caiu nada bem para alguns pais, fartos de verem suas habilidades como pais serem denegridas. “Parece que voltamos a 1950” ou “isso é muito indulgente, como um produto desse chegou às lojas?”, são algumas das queixas que compartilham na Internet. Embora outros, conscientes de que essa questão da paternidade é uma corrida de fundo e algumas vezes é melhor encará-la com humor, disseram: “As instruções não são claras, onde vão as pernas?” É que, como diz Jiménez, “tudo se aprende na vida, a ser pai também”. E sem manual de instruções.

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